
3 poemas de Xipu Puri para o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas
Em comemoração ao Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas, trouxemos 3 poemas do multiartista, historiador e pesquisador Xipu Puri.
Foto: Chica Libre.
I
Que minhas palavras não pereçam em livros,
Mas, sigam sendo canto no coração de minha gente
II
Alkeh poteh
Antes de sermos Minas
Éramos constelação
Entre serras antigas, os caminhos no chão apontavam para os sentidos dos povos.
A vida sorria e sua poética nos fazia humanos diante das plantas, dos seres todos, dos encantados.
Os caminhos dos tahe, dos antah e das titiñan
O passado e nossos entes passados bem sabem como era antes do tempo ser garimpado no sol.
Antes do feijão escorrer pelas mãos e do milho ficar anêmico no morro.
Mas como meu velho dá ao orvalho, o chá por mor de curar o ventre, nos damos à terra, este canto que nos lembra que antes de sermos minas minava água do chão.
E antes de sermos indígenas, éramos constelação
III
infância indígena
me lembro do makï
guardado no paiol
em que sentávamos a debulhar e a brincar
quando criança
antes de moer e comer nosso destino,
passado
era o milho que no frio e no barro do chão
no vermelho e entre o barranco branco de terra
me contava histórias
que eu não sabia contar
o milho que nos fazia gente
guardado na alma familiar
aquele paiol de bambu, madeira e barro
um locus não dito,
que encontrei após ter ido ao chão
do chão nasceram as histórias que conto
pois é onde vejo meu rosto m criar forma
pois, me lembro
do rezo entre as casas
do mistério dos velhos
do cheiro de suas roupas
e corpos benzidos
ambiente antigo
que o tempo se fazia ver
o som e os sentidos do milho
da terra, do entorno, da encosta
onde descia um rio triste
um frio ameno
que molhava as pernas
aquele antigo e melancólico chão
contava histórias
que novamente observo
debulho e conto
minha origem é onde foi forjado meu humano

Xipu Puri é Historiador, Mestre em Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e pós-graduando em Arte: Crítica e Curadoria pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Suas produções artísticas acompanham sua formação interdisciplinar, compreendendo diversos tipos de linguagem, transitando, sobretudo, pela literatura, música, artes visuais e o teatro, investindo no experimentalismo e em temas que instrumentalizam o conhecimento histórico, suas memórias e sua origem indígena. Nascido no interior de Minas Gerais, migrou-se para São Paulo e atua com a criação e desenvolvimento de projetos pela produtora MIRIPONAN, fundada em 2023.
