
Em ‘A Casa da Opera da Manoel Luiz’, Celso Tádhei faz uma homenagem ao teatro brasileiro
Em entrevista à revista O Odisseu, Celso Tádhei conta como se valeu da história real de um teatro no Brasil Colônia para escrever “A Casa da Opera de Manoel Luiz”, livro finalista do Prêmio Jabuti.
Quais foram os primeiros artistas de teatro do Brasil? E como se deu essa produção artística? De certa forma, a arte em nosso país, assim como em todos os outros, desempenhou papel fundamental na criação da ideia de uma nacionalidade, assim como do pensamento crítico. Mergulhar na história das formas artísticas é, portanto, uma viagem pela história do país contada a partir de seus melhores cronistas: os artistas. Pensando nisso que Celso Tádhei decidiu que tinha uma história muito boa para contar.
A história real da Casa de Opera de Manoel Luiz remonta ao Brasil ainda Colônia, mais precisamente à época da chegada da Coroa Real de Portugal às terras brasileiras (fugindo das guerras napoleônicas). Portanto, temos como pano de fundo um Brasil pré-independência, ainda muito escravocrata, misógino e sob dominação da antiga metrópole. Nesse cenário, entretando, a arte abre espaço. Manoel Luiz, que dá título ao livro, foi um barbeiro português recém-chegado ao Brasil e com o objetivo de viver de arte. É ele quem funda o segundo teatro da cidade do Rio de Janeiro.
Segundo Tádhei, toda história surpreendente mostra o poder da arte em driblar o autoritarismo. Além disso, por mais que seja desconhecida da maior parte dos brasileiros, a Casa da Opera de Manoel Luiz guarda as bases do que se tornaria o teatro brasileiro.
“Como eu conto no livro, descobri essa história muitos anos atrás, fazendo uma pesquisa para meu grupo teatral da época. Há muita pouca coisa sobre o teatro colonial nos livros de história, a maioria são relatos da precariedade do período, sempre tratado como irrelevante e limitado em termos artísticos. Porém algo me chamou a atenção: precário ou não, foi ali que foram lançadas as bases sobre as quais se ergueu o teatro brasileiro. Assim, fui descobrindo Manoel Luiz e uma série de artistas incríveis, e cada um deles me trazendo novas questões: como em um Brasil escravagista e super racista pôde existir uma atriz preta de tanto sucesso como Lapinha, atores como João dos Reis e Capacho, e o próprio compositor e padre José Maurício Nunes Garcia? O dilema do artista entre criação e sobrevivência é um dos meus temas preferidos e aqui havia mil possibilidades para explorá-lo. Descobri que a dificuldade de Manoel Luiz gerir seu teatro ainda é a mesma dificuldade de tantos empreendedores da arte no Brasil; a segregação que Lapinha sofreu ainda é a mesma segregação sentida por tantas e tantas atrizes no nosso país. Dessa forma, fui me aproximando e transformando histórias de pessoas que viveram no século XVIII em um relato vivo, próximo, do qual eu me sentia parte. Pelo menos essa foi a minha intenção.” – Conta Celso Tádhei à revista O Odisseu.

“Quando vi que fui indicado ao prêmio Jabuti, nem acreditei”, diz Celso Tádhei à revista O Odisseu
Roteirista com longa experiência na televisão, sobretudo na área do humor, Tádhei conta que se sentiu inseguro na hora de começar o romance: “Essa mudança de linguagem representou, para mim, um empoderamento artístico, a realização de um desejo antigo. Então eu simplesmente disse para mim mesmo: ‘Sim, eu posso escrever romances.’ Porém, me assumir como um novo ‘colega’ de Clarice Lispector e Machado de Assis não foi assim tão simples. É incrível como funciona a cabeça da gente, né? Ao mesmo tempo que os grandes gênios da literatura nos iluminam, eles nos assustam. Escrevo para o audiovisual há anos. Veja, o cinema, a tevê, requerem uma estrutura física e financeira imensa para se realizar. Livros, por outro lado, precisam apenas da caneta e do papel, nem ao menos computador é necessário. De onde estava vindo a dificuldade de escrever um romance? Da minha cabeça? Das inevitáveis comparações? Da necessidade de acertar?”
A longa trajetória de Tádhei na televisão, na escrita de programas como Zorra Total, Malhação ou Sítio do Pica-Pau Amarelo, por mais que não o fizesse sentir-se preparado, certamente contribuiu muito para o tom humorado da narrativa e o envolvimento que o leitor desenvolve com a obra. Acima de tudo, como ele mesmo menciona, proporciona uma aproximação com a palavra que o fez um estreante premiado:
“Escrevo quase todos os dias há décadas, isso sem dúvida fez a diferença. Mesmo assim, como disse, ao longo do processo me deparei com meus próprios medos e inseguranças por mudar de linguagem. Pensar que estava tentando escrever Literatura, com L maiúsculo, foi em algum momento, paralisante. Tirei a maiúscula e ficou bem mais fácil. Quando vi que fui indicado ao prêmio Jabuti, nem acreditei: aparentemente minha loucura havia funcionado, pelo menos em alguma instância…”
E que estreia! Celso Tádhei foi finalista do Prêmio Jabuti na categoria romance de entretenimento, dividindo a disputa com grandes nomes da ficção literária, como Raphael Montes. Além disso, o livro já foi destaque em diversos jornais justamente por proporcionar um mergulho na história do teatro brasileiro. Trata-se, podemos dizer, de uma justíssima homenagem a esses artistas que estavam apagados no memória nacional, mas que agora ressurgem com a pesquisa e a ficção de Tádhei.
“Antes de mais nada, preciso dizer que não sou historiador, nem sequer pesquisador. Quando decidi escrever o livro, sabia que teria um desafio enorme pela frente. Escrever um romance histórico requer um fôlego e tanto! Por isso o meu é um romance eletro-histórico – o que quer que é… bastante peculiar. Há pesquisa, sim. No entanto, há também um personagem-autor que está atrapalhado com essa mesma pesquisa e que tem como principal fonte para os acontecimentos o próprio Fantasma de Manoel Luiz. Esse fantasma, junto com um intelectual bastante excêntrico, o Doutor, Doutor e Doutor Lionardo, são os nossos guias, meu e do leitor, nessa fascinante descoberta do mundo teatral do Brasil Colônia e Imperial.”.

A Casa da Ópera de Manoel Luiz, de Celso Tádhei
Editora Mondru, 2024
208 pp.

