
Escrever crítica literária nunca foi tão perigoso
Algumas reflexões sobre o exercício da crítica literária por quem leu, editou, escreveu ou pensou sobre crítica todos os dias nos últimos 5 anos.
Arte: Jota Mombaça (série MaterialGirl/All You Toch) – via Centre d’édition contemporaine, Geneva. Foto de Simon Jaton.
Hoje a revista O Odisseu faz 5 anos. Ao mesmo tempo que parece que tem mais (pelo volume do que produzimos), parece que tem menos (pela rapidez com que tudo aconteceu). Quando comecei a revista, estava sozinho. Não sabia exatamente qual seria o formato. Começou como podcast e foi para o instagram até se tornar propriamente uma revista digital. Eu sabia, e sempre soube, aquilo que eu queria fazer: crítica literária. O nascimento da revista se dá na minha transição do curso de comunicação para o ingresso em outra graduação: Letras (com uma breve passagem pelo curso de economia (?) no meio de tudo isso). O ingresso no curso de letras também foi o modo como encontrei para me especializar no estudo da crítica. Eu já entrei no curso sabendo que eu queria estudar para fazer crítica (embora muitos me dissessem que não precisava, afinal, a maioria dos críticos eram jornalistas). Ao mesmo tempo em que estive no curso (que acabei de finalizar na UFBA), editei a revista. Demorei muito até escrever, eu mesmo, uma crítica. Antes eu preferia fazer apenas comentários ou ensaios que pensassem a historiografia da literatura. Eu tinha e tenho muito respeito pelo exercício da crítica. Assim, nos últimos cinco anos, todos os dias eu li ou editei ou escrevi ou pensei sobre crítica literária. Consumo todos os demais suplementos, jornais, blogs e newsletters. Leio tudo o que está sendo dito sobre a literatura contemporânea e entro em todas as tretas possíveis.
Bom, acho que isso me dá alguma bagagem para falar alguma coisa sobre crítica literária nesse país, né?
As barreiras geográficas permanecem no exercício da crítica
Primeiro, gostaria de dizer que a crítica enfrenta uma fase estranha. Os grandes veículos resenham apenas os textos dos autores mais conhecidos. Se você for amigo de alguém, suas chances de ganhar uma crítica num grande veículo (certamente muito elogiosa) é alta. Ou se você for muito popular. As barreiras geográficas importam: autores nordestinos e nortistas precisam trabalhar dez vezes mais por uma crítica literária decente, enquanto outros autores apenas mandam no zap o seu original para os amigos de família dos grandes jornais. Não é de todo sem lógica que um jornal prefira aquilo que traga mais retorno em termos de alcance e interesse de leitura. No entanto, algumas obras monumentais simplesmente passam despercebidas dos grandes veículos. Por exemplo, como uma obra da envergadura de “Modernismo Negro”, de Jorge Augusto (Editora Segundo Selo, vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico e segundo lugar na Biblioteca Nacional) não apareceu na capa de uma Ilustrada dessas da vida? Isso mostra que o radar, o mapeamento dos espaços de crítica hegemônicos no Brasil, é extremamente falho. Vemos sem parar os mesmos autores.
Esse incômodo inicial, percebido desde os primeiros momentos, quando eu ainda era apenas leitor de crítica, me levou a tomar algumas decisões políticas na O Odisseu. A decisão de não fazer crítica literária paga foi sempre óbvia para mim. Embora façamos publicidade, não fazia sentido algum para mim que a editora ou o próprio autor pagasse por uma crítica. Isso claramente iria resultar num enviesamento. Respeito quem faz (e entendo também, afinal, é muito difícil fazer crítica sem ceder ao mercado de publicidade), mas prefiro escorregar pelos becos lamacentos, redemoinhar aos ventos feito farrapos, arrastar os pés sangrentos…
Outra decisão foi a de não privilegiar um autor que está no auge em relação a um autor igualmente talentoso, mas de menor circulação. Claro que isso é um desafio. Em grande parte porque o próprio público leitor (que vira e mexe reclama que só os autores famosos aparecem nas revistas) tem interesse em ler sobre autores iniciantes. É só comparar o alcance de uma publicação de um autor muito famoso e um iniciante.
A lógica de mercado, queridos… Está em todo canto.
O que é o autor?
Então, começamos a perceber que nunca antes foi tão perigoso escrever crítica literária. Tenho certeza disso. Primeiro que a figura do autor está inteiramente deslocada daquilo que tínhamos enquanto referência de autor. Se na época do célebre ensaio de Foucault, O que é um autor?1, o francês já estava com uma série de incômodos sobre a autoria, fico pensando o que Foucault pensaria hoje em dia, quando os autores são tratados como celebridades. Nas bienais do livro, nas festas literárias, com direito a fã clube e tudo mais. O autor ocupa no espaço público mais um lugar de artista que de formador de opinião (que era algo muito comum nos séculos passados). A mudança da coluna do jornal para as redes sociais mudou tudo. O fluxo de resenhas literárias no Instagram ou TikTok, trends ou coisas do tipo fazem com que o lugar que a literatura ocupa hoje se torne muito mais próximo de um conteúdo de entretenimento que de assombro. Nesse contexto, o autor está vivíssimo (sorry, Barthes) e vaidoso também. As respostas às críticas não são mais nos jornais, mas diretamente nas redes sociais, onde qualquer atrito se torna um espetáculo midiático.
