Ensaio

Onde estão os seus “Becos da Memória?” Ou Onde está enterrado o seu coração?

Ao ler Becos da Memória vasculho meus becos, bagunço minhas gavetas, limpo o embaço sob a minha imagem no espelho.

Por Marlon Pires Ramos.

Na foto, Conceição Evaristo grávida de Ainá em 1980. Foto: Divulgação da Ocupação Conceição Evaristo.


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2026. 

Chegou o novo ano e ainda estou tentando me situar. Disputas políticas, invasões territoriais, um caos de tamanho global acontecendo, e a vida particular na mesma toada. Relacionamentos terminam; outros relacionamentos (re)começam. E, para mim, os livros são, ao mesmo tempo, boia e âncora, nesse mar de acontecimentos nesses primeiros dias de janeiro.

Reparação: Memória e reconhecimento, de Ibirapitanga e Luciana da Cruz Brito (org.)/ Editora Fósforo, 2025/ 296 pp.

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Três livros estão comigo nesse início de dois mil e vinte seis.

Reparação – Memória e reconhecimento – Ibirapitanga e Luciana da Cruz Brito (Org.)
Meridiana – Eliana Alves Cruz
Becos da Memória – Conceição Evaristo

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Existem livros que escolhem a gente. 

Foi 2025 dar adeus, e a capa azul do livro Reparação ganhou a minha atenção. O livro Reparação – Memória e reconhecimento (ed. Fósforo), origem de um belo seminário no Instituto Ibirapitanga em 2023, chegou às minhas mãos, e já no primeiro texto me emocionei. Essencialmente é um livro sobre memória; e acho que foi por isso que ele me escolheu. Na primeira roda de conversa Raízes da memória negra: ancestralidade e resistência no silêncio e na voz, vejo minha avó Dona Terezinha, seus conselhos e táticas de sobrevivência. 

Conceição Evaristo enfatiza o cuidado da memória no silêncio: “…nós, os povos africanos nas Américas, encontramos alguma forma de guardar vestígio na memória.” Em outro trecho ela diz que “…a memória conservou no silêncio”. 

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Dona Terezinha me ensinou muito nos seus silêncios. No olhar de aprovação, nos gestos em desaprovação, na forma discreta do falar cotidiano, formas de driblar o racismo e preservar a memória, sua memória e a memória de nossa família. Antônio Bispo falando do seu tio me marcou: 

“Ele disse: “Eu lhe ensinei tudo que sabia, tudo! Mas eu não sabia tudo que eu queria lhe ensinar”. Como uma pessoa chora porque ensinou tudo que sabe, mas não sabe tudo que quer ensinar? Esse foi um gesto marcante”. 

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Dia desses, perto do natal, cozinhei massa ao molho vermelho, bem como Dona Terezinha me ensinou. Fiz igual a senhora me ensinou vó – disse no ouvido dela. Fiz o que pude – ela respondeu com um sorriso. Compreendi o que o tio do Antônio Bispo disse.

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Na última parte do livro Reparação vem: Memória, reconhecimento e reparação: pensando futuros negros possíveis – Nikole Hanna-Jones debate com Bianca Santana. Nessa troca, uma frase ficou gravada em mim. 

“Eu não tenho as respostas, apenas olho o passado e recebo orientação dele.”

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Existem livros que escolhem a gente.

Quando peguei Meridiana (ed. Companhia das Letras) para ler, ao mesmo tempo, caiu uma foto no chão. A foto do meu aniversário. Meu Primeiro Aninho. Eu, meu pai, e minha mãe. Estou no colo do meu pai, minha mãe ao lado, braços dados com ele; na mesa um bolo quadrado de aniversário típico dos anos 90; salgadinhos, docinhos, refrigerantes de garrafa de vidro, e balões em volta. Abri despretensiosamente o livro, a primeira frase que li: 

“Enfim cheguei. Não importa para onde a gente vá, sempre existe um chão no qual seu coração ficou enterrado”. 

Senti o coração balançar dentro do peito. E, no Prólogo, a lágrima veio no canto do olhar. “Pai, é mais fácil ir ou voltar? Depende. É fácil voltar quando você precisa muito do que ficou para trás”

Numa reviravolta da vida, voltei a morar com Dona Terezinha. Nem comecei direito a leitura do livro, contudo tenho certeza que Meridiana vai me ajudar no processo. 

E, nisso tudo, tem o Becos da Memória (ed. Pallas) da Conceição Evaristo. Clássico que tem o meu coração. Nos últimos dias de 2025 ele veio às minhas mãos, e as ruas de chão batido do bairro São Tomé (Viamão – RS), voltaram do passado ao presente. Ditinha, Negro Alírio, Cidinha-Cidoca, Vó Rita, todos estavam diante dos meus olhos, na rua, no ônibus, no mercadinho da esquina, reclamando da falta de água ou de luz. 

Meridiana, de Eliana Alves Cruz/ Companhia das Letras, 2025/ 186 pp.
Becos da Memória, de Conceição Evaristo/ Pallas, 2017, 200 pp.

“Os livros têm suas pontes invisíveis com a vida.”, Marlon Pires Ramos

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O chão batido das ruas, o mato que cresce em volta, problemas com ratos, baratas, mosquitos, tudo parece que continua igual, desde 1992. O que muda são as pessoas. Chega a ser engraçado, toda a energia que eu gastava detestando esse lugar, agora se transforma em amor por essas pessoas. 

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Desde que voltei a morar onde cresci, a precariedade da vida continua. Uma tristeza semeada no cotidiano ao notar que presente, passado e futuro, estão em um só tempo, o tempo do precário, o tempo da falta, o tempo sem estrutura, o tempo da vergonha do simples. 

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Os livros têm suas pontes invisíveis com a vida.

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“…quando você conhece uma memória diferente, você imagina um futuro diferente. E eles não querem o futuro que as pessoas querem imaginar.”

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95 anos. 

95 anos é pouco ou é muito? Todo santo dia me pergunto sobre isso. Quanta vida cabe em 95 anos de uma mulher negra? Dona Terezinha é basilar na minha construção. Fundamental na minha percepção de tempo, memória e amor. 

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Ao ler Becos da Memória vasculho meus becos, bagunço minhas gavetas, limpo o embaço sob a minha imagem no espelho. Só de aproximar Meridiana do meu corpo, a leitura se transforma em sinais, movimentos, como lembrar do meu eu criança no primeiro aniversário; lembrar de manter minha mãe viva na memória; lembrar que meu pai está presente fazendo o possível. Reparação é, além de ser um belíssimo livro, cuidar de Dona Terezinha o mais próximo possível de como ela cuidou de mim.


Marlon Pires Ramos 1992 é escritor,  poeta malungo, livreiro. Em 2017 começou a escrever seus textos e poesias no Facebook. Chamou a atenção de grandes nomes da literatura gaúcha como Ronald Augusto e Eliane Marques. Em 2018 participa da revista “Ovo da Ema” sua primeira publicação. Também em 2018 começou a participar da produção da Festipoa Literária, festival literário de Porto Alegre, e da Balada Literária, festival literário em São Paulo. Em 2019 lança seu primeiro livro de poesias chamado “Marlírico”. “A vitória do Afeto” pela editora Malê é seu segundo livro.