Ensaio

40 anos sem Juan Rulfo: Quando não há nada que valha a pena ser dito, mais vale o silêncio

Ícone para escritores de linhas, tendências, épocas e estilos completamente diferentes, o mexicano Juan Rulfo, que morreu há quarenta anos, se retirou ao silêncio, certo de que sua obrigação literária havia se concluído após dois livros.

Por Cassiano Viana.


–O que foi? – ela me disse.
–O que foi o quê? – perguntei.
–Esse ruído.
–É o silêncio.

Luvina, Juan Rulfo, Chão em chamas

É Gabriel García Márquez quem conta a anedota: com uma carreira jornalística efêmera, havia chegado ao México no dia 2 de julho de 1961 (mesmo dia em que Hemingway cometeu suicídio), após três anos em Paris e oito meses em Nova York, pensando em escrever roteiros de cinema. Àquela altura, aos 34 anos, o colombiano já havia publicado A Revoada (O Enterro do Diabo) e Relato de um náufrago, e guardava alguns originais na gaveta – dentre eles, Ninguém escreve ao coronel.

“Sentia que ainda tinha muitos romances dentro de mim, mas não conseguia conceber uma forma convincente e poética de escrevê-los”, lembra García Márquez, confessando a crise criativa que vivia na época.

Até que um dia, o compatriota Álvaro Mutis subiu a passos largos os sete andares do prédio da rua Renán, no bairro de Anzures, na Cidade do México, onde Gabo morava, com uma pilha de livros; de onde tirou o volume mais magro e disse:

– Leia e aprenda!

O livro era Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Até aquele momento, Gabo não apenas desconhecia a obra, como jamais ouvira falar do autor mexicano.

García Márquez conta que não conseguiu dormir enquanto não finalizou a leitura do livro: ‘Desde a noite em que li A Metamorfose, de Kafka, em uma pensão de estudantes decadente em Bogotá, eu não me sentia tão arrebatado’, confessou, em texto publicado em uma das edições de Pedro Páramo, acrescentando que, naquele ano de 1961, não conseguiu ler nenhum outro autor, porque todos lhe pareciam menores.

Reza a lenda que, no dia seguinte, García Márquez iniciou a escrita de Cem Anos de Solidão – e apesar dos doze anos que separam os dois livros (o primeiro é de 1955; o segundo foi publicado em 1967), não é difícil encontrar, na Macondo de García Márquez, a Comala de Rulfo.

Jorge Luis Borges, crítico literário exigente e de padrões estéticos elevados, considerava Pedro Páramo um dos melhores romances das literaturas de língua espanhola, e até mesmo da literatura mundial, opinião compartilhada por vários autores, não só latino-americanos, que veneravam (e veneram) Rulfo. Eric Nepomuceno, que conviveu com vários – se não todos – os principais autores latino-americanos daqueles anos, é quem melhor define: Rulfo é uma espécie de ícone para escritores de linhas, tendências, épocas e estilos completamente diferentes.

“A morte não se reparte como se fosse um bem. Ninguém anda à procura de

tristezas”. Pedro Páramo

Rulfo morreu há quarenta anos, às oito da noite do dia 7 de janeiro de 1986 – uma terça-feira – em seu apartamento da rua Felipe Villanueva, 98, bairro de Guadalupe Inn, Cidade do México. Tinha 68 anos, 9 meses e 19 dias, como faz questão de detalhar Eric Nepomuceno em “Anotações sobre um gigante silencioso”, prefácio carinhoso de sua tradução de Pedro Páramo. Morreu um ano após o diagnóstico de câncer pulmonar. Na ocasião, vários escritores se manifestaram.

Eduardo Galeano afirmou que Rulfo foi o escritor mais importante da América Latina; Juan Carlos Onetti lembrou que, homem honrado, Rulfo havia se resignado ao silêncio, certo de que sua obrigação literária havia se concluído após dois livros (Chão em chamas e Pedro Páramo – há um terceiro, O galo de ouro, mas Rulfo só assumia os dois primeiros): um belo exemplo, segundo o escritor uruguaio, para aqueles que, “no vasto mundo, continuam fatigando máquinas impressoras, fingindo não saber”; o alemão Günter Grass qualificou Rulfo como o ‘pai da literatura latino-americana moderna’; já o cubano Guillermo Cabrera Infante declarou: “Há poucos livros, na América ou na Europa, que comovam tanto após o silêncio de seu autor”.

Em uma entrevista concedida em 1979, o jornalista uruguaio Ernesto Gonzalez Bermejo, questiona o silêncio literário após 1955, data de publicação de Pedro Páramo.

“Não é silêncio. Não tive tempo de me dedicar à escrita. Preciso ganhar a vida. […] É muito difícil viver de literatura em nossos países”, responde Rulfo, que, na época, trabalhava no Instituto Nacional Indigenista (INI) do México, editando livros de antropologia – nessa mesma entrevista, Rulfo fala sua definição de literatura: “Uma mentira. A literatura é uma mentira que diz a verdade. É preciso ser mentiroso para fazer literatura, essa sempre foi a minha teoria. Agora, há uma diferença importante entre mentira e falsidade. Quando se falseiam os fatos, percebe-se imediatamente o artifício da situação. Mas quando se está recriando uma realidade com base em mentiras, quando se reinventa um povo, é muito diferente. Aqueles que não entendem de literatura acreditam que um livro reflete uma história real, que deve narrar fatos que ocorreram com personagens que existiram. E se enganam: um livro é uma realidade em si, ainda que minta em relação à outra realidade”.

Muitos tentam explicar o silêncio literário de Rulfo. Eu, particularmente, concordo com Onetti e invariavelmente penso em Raduan Nassar que, depois de Lavoura Arcaica e Um copo de cólera, no auge de uma carreira recém-começada, como observa Otavio Frias Filho, em um artigo publicado na Folha de SP, em 1996, anunciou que passava a arar outras terras, trocando a literatura pela agricultura.

Fecho com Eric Nepomuceno para quem Rulfo foi o mais silencioso dos escritores latino-americanos: Um gigante que preferiu seguir a lição extrema que indica que quando não há nada que efetivamente valha a pena ser dito, mais vale o silêncio.

Ou, como diria Caetano: “Melhor do que o silêncio, só o João”.


Cassiano Viana é jornalista, escritor e tradutor. Graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), é mestre e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sua pesquisa dedica-se à literatura latino-americana, com ênfase na obra do escritor argentino Julio Cortázar