
Dias de Satã: Um diário
Hoje, com a morte do cineasta Béla Tarr, volto ao texto Dias de Satã cinco anos depois de tê-lo escrito, temporalidade essa que, não surpreendentemente, não deixa de ter a ver com a obra em questão. Não é uma análise, portanto; é uma homenagem a um sujeito que viveu setenta anos e, entre outras coisas, fez um filme de sete horas.
Por Daniel Guerra.
Nota introdutória. Em meados de junho de 2021, portanto em plena pandemia mundial e sob o peso de uma política nefasta, trancafiado em casa como boa parte dos brasileiros, decidi finalmente assistir Sátántangó, obra prima de Béla Tarr, que outrora, ao longo dos anos, eu havia abandonado em várias ocasiões distintas e em distintos pontos da narrativa. Minha intenção inicial era escrever um ensaio crítico sobre o filme, para publicar na minha velha revista. Porém, como o filme terminou durando não as suas sete horas mas nove dias da minha vida – àquela altura concreta e moralmente estraçalhada como a de muitos brasileiros –, entendi que formatar o meu caderno de notas como um diário seria mais honesto, ou simplesmente mais possível, do que tentar uma sintetização conceitual qualquer. Terminei não publicando. Hoje, com a morte do cineasta, volto ao texto cinco anos depois de tê-lo escrito, temporalidade essa que, não surpreendentemente, não deixa de ter a ver com a obra em questão. Não é uma análise, portanto; é uma homenagem a um sujeito que viveu setenta anos e, entre outras coisas, fez um filme de sete horas. Não sendo análise, não quer suscitar juízos conceituais; não sendo resenha, não quer enquadrar o artista à obra ou a obra ao artista, tampouco os dois à história, seja lá qual seja. É muito mais uma, ponhamos assim, homenagem ensaística em forma de diário. Sendo homenagem, apenas gostaria que os leitores deste singelo texto pudessem ser contagiados pela curiosidade de assistir os seus magníficos filmes. Não deixa de ser também, entretanto, um pequeno ato de rebeldia, rebeldia essa que apenas ecoa a sutil rebeldia belatarriana. No mais, é sempre triste quando alguém morre tão jovem. E mais triste ainda quando morre alguém que fazia filmes de sete horas cujos protagonistas são aranhas, bois, gatos e pingos de chuva.
Dias de Satã: um filme no tempo

Primeiro dia
Nos anos noventa, Béla Tarr resolveu fazer um filme de sete horas de duração, e fez. Estou na metade de 2021 e meu plano é assistí-lo até o fim. O título, enigmático, é Sátántangó. Já não sei se já o vi. Em certos momentos, eu acho que sim. A impressão de déjà vu retornou, por exemplo, nesta cena, que aliás acabo de pausar para escrever isso aqui e depois ir preparar o café da manhã: um homem gordo, velho, solitário, fumante e bêbado, anota em seu diário a vida da sua aldeia, que observa pela janela, munido de um binóculo.
Em Tarr, há esses planos de duração assombrosa. O que importa não é bem a vida das pessoas, mas a vida que acontece entre as pessoas. Quando as pessoas sequer sabem que ela acontece. A vida, apesar das pessoas.
São seis da manhã, mas acordei às quatro e meia. Minhas costas ainda doem, e pioram na umidade dessas madrugadas. Já não sei quantos dias fechado em casa, saindo apenas para o básico. Mais de um ano, com certeza. Ao menos acordei com saudade do filme, como quem já sente saudade de uma paixão, poucas horas, apenas, depois de tê-la encontrado.
Ontem havia me decidido a assistir grandes coisas. Dessas coisas que a gente não se propõe a assistir em qualquer momento da vida, porque elas demandam de nós muito mais do que nós poderíamos demandar delas. Certas obras impõem o seguinte desafio: “Vê se me aguenta”. E começar a vê-las é já tê-lo aceitado, sabendo ou não.
Ontem eu dormi na cena em que um capitão militar discursa, calma e lentamente, sobre a necessidade metafísica da lei e da ordem, para dois homens suspeitos, jovens e pobres. Hoje, depois de ter acordado e voltado a assistir o filme a partir desse discurso, pausei-o de novo, no momento em que, depois de ter caído de tão bêbado e ter-se dado uma injeção levanta-defunto na barriga, o gordo velho solitário fumante bêbado volta ao seu posto de sempre – a mesa em frente à janela que dá para a aldeia – e escreve em seu diário: “Hoje acabou a última gota do brandy de frutas. Parece que precisarei sair de casa”. E sai, debaixo da chuva. Mas foi aí que eu pausei, pois sabia que viria mais um daqueles planos infinitos cujo único foco será a nuca do gordo velho solitário fumante bêbado atravessando o campo enlameado de uma aldeia devastada.
Antes de preparar o café preciso registrar outra coisa.
Primeira cena do filme. Foi ontem, por volta das nove da noite. Impressa na televisão subitamente transformada em janela aberta na parede branca do meu quarto, delineia-se uma paisagem rural em preto e branco. Uma manada de bois e vacas pasta na frente dos currais. Um boi vem ao primeiro plano, mugindo. Parece acossar a câmera, enciumado. Seu rosto se aproximando é uma máscara branca, ritual, telúrica, monstruosa. Ao fundo, outros bois trepam com as vacas, montando nelas por trás com uma violência pacata ou ausente, bem típica do reino animal. Depois, a câmera acompanha a manada em seu deslocamento, pesado, lento, num travelling da direita para a esquerda: o interessante é que isso ela faz no tempo do gado, não no da produção do filme. Os animais é que mandam, contrariando grande parte da produção cinematográfica de ficção. O olho humano apenas acompanha o fluir da natureza. Mas aqui, a natureza não é o oposto da cultura: animal, vento, olho e câmera compõem um mesmo universo. Não é apenas uma poética, é uma cosmovisão. Conjuga uma espécie de panta rei heracliteano com certas mitologias indígenas, onde o mundo não se apresenta verticalmente, como na hierarquia judaico-cristã, mas horizontalmente, numa rede de relações anímicas entre humanos, coisas, bichos e fantasmas. Tudo isso, porém, não deixando de ser, pelo menos assim imagino, absolutamente húngaro. Foi nesse momento que decidi: sim, tenho que continuar vendo isso aqui.
Agora sim, vou preparar meu café.
Segundo dia
Ontem à noite resisti por um bom tempo à ideia de voltar ao Sátántangó. É que uma parte de mim gostaria apenas de deixar o espírito vagando lá fora, em qualquer dimensão, enquanto o corpo permaneceria aferrado à cama, assistindo programas de culinária ou séries de ficção. Reentrar aquela atmosfera exige um grande trabalho de sensibilidade. Através da tela tudo se torna, então, soturno, solene; de certa maneira, impenetrável, mas também sedutor, como todo enigma.
O espectador deve, ele também, trabalhar.
O dia aqui esteve bastante úmido, enquanto eu subia a ladeira para chegar à padaria, embora não tão encharcado quanto o mundo que o gordo velho solitário fumante bêbado atravessava e aliás continua atravessando, se não ainda no filme, ainda na minha cabeça. E de repente eu não estava apenas pensando no gordo velho solitário fumante bêbado mas em mim mesmo, como se eu fosse um duplo tropical do gordo velho solitário fumante bêbado de Tarