
Feliz Ano Novo, feliz (re)começo
Enquanto houver linguagem, sobreviverei, pois escrever é enfrentar o fracasso e não sucumbir ao desespero. Entre o sofrimento e o prazer, a escrita me eleva, pois preciso da intensidade dessas emoções para me sentir viva.
Arte ‘Dias melhores a diante’, de Verena Smit (Foto: Reprodução).
Durante as primeiras semanas do ano, já percebi, costumo escrever com certa sofreguidão. Ainda há pouco, antes de entregar esta coluna, perguntava-me onde se esconderam as manhãs produtivas de poucos meses atrás, manhãs repletas de palavras que aguardavam ansiosas minhas escolhas, feito jogadores de futebol aflitos para serem escalados para a próxima partida. Em que pese minha procura atenta, a inspiração tem sido uma visitante rara, dessas que chegam sem avisar e partem antes mesmo que possamos oferecer uma xícara de café. Ainda que abra alguns dos muitos livros espalhados à minha frente, meus eternos faróis de papel (às vezes digitais), nenhuma frase acende em mim a centelha criativa.
Talvez seja o peso simbólico do novo ano. Sempre crio a expectativa de que, com a virada do calendário, serei melhor escritora, melhor pessoa, melhor mãe, melhor filha. Sonho com uma versão aprimorada de mim mesma, como se o amanhã tivesse a obrigação de cumprir as promessas que faço enquanto assisto ao espetáculo dos fogos de artifício à meia-noite de todo 31 de dezembro.
Mas, no fim, sei (sabemos) que quase nada muda. Porque a vida não se dobra ao nosso desejo. A vida é feita também de tropeços, de imprevistos que parecem escrever enredos alternativos à nossa revelia. Ainda assim, consigo ser otimista. Por vezes, dou sorte: encontro um poema que me ilumina; olho pela varanda e vejo uma família de araras pousada nas árvores, trazendo-me a lembrança de amor, paz e aconchego: sentimentos presentes no colo dos meus e que, claro, me reabastecem de emoções as quais, mais cedo ou (bem) mais tarde resultam em boas histórias.
“Talvez eu escreva melhor quando estou em pedaços…”
– Myriam Scotti
Em outras ocasiões, não sei bem de onde, talvez de memórias que guardo numa gaveta emocional, bem distante para não sofrer, encontro a matéria-prima do caos criativo. É desse caos que nasce a escrita que busco: uma escrita fragmentada, o melhor fractal de mim mesma. Percebo que nem sempre preciso estar inteira para escrever; talvez eu escreva melhor quando estou em pedaços. Meus melhores textos, meus livros mais bonitos, foram concebidos na ruína — feito um poema que já declarei em um dos meus livros. No entanto, embora a conexão consigo mesmo seja imprescindível para a escrita, não podemos sucumbir às emoções. É preciso se distanciar de si mesmo, desdobrar-se, olha-se de fora para que não sejamos tomados pela cólera.
Estou lendo As aulas de Hebe Uhrart, organizadas por Liliana Villanueva, e no capítulo “Estar à meia-rédea”, ela aconselha: estar à meia-rédea significa não estar nem tão eufórico, porque sairia de mim algo que parece ter sido feito por um bêbado ou um drogado, nem tão deprimido, porque eu veria o mundo tão escuro que nada valeria a pena, estaria em um estado de depressão que me impede de olhar.
O conselho é valioso, tanto que grifei quase o capítulo inteiro. É preciso respeitar o vazio da linguagem, aguardar o tempo de colher as palavras que vão sendo semeadas ao longo do tempo. E se hoje a escrita parece um terreno inóspito, amanhã há de ser próspero, ou como escreve Villanueva: É preciso deixar os personagens pastarem em minha cabeça.
Hoje ainda não desisti. Sigo procurando a palavra exata, aquela que me permitirá continuar a contar mais uma história. Sherazade narrava para continuar viva. Eu escrevo pelo mesmo motivo: para existir um pouco mais, para respirar no papel aquilo que às vezes falta no mundo. Enquanto houver linguagem, sobreviverei, pois escrever é enfrentar o fracasso e não sucumbir ao desespero. Entre o sofrimento e o prazer, a escrita me eleva, pois preciso da intensidade dessas emoções para me sentir viva.
O ano está começando, e pode parecer que este texto é melancólico, mas, ao contrário: é realista e feliz. Eu não saberia iniciar o ano sem reconhecer os enfrentamentos que me aguardam. Entre mim e a tela em branco haverá uma guerra, mas anseio por esse momento todas as noites, quando me deito.
Feliz 2026 para todos nós!
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