Mas o autor não é o único perigo do crítico. Por vezes, o crítico é inimigo dele mesmo. O crítico pode ser tão vaidoso quanto o autor. Algumas críticas deixam transbordar o gozo de debochar, ridicularizar ou atacar uma obra literária. Nesses textos, é comum que o crítico chame mais atenção para si que para os demais. Como quem diz: “olhem para mim! Olhem como eu desafio esse autor”. Nada que nunca tivesse acontecido na história da crítica também, mas agora acentuado pela dinâmica das redes. Esses críticos estão mais interessados no caos que na crítica literária. Não se trata de ser categórico e dizer: isto é ruim. É sobre encerrar a possibilidade de leitura e rotular definitivamente: “este livro não presta nem para servir de apoio para mesa capenga”. Para isso, faz-se necessário recorrer aos títulos e às credenciais. Recorrendo ao ad verecundiam (falácia do argumento de autoridade), será sempre importante colocar à mesa os seus títulos e assim professores universitários com décadas de universidade se sentem totalmente confortáveis (com cacife o suficiente) em dizer o que é e o que não é literatura. Como santos ou verdadeiras divindades, esses professores não podem ser questionados.
Sinto igual tédio pelos autores vaidosos e críticos vaidosos.
A escrita que rasura a literatura e a crítica literária
Mas o grande tensionamento da contemporaneidade, no que se refere à crítica, é a autoria que rasura o imaginário do que é uma Literatura com L maiúsculo. Precisamente, estou falando da autoria negra, indígena, LGBT+ e de outras minorias. Em especial a autoria negra. A presença do autor negro periférico nos grandes prêmios, nas listas de mais vendidos, nas festas literárias, desestabilizou completamente o pequeníssimo círculo literário brasileiro, sempre acostumado a conhecer a família de onde vinham os grandes autores. É óbvio que a crítica literária ainda não sabe lidar com o autor negro periférico. A simples presença deste autor rasura a dinâmica de mitiês sob a qual o circuito literário brasileiro foi construído.
A ousadia do autor negro contemporâneo é a ousadia de quem viu nascer e usufruiu da Lei de Cotas. Então não é mais pedir para ser incluído, é demandar a inclusão. Essa demanda também vem do público leitor que não mais quer ler histórias só na perspectiva de homens brancos. A cara da literatura brasileira mudou, mas os trâmites ainda não. Gosto da honestidade com que Fernanda Torres diz no Roda-Viva “eu acho que quem está perdido somos nós, os brancos progressistas”. De fato. Como Torres argumenta, o branco progressista se viu sempre como porta-voz dos oprimidos, mas agora os oprimidos falam por si. Isso gera incômodo. Ô se gera.
A reação da crítica literária a esses autores tensiona entre dois lados radicalmente opostos: ou trata a autoria negra como uma autoria que merece menor rigor de leitura (e nesse sentido lemos os textos de autores negros como quem brinca com crianças que ainda são café com leite) ou de deslegitimar completamente: não é bom, não é literatura. Vou falar das duas questões.
Elena Brugioni em seu maravilhoso livro Literaturas africanas comparadas: paradigmas críticos e representações em contraponto (Editora da Unicamp, 2019), fala do paradigma pós-colonial da mercadoria da diferença. Isto é: o mercado descobriu que publicar livros sobre pessoas minorizadas vende. E vende principalmente quando se utiliza de estereótipos da diferença, quando transforma o autor em um sobrevivente exotico (para citar James Baldwin). É sempre a história de superação da pessoa minorizada e a história de superação ou de absoluta desgraça ou de absoluta diferença da cultura hegemônica como mecanismo de venda de livros. Vejamos o que diz Brugioni:
A sobreposição entre crítica cultural e dimensão global determina, em rigor, uma lógica de ‘mercadorização da diferença’, desembocando numa prática de comodificação de produtos culturais exóticos em escala global. A esse propósito, as circunstâncias materiais de afirmação e legitimação de um determinado objeto artístico e, logo, literário, tornam-se fatores determinantes para um discurso crítico em torno das dinâmicas de textos, autores e literaturas que, incorporando alteridade e diferença, estabelecem um outro sistema de valores… (p. 151). 2
Esse é apenas um aspecto. O fato é: que a cor do autor chega a nós antes mesmo de lermos o texto. Toni Morrison escreve, inclusive, que essa cor chega com tanta antecedência que conseguimos enquadrar a autoria negra no rótulo da luta antirracista mesmo que o livro não fale sobre isso, enclausurando-o a esse único tema: “Se Phillis Wheatley escrevesse ‘o céu é azul’, a questão crucial seria o significado do céu azul para uma escrava negra.”3.
