
Mundos no mundo sem saber que há um mundo: assombro, política e literatura
Se nosso mundo de guerra e capital não enseja otimismo, talvez os rumos da criação nos permitam organizar o pessimismo, para fazer uso de uma expressão célebre de Walter Benjamin.
Foto: Arte ‘No’, de Maurizio Cattelan.
1.
Em 1989, Francis Fukuyama publicou na revista The National Interest um artigo intitulado O fim da história. A tese, desenvolvida mais à frente no bestseller O Fim da História e o Último Homem, publicado em 1992, era tão simples quanto polêmica: com o fim da Guerra Fria, a derrubada do muro de Berlim e a queda do bloco socialista, a humanidade teria alcançado o ponto final da evolução ideológica. Se, como disse Karl Marx, a luta de classes era o motor da história, com o fascismo e o comunismo derrotados, a democracia liberal e a economia de mercado já não mais tinham rivais capazes de superá-los e reinariam eternamente como estruturação da coletividade humana. Sem qualquer antítese dialética, mais ou menos lentamente, mais ou menos rapidamente, doravante todas as frações do globo se dirigiriam a um espelhamento da experiência ideal estadunidense – metro-padrão do mundo que se faria a sua imagem e semelhança: nada de gauche na vida.
2.
Mais de uma década antes, em fins dos anos 1970, Félix Guattari havia indicado que o capitalismo havia se tornado mundial e integrado. Especialmente a partir da segunda metade do século XX, globalização, tecnologia e meios de comunicação teriam operado uma torção no sistema, que passara a operar em redes transnacionais, fluxos financeiros e energia informacional. Diferentemente do capitalismo industrial clássico, centrado institucionalmente na fábrica como lócus de extração da mais-valia do proletariado, o capitalismo seria agora difuso e capilarizado. Mais do que um sistema econômico intensificador de desigualdades, um diagrama de produção de subjetividades que, além de explorar o tempo e a força dos trabalhadores, forja desejos, afetos, ações, modos de pensar e de sentir: uma máquina produtora de modos de vida.
3.
Gládio para um, intuição sinistra para outro: os anos 1980 e 1990 paradoxalmente pareceram dar razão aos diagnósticos dos dois intelectuais alocados em lados opostos do espectro político – Fukuyama à direita, Guattari à esquerda. Dezenas de países da Europa Oriental, da América Latina, da África e partes da Ásia, Brasil incluso, antes regimes ditatoriais, adotaram regimes democráticos, eleições multipartidárias e constituições liberais. No período, a União Europeia, a OTAN, o FMI e o Banco Mundial reforçaram a crença de que a globalização econômica, o livre mercado e as instituições internacionais promoveriam prosperidade, estabilidade política e cooperação entre os Estados. Os ideários das duas últimas grandes revoluções europeias – a Revolução Francesa e a Revolução Industrial – colmatavam-se numa espécie de sistema-mundo supostamente imparável, cada vez mais intenso e molecularizado. Na virada do milênio, salvo poucas exceções, o roldão da experiência neoliberal indicava a vitória macropolítica do capitalismo e da democracia moderna.
4.
Especialmente a partir de meados da primeira década dos anos 2000, a experiência formal democrática entra numericamente em declínio – o que, logicamente, não significa que haja também um declínio do capitalismo. Em Necropolítica, Achille Mbembe diz que a experiência do capitalismo expansionista – da colonização, em outros termos – não pode se fazer sem uma cisão racial básica que define quem deve viver e quem deve morrer. No começo de sua Crítica da razão negra, o mesmo Mbembe aponta o sentido contemporâneo de uma espécie de devir-negro do mundo: um processo em que as relações de poder, violência e mercantilização que historicamente afetaram os negros hoje se aplicam a uma escala global, atingindo trabalhadores, migrantes e populações periféricas globalmente. Trata-se, na análise do filósofo camaronês, de uma assunção capitalística global da violência.
“A mais fina lâmina do contemporâneo nos lembra aquilo que sempre deveria ser lembrado: que a política – mais ou menos democrática, mais ou menos autoritária – sempre pode ser o emblema de uma certa ontologia das forças.”
Danichi Hausen Mizoguchi
5.
