Coluna Escrevernar

A cozinha, a escrita e a técnica (mas não só)

O fato é que cada um de nós carrega uma essência culinária que nos torna singular. E penso o mesmo sobre a escrita.

Foto: “Retrato com as batatas”, de Marina Abramović (Lisson Gallery/ Reprodução).


Durante a primeira metade de janeiro, estive de férias com a família. Ao longo dos dias, além de conhecermos vários pontos turísticos, o deleite ficou por conta das experiências com a culinária local. Aliás, para nós, talvez seja a melhor parte do roteiro das nossas viagens: sentir outros sabores tocando a língua, a saliva surgindo quase involuntária, a abertura das papilas para receber tantas novidades — ou melhor, emoções. Porque uma boa comida emociona: nos carrega para outro tempo, outro lugar, outra versão de nós mesmos. E não importa onde estejamos, quando apreciamos, verdadeiramente, um prato, tentamos decifrá-lo. Desejamos, com certa rebeldia, descobrir os ingredientes, perguntar ao garçom o modo de preparo, numa vontade quase ridícula de repetir o feito em casa. Mas sabemos, no fundo, que não basta a receita para acertar o ponto. Há algo que não se escreve no papel.

Minha avó cozinhava muito bem e quando se encantava com o preparo de um quitute, costumava pedir a receita. Depois, passava a lista de ingredientes para minha mãe, seguia todo o passo a passo, mas, ao provar, sentenciava: “não está igual”. Chegava a insinuar que a pessoa tivesse escondido algum detalhe de propósito. Claro que não era isso. Eram outras mãos.

Eu mesma sigo as receitas que minha avó nos deixou como espólio afetivo, e nenhum dos meus bolos sai exatamente como os dela. Nem a carne assada, nem o cuscuz de viúva. Com o tempo, fui adaptando tudo ao meu paladar: acrescentei ingredientes, testei novas medidas, arrisquei combinações improváveis. Hoje sei que meus pratos carregam a minha alma. Já não buscam fidelidade, mas o meu próprio traço culinário.

O fato é que cada um de nós carrega uma essência que nos torna singular. E penso o mesmo sobre a escrita.

Por mais que eu leia manuais de escritores renomados, siga dicas preciosas ou tenha frequentado dezenas de oficinas, minha voz literária só pôde ser alcançada escrevendo. Ou melhor: errando.

“Passei um bom tempo tentando seguir à risca os manuais, sem obter resultados satisfatórios. Somente quando decidi percorrer meu próprio caminho comecei a compreender o meu processo de escrita e a refletir com mais robustez meus projetos literários.”

– Myriam Scotti

Minha voz nasceu na reescrita, nos textos descartados, na teimosia contra o óbvio, na raiva que me fez abandonar projetos e na esperança silenciosa de que, após uma noite de sono, a neblina do texto se dissipasse. Passei um bom tempo tentando seguir à risca os manuais, sem obter resultados satisfatórios. Somente quando decidi percorrer meu próprio caminho comecei a compreender o meu processo de escrita e a refletir com mais robustez meus projetos literários.

Minha avó dizia que cozinhar é uma ciência e que, se não seguirmos a receita à risca, não há êxito. Preciso corrigi-la — com carinho, claro. Quando ainda somos verdes, imaturos, sem qualquer experiência, os manuais e as receitas precisam, sim, ser seguidos com rigor. Eles nos ensinam os primeiros passos, os fundamentos, a segurança mínima para não desperdiçar tudo.

Mas chega um momento em que é preciso abandonar as medidas, confiar no próprio paladar e deixar que as coisas aconteçam conforme a nossa alma pede. E isso vale tanto para a cozinha quanto para a escrita.