
“Não volte sem ele”: Rafael Caneca reconta a história da seca de 1930 e dos “campos de concentração”, que enclausuraram retirantes nordestinos, em primeiro romance
Em entrevista à revista O Odisseu, escritor cearense conta que seu primeiro romance, “Não volte sem ele” (Mondru), nasce da necessidade de não esquecer o passado e encarar os traumas históricos.
O tema da seca de 1930 (ou da seca em geral), bem como as narrativas em torno dos retirantes que fugiam dela, não são inéditos na literatura. Desde os clássicos da literatura modernista, da chamada geração regionalista, até obras mais recentes, trata-se um plot de livros inesquecíveis, sobretudo quando se fala das secas históricas do começo do século passado. Para o romancista Rafael Caneca, ainda existem vestígios deste tempo que permanecem tanto como imaginário sobre o nordeste, quanto como cicatrizes nas famílias nordestinas.
Caneca conta que a sua própria história familiar é atravessada pela repetição das narrativas sobre as grandes secas do início do século passado e pela migração. Em grande parte, essa imagem viva de algo que ele não viveu o guia para a escrita de seu primeiro romance, “Não volte sem ele”, que conta a história da busca de Tomás por seu irmão Antônio, que após migrar do sertão para a capital, fugindo da seca e em busca de novas oportunidades, para de dar notícias. No desenvolver da trama, lemos sobre os grandes Campos de Concentração criados para enclausurar os retirantes da seca, uma demonstração viva do preconceito desumano contra aqueles que apenas desejavam viver longe da miséria.
Em tempos de novas ações contra a migração de pessoas nordestinas, como as recentes decisões inconstitucionais do estado de Santa Catarina que buscam barrar a entrada de novos nordestinos e migrantes no estado, podemos dizer que o tema continua mais atual que nunca. “Infelizmente, a história é cíclica, e de tempos em tempos a gente tem que lembrar algumas barbaridades que já ocorreram, destacar alguns preconceitos que ainda ocorrem e apontar absurdos que podem vir a ocorrer. Relembrar para não repetir – ou para saber prevenir e corrigir os erros”, me contou o escritor em entrevista entrevista.

“Não fui o primeiro (nem serei o último) a escrever sobre a seca nem sobre os retirantes”, diz Rafael Caneca, autor de Não volte sem ele
Organizado ao redor de fatos históricos, o livro de Caneca se apoia em um processo de pesquisa criterioso. Sua escrita, ele conta, é resultado tanto da fabulação que nasce com histórias que ouviu da sua família, tanto quanto da visita aos dados e à pesquisa científica. Entretanto, um acontecimento marca o início, a decisão de contar a trama dos dois irmãos tendo como pano de fundo a seca de 1930: o Coletivo Delirantes, um coletivo de escritores de Fortaleza. Sobre o coletivo, o autor conta:
“Há alguns anos, faço parte de um coletivo de escritores aqui de Fortaleza (Coletivo Delirantes); após um período afastado do grupo, decidi retornar quando já estava em andamento um projeto de livro de contos pensado pelos então integrantes que apresentam, como pano de fundo, fatos relevantes da História do Ceará de fins do século XIX às primeiras décadas do século XXI, tendo a linha férrea que unia o Estado de Norte a Sul como elemento integrador das histórias. Cada conto se referia a uma estação da via férrea e contemplava um tema.
No meu retorno, estava livre a estação de Senador Pompeu e o fato histórico ‘A estiagem de 1932 e os campos de concentração’, o que imediatamente atraiu minha atenção. Não sou historiador, mas adoro história e ficção histórica; fui então em busca de fontes para servirem de pano de fundo para meu conto, e achei um trabalho de uma historiadora, chamada Kênia Rios, professora de história da Universidade Federal do Ceará, que foi de fundamental importância para que eu pudesse aprender mais sobre esse fatídico episódio. E, claro, para que eu pudesse selecionar aquilo que considerava de maior importância para incluir na minha história.”