Esse ato é feito tanto por leitores e críticos brancos quanto autores e críticos negros. Na crítica feita por autores negros, por exemplo, é muito incomum encontrar uma crítica negativa a um livro. Os laços de fraternidade, ou também os laços da luta antirracista, são tão fortes que nós, críticos negros, quase não nos permitimos criticar negativamente o livro de outro autor negro. Um dia uma amiga me disse: “o escritor negro batalha tanto para chegar lá e a gente sabe que qualquer crítica negativa automaticamente o deslegitima”. Ela estava certa. Se as críticas elogiosas pouco servem para um autor negro ascender no circuito literário, uma crítica negativa pode ser responsável por acabar com a carreira inteira de um autor negro. Se a crítica negra ainda protege semelhantes é porque sabe o quanto que ainda é difícil ser um autor negro no Brasil. A um autor branco, por exemplo, é dado o privilégio de escrever um livro ruim e ainda assim publicar outro em seguida e se redimir. A um autor negro, não. A não-venda, a recepção ruim de um livro seu, tudo isso contribui para o seu esquecimento.
Então, é muito comum que no quilombo literário se apoie e se proteja a todos. Isso é louvável, mas traz a implicação de que os nossos textos não são lidos com rigor devido. Isso também é uma forma de perpetuar o racismo. É quase como se não acreditássemos que um negro pudesse escrever algo melhor. Eu, enquanto crítico e enquanto negro, prezo pela leitura rigorosa e afetiva ao mesmo tempo. Como quem diz: “irmão, vamo melhorar isso aí?”.
Mas não se enganem. Ao contrário do que se diz, não existe isso de “cancelar” o crítico por uma crítica negativa a um autor negro. Para que isso acontecesse, a população leitora negra deveria ter a capacidade de cancelar alguém. Preto, nesse Brasil, não tem poder de cancelar branco. Quantos escândalos com autores brancos aconteceram e eles continuam aí? Qualquer revolta de leitores negros ou autores negros contra a crítica não recai no crítico. Recai no autor que se torna a figura do “negro agressivo”. De certa forma, a branquitude sempre está em busca de rotular o autor negro de demasiado emocional. “Ele não aceita críticas”, dizem. Mas quem aceita? São só os autores negros que se revoltam com críticas?
O maior erro da crítica hegemônica, a meu ver, é sempre se basear em autores brancos para examinar inovações estéticas. Como venho dizendo, a escrita negra é uma escrita de rasura. Ao escrever, o autor negro desafia diretamente o que se chama de Literatura com L maiúsculo. Convoca elementos das culturas africanas, da oralidade afro-brasileira, dos orikis, da didaticidade dos griots, mas o crítico branco, por exemplo, sempre toca nessa tecla do didatismo. Conversando com isso com Aldri Anunciação para o Podcast O Odisseu, ele me disse: “sou didático, mas porque minha referência de literatura é o didatismo do griot”. Mas o texto do autor quase sempre vai ser lido sob o prisma da crítica ocidental. Daí, haja Barthes, haja Bakhtin, haja Benjamin para deslegitimar o texto de um autor negro. Faz-se necessário dizer de uma vez por todas: não vamos pagar pedágio para escrever. Ninguém é obrigado a gostar, mas também ninguém pode dizer que não é literatura.
Esses incômodos, atritos e estranhamentos marcam o cenário da crítica literária contemporânea e faz dela um fruto estranho4 tanto quanto a literatura contemporânea. Nisso a crítica e a literatura se juntam e formam o espelho dessa sociedade fragmentada, extremamente polarizada e que tem como marca a palavra de ordem e a disputa por espaços. Não se enganem, não há nada de fofo na literatura. Nada de “leitura é um hábito diário” por aqui. A literatura, assim como todos os demais espaços da sociedade, está em disputa. Nessa, nem críticos e nem autores estão ganhando.


- FOUCAULT, M. O que é um autor?Trad. António F. Cascais e Eduardo Cordeiro. 6ª ed. Lisboa: Nova Vega, 2006. p. 31. ↩︎
- BRUGIONI, Elena. Literaturas africanas comparadas: paradigmas críticos e representações em contraponto. Campinas/SP: Editora da UNICAMP, 2019. ↩︎
- MORRISON, Toni. Prefácio In: Sula. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2021. ↩︎
- GARRAMUÑO, Florencia (2014). Frutos estranhos: sobre a inespecificidade na estética contemporânea. Rio de Janeiro: Rocco. ↩︎