
Escrever sobre aquilo que está escondido: Rafael Pinheiro fala sobre a escrita de ‘Até que o céu caia’
Em entrevista para a revista O Odisseu, Rafael Pinheiro conta como buscou equilibrar a carga emocional do seu livro ‘Até que o céu caia’ entre técnica e sentimento.
Um livro sobre deslocamento. Enquanto Eulália vai do Recife a São Paulo em busca de enfrentar o seu passado, Olavo faz o caminho inverso para alimentar o seu desejo de vingança e justiça. De certa forma, os dois personagens de Rafael Pinheiro buscam a mesma coisa, que é encarar de uma vez por todas sentimentos conflitantes que já não podem caber dentro do peito. O livro então se desenvolve no desejo de recuperar o tempo perdido, como se o caminho para Recife (ou São Paulo) fosse um caminho de volta para o próprio passado.
Nessa construção, Rafael Pinheiro opta por desenvolver personagens complexos e contraditórios em suas próprias emoções. Como ele mesmo menciona na conversa que tivemos, seu desejo era evitar o melodrama e dar contornos reais para Olavo e Eulália. Para isso, foi preciso buscar a força do sentimento como motor da narrativa, mas também a técnica literária necessária para conseguir dosar na medida certa. O resultado é um livro que atravessa os difíceis temas do perdão, da culpa e do medo de maneira cuidadosa. Na entrevista, perguntei a Rafael se o objetivo era construir um romance psicológico, mas ele disse que não buscou dar um rótulo à obra, o que poderia reduzí-la:
“Acho que classificar qualquer romance, ou obra literária, corre o risco de soar reducionista. Especialmente porque cada pessoa pode ter uma interpretação diferente. Mas concordo quando diz que o livro se propõe a mergulhar no mundo interior das personagens. Esses dias estava falando com uma amiga sobre o amor. Disse que amar é como saltar de um penhasco sem saber o que existe lá embaixo. E, por mais que o medo exista, não há outra escolha a não ser pular, porque o amor é risco. Acredito que fiz algo parecido nesse livro quando escolho saltar em emoções que muitas vezes são tão difíceis e nada bonitas de se abordar em uma obra literária. Essa mesma amiga, depois que leu o meu livro, me disse algo parecido com: você escolheu falar sobre o que muita gente decide esconder, porque não é confortável. E não é mesmo, nem para quem escreve nem para quem lê, mas acho extremamente necessário abordar essas emoções que qualquer ser humano experimenta em algum momento da vida. Só quando a gente entra em contato com eles de verdade é que é possível elaborar de alguma forma e tirar sentido.” – Rafael Pinheiro para a revista O Odisseu.

Como surgiram os personagens de ‘Até que o céu caia’
Segundo Rafael, o próprio nascimento da obra nasce a partir de um atravessamento da emoção e do sentimento. Mais precisamente, num almoço de família, ele ouviu algo que o marcou profundamente. Logo percebeu que se tratava de uma daquelas aberturas que a vida nos dá para que a literatura brote. “Uma coisa que descobri sobre o meu processo de escrita é que uma história pode aparecer para mim por meio de um gatilho. É uma palavra, uma imagem, uma música, algo que me toca de um jeito diferente e que me move a desenvolver a história.”, conta Rafael. O autor conta que tem a memória da sua avó fazendo o trajeto de São Paulo a Pernambuco todos os anos para visitar os parentes que ficaram no Nordeste. “Hoje ela não faz mais essa viagem por conta da idade. Durante um almoço de família, minha mãe perguntou se ela faria essa viagem se pudesse. Ela não só respondeu que sim, como foi citando todas as paradas de ônibus de São Paulo a Pernambuco de cabeça. Aquilo me marcou profundamente e lembro de levantar da mesa, ir até o meu quarto e pensar em uma personagem idosa que viaja para Pernambuco todos os anos de ônibus. Foi daí que a Eulália surgiu.”.
Aos poucos, conta Rafael, os personagens foram nascendo a partir da ideia da travesseria. “O Olavo apareceu primeiro na figura do avô e depois na do neto, que é o segundo narrador da história. Para esse livro especificamente, queria que as vozes narrativas se entrelaçassem o tempo inteiro, criando esse emaranhado temporal e essa gangorra de causa e consequência.”
Mas quem escreve há tempo sabe que não basta ter os personagens e a história para que um livro nasça. Um livro nasce a partir de um trabalho com a linguagem e o uso de técnicas narrativas. Em se tratando de livros que abordam os temas das emoções e que precisam de um sentimentalismo demarcado, são muitos os riscos, como deixar o livro “piegas” demais. Por outro lado, a técnica vazia de alma pode fazer do livro algo seco. Perguntei a Rafael como ele lidou com esse dilema entre manejo da narrativa e uso das emoções e ele se mostrou bastante consciente de seu processo de escrita:
“Escrever uma história assim requer sensibilidade no sentido de estar em contato pleno com as próprias emoções o tempo todo, saber aonde se quer chegar e não perder o objetivo de vista. Mas tudo isso, sem técnica, pode acabar ficando pesado demais no momento da escrita e acabar levando para outros caminhos que não estavam planejados. O meu maior medo era cair no melodrama. Acho que esbarro nele em um momento ou outro, porque as personagens são muito intensas. Mas, de alguma forma, a técnica me ajuda a me equilibrar, colocar tudo no eixo novamente e seguir o caminho que eu tinha imaginado. Acho que o equilíbrio é a chave para se trabalhar em uma história com tanta carga emocional. O papel do escritor aqui é segurar tudo para que nenhum dos dois tome conta.”, contou o autor.

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