Entretanto, aquilo que Caneca pretendia que fosse um conto, demonstrava potencial para ser algo mais. “Escrevi, então, o conto, que chamei de ‘Patu’, mas achei que a história e o episódio pediam mais. Muita coisa ainda precisava ser contada… Foi por isso que decidi partir para uma narrativa mais longa: o conto, então, foi incluindo mais detalhes e ganhando corpo até se tornar esse romance, ‘Não volte sem ele‘“. Começava aí o desejo da escrita que o faria revisitar ainda mais a história do Ceará e também se deparar com as representações existentes sobre o Nordeste, o nordestino e o retirante.
Aproveitei para perguntar a Rafael como ele encara o fato de que ainda está vivo na memória cultural brasileira a paisagem do nordeste e da seca pintada pelos autores da geração de 30. Até hoje, “Vidas Secas” ou “O Quinze” são tomadas enquanto as grandes referências para falar desse período histórico. De lá pra cá, no entanto, muita coisa mudou.
Contudo, para Rafael, essa representação está longe de ser um problema “Não sou o primeiro e nem serei o último a escrever sobre a seca”, me contou. Para o autor estreante, o diferencial está no modo como o autor escolhe escrever. Isto é, nas suas escolhas de léxico, no foco narrativo e no seu próprio estilo.
“Começo minha resposta dizendo que, sobre essa questão dos temas na literatura, já teve teórico afirmando que, na essência, a literatura só fala de vida ou de morte (tem corrente, inclusive, que reduz apenas à vida, já que a morte é seu contraponto). Tudo isso serve para ressaltar que, de fato, o que escrevo não é nenhuma novidade. Não fui o primeiro (nem serei o último) a escrever sobre a seca nem sobre os retirantes; no entanto, cada escritor tem a sua voz própria, e eu optei por, na minha história, focar em um episódio pouco abordado – não ouso dizer inédito, porque aí não estaria sendo verdadeiro – na literatura brasileira: a dos famigerados campos de concentração construídos, no estado cearense, para impedir a entrada dos sertanejos na capital Fortaleza durante a década de 1930, sertanejos que fugiam da seca e da fome naquele período. Sertanejos que, movidos pela fé e pela esperança, buscavam oportunidade e sobrevivência. O foco, então, não é única e exclusivamente na paisagem, mas ela é uma personagem importantíssima na história que decidi contar.”
A família enquanto centro da narrativa
Há, no entanto, algo que diferencia a narrativa de Caneca daquilo que geralmente lemos nos romances sobre os retirantes. Ao invés de focar na luta pela sobrevivência, o autor centra a trama nas relações familiares. De certo modo, a migração, sobretudo para fora do nordeste, continua sendo uma grande questão no entorno das famílias nordestinas. A busca por novas oportunidades e o desejo de crescimento econômico ainda são fatores que levam muitos a migrar para o Sul ou Sudeste. De certo modo, esse tensionamento influencia no romance de Rafael. Sobre isso, ele conta:
“Eu costumo brincar que Fortaleza é uma cidade formada por retirantes, né? Pelo menos a grande maioria das pessoas que eu conheço veio de outro lugar. Eu, por exemplo: embora tenha nascido aqui, meu pai é do Recife (de onde vem o Caneca, do frei) e minha mãe de Juazeiro do Norte. Quando mais novo, sonhava em morar fora – talvez por isso tenha nutrido durante muitos anos o sonho de ser diplomata. Ao mesmo tempo, sou muito “família”, então não sei – de verdade – qual seria a minha reação e como se daria o meu comportamento (e o da minha família) caso esse sonho tivesse se concretizado. Nunca esteve na ordem do dia, em um almoço de domingo, conversar sobre eventos hipotéticos, conjecturar sobre “o que aconteceria se eu fosse embora”. Então, o que foi inventado no meu romance, nesse aspecto, não teve grande impacto no ambiente familiar – pesaram muito mais, por exemplo, os aspectos trágicos da história do que o próprio deslocamento/movimento migratório das personagens.”

Você já pode comprar o livro “Não volte sem ele” diretamente no site da editora Mondru. Basta clicar aqui!