Em Se armar para salvar o capitalismo financeiro, Maurizio Lazzarato lembra que a guerra é pilar inseparável do capital – uma função já não mais extraordinária, mas, sim, central para a política e a economia. A vontade de explorar e dominar, gerenciando ao mesmo tempo as relações políticas, econômicas e militares, erige uma totalidade que não se fecha em si: é aberta e cindida pelos conflitos e predações. Nesse estranho todo fragmentado, as relações de força convergem e se governam. O genocídio palestino e o sequestro de Nicolas Maduro são a evidência exponencial deste funcionamento – ou seja, de que o sistema econômico funciona lateralizado e acoplado ao controle político-militar. Na paráfrase de James Carville, estrategista da campanha de Bill Clinton em 1992, poderíamos dizer: é o petróleo, estúpido! – mas são também a economia das armas, a desigualdade, a exploração e a demonstração de poder: a força da força.
6.
O Afeganistão, o Iraque e a Líbia, para citar apenas alguns exemplos deste século, recordam que não há exatamente novidade na ação estadunidense. A timidez ou o silêncio das lideranças democratas – Barack Obama, Kamala Harris, Joe Biden – indicam que não se trata de uma posição exclusivamente pessoal do atual presidente. A mais fina lâmina do contemporâneo nos lembra aquilo que sempre deveria ser lembrado: que a política – mais ou menos democrática, mais ou menos autoritária – sempre pode ser o emblema de uma certa ontologia das forças. Trump, mais uma vez, representa a assunção pornográfica deste diagnóstico. Se a filosófica bélica do teórico militar prussiano Carl von Clausewitz ensinava que a guerra é a política continuada por outros meios, Michel Foucault indica que talvez a recíproca também possa ser verdadeira – ou seja, que a política também possa ser a guerra continuada por outros meios. Em uma simplificação da tese, Trump radicaliza e subsume a política em força bruta. Em suma, faz de toda política um ato de violência: a violência como sinônimo da política.
7.
As menções ao Irã e à Groenlândia dão indícios de que essa posição não deve amainar. A reedição do espalhamento global da violência invasora como insígnia do capitalismo já não parece distante. Diante desse cenário, o assombro não basta. Mais do que retificar e reiterar o jogo da força bruta contra força bruta, talvez se trate, ao menos em alguma medida, da produção de um desvio em relação à exclusividade da violência como ato político Não que isso sirva para dar fim ao que quer que seja, mas coloca em jogo uma das mais belas tarefas da experiência artística: criar outras sensibilidades – ou, como definiu Caetano Veloso em relação à existência dos livros, lançar mundos no mundo.
8.
Em Para onde vai a literatura?, Maurice Blanchot coloca em cena uma certa aporia da posição literária. Diz ele que, quando o escritor cuida da política, não cuida exatamente da política, mas de uma relação nova, mal percebida, que a obra e a linguagem literárias gostariam de despertar. Falando de política, é de outra coisa que se fala. Falando de política, fala-se de ética – falando-se de ética, fala-se de ontologia, falando de ontologia, fala-se de poesia, falando-se de poesia, fala-se, enfim, de política. Mergulhando intensamente no mundo, é preciso não saber que já existe um mundo.
9.
A montagem do testemunho de Primo Levi em É isto um homem?, a secura inquieta de Lina Meruane em Tornar-se Palestina, a profundidade falsamente ingênua de Gaël Faye em Meu pequeno país, o lirismo urgente de Atef Abu Saif em Quero estar acordado quando morrer, o realismo incisivo de José Falero em Os supridores, a memória trágica de Scholastique Mukasonga emNossa Senhora do Nilo, a oralidade rítmica de A queda do céu, de Davi Kopenawa,e a polifonia rigorosa de Svetlana Aleksiévitch em A guerra não tem rosto de mulher são indícios de uma certa posição literária que talvez precisemos acessar diante do cenário assustador do presente. Não que não haja imposição de força nestas obras: sempre há. É, porém, uma outra força – uma força estranha, de violência criativa. Se nosso mundo de guerra e capital não enseja otimismo, talvez os rumos da criação nos permitam organizar o pessimismo, para fazer uso de uma expressão célebre de Walter Benjamin, ele mesmo um suicidado pelo nazismo na II Guerra Mundial. Gestos éticos, estéticos e políticos que intervêm sensivelmente no vívido da vida, abrindo fissuras naquilo que parece absolutamente imparável e mostrando uma vez mais que a história não acabou – já que, afinal, um dos sentidos da literatura é provar que amanhã não é nem pode ser tão somente um outro nome pra hoje.
Velô da Dicção é a coluna de ensaios de Danichi Hausen Mizoguchi. O títuo é um recorte da canção “Língua”, de Caetano Veloso. Assim como, na música, o compositor homenageia os modos brasileiros de falar – erráticos, impurus, diversos, vivazes – os textos aqui publicados têm interesse por nossa língua, entre a arte e a política, em busca de nossa dicção própria.

