
Primeiro Capítulo de ‘Tempos Amarelos’, de Verônica Yamada
Em “Tempos amarelos”, sua primeira obra de healing fiction, Verônica Yamada apresenta uma protagonista nipo-brasileira em um futuro próximo, adoecida pela intensificação de uma cultura de trabalho que conduz à desumanização.
Pela terceira vez desde que ela havia se sentado, o reservatório de urina vazou. Marina já estava acostumada: sempre que ia trabalhar, esquecia-se de esvaziá-lo. O fato é que, se ela descartasse o reservatório depois do número recomendado de usos, isso não aconteceria. Mas aquela era uma forma de economizar dinheiro, e Marina precisava economizar.
Suspirando, a menina de 24 anos se levantou e foi até o banheiro. Sentou-se no vaso sanitário, tirou a sonda vesical e esvaziou a bolsa coletora no vaso. Limpou-se e deu descarga. Voltou à sua escrivaninha, pegou uns lenços umedecidos na gaveta e limpou a cadeira onde sentava para trabalhar.
Afastou um pouco o calendário de mesa analógico que ocultava sua bateria vital e olhou por curiosidade. Menos de vinte por cento. A luz vermelha indicava que já era hora de parar, mas Marina não podia. Tampou novamente a bateria e voltou ao banheiro para lavar o rosto. Há quantos dias mesmo estava naquilo? Já não se lembrava mais.
Voltou à escrivaninha. Olhou sua cafeteira elétrica e lembrou-se de que não havia colocado o pó. Abriu o pote onde o guardava e descobriu-o vazio. Suspirou. Se jogar o pote na parede pudesse fazer surgir mais café, ela o teria jogado. Mas não. Precisava do pote e, também, de mais café.
Foi até a cozinha do apartamento, onde quase nunca pisava, e procurou nos armários. Nada. Droga! Resmungando, abriu o aplicativo de compras rápidas on-line e colocou café em seu carrinho. O que mais faltava em casa? Fez uma checagem visual na cozinha, mas nunca fazia sua própria comida, então não precisava de nada. Voltou ao quarto onde trabalhava e foi ver nas gavetas e nos armários o que faltava. Nada lhe chamou a atenção; ou melhor: a ausência de nada foi notada.
Finalizou sua compra e foi ao banheiro recolocar a sonda vesical. Sentiu uma ardência maior do que devia ao inserir a sonda e pensou melhor. Talvez fosse bom ficar um tempo sem ela. Retirou-a e voltou à escrivaninha. Sentou-se pesadamente na cadeira recém-limpa. Pegou por hábito sua xícara, vazia, e só se lembrou da falta do café ao tentar enchê-la. Que louca! Não tinha acabado de comprar o café?
Abriu o notebook e voltou a trabalhar. Eram planilhas e mais planilhas com variados números. Às vezes, ela até tentava explicar o que fazia, mas falhava sempre. Mexo com números. Era a explicação mais fácil. Talvez nem seu chefe soubesse o que ela fazia; Marina tinha essa teoria.
Encarando sua tela, prendeu o cabelo em um coque desarrumado e começou a fazer sua mágica. Números para lá, tabelas para cá, gráficos e análises em diferentes abas. No entanto, não durou muito tempo. Sua bateria vital apitou. Restavam-lhe cinco por cento de energia. Era hora de dormir. Marina sabia que quando fechasse os olhos, não acordaria por um dia inteiro, portanto, decidiu que era melhor esperar o café chegar.
Quanto tempo mesmo fazia que havia pedido? Uns trinta minutos? Marina olhou no relógio. Duas horas! Onde estava seu café? Não é possível. Haviam ido plantá-lo? Estavam moendo os grãos? Ela estava morrendo de sono e cansaço. Resolveu não esperar mais, e foi dormir. O café ficaria na portaria até ela acordar.
***
Marina não gostava de café, mas era viciada. Tomava cerca de um litro de café coado por dia, todos os dias. O hábito nascera na faculdade, quando precisava ficar acordada por várias horas, ou estudando, ou trabalhando. No início, uma xícara era o suficiente para uma noite, mas com o passar do tempo, as doses de cafeína tiveram que ir aumentando.
Era um amargor de que ela simplesmente não gostava — fazia careta a cada gole de café tomado —, e ainda assim, ela continuava tomando. Era um vício. Seu estômago não aguentou muito tempo: no quarto ano de faculdade, começou a dar sinais de que o inocente café não era tão bom quanto queria acreditar Marina, e a garota começou a precisar de medicação anti-gastrite.
Todo mundo tem gastrite. Assim como todo mundo tem rinite, sinusite, blefarite, otite, tendinite, dermatite, artrite, ceratite, e mil ites. Não era nada de mais. Porém, Marina não era todo mundo; não era isso o que dizia sua mãe?
A questão era que Marina sabia que aquilo não era verdade. Ela era como todo mundo. Exatamente igual. Ela se nutria de dados, e os dados, dela. Era uma troca, mas ela não sabia se justa.
Quando finalmente os relógios vitais foram criados, deveriam ajudar pessoas como Marina. Deveriam avisar aos usuários quando precisassem de descanso, para que não sofressem um battery-out.
No entanto, Marina era humana, e humanos sempre acham que conseguem superar seus próprios limites. Não é isso o que nos foi ensinado? Talvez isso fosse verdade para algumas pessoas, mas ela era apenas uma humana ordinária. E, sim, ela entrou em seu battery-out.
Veronica Yamada é médica oftalmologista, escritora e editora. É millenial, nasceu e mora em São Paulo com seus muitos pets. Escreve principalmente horror e distopias, pois deseja que seus livros furem bolhas. Ganhou o Prêmio Talentos Helvéticos em 2023 e Carne de segunda se tornou um best-seller da Amazon.

Tempos Amarelos, de Verônica Yamada
Editora Sedas (Selo de Diversidades Asiáticas), 2025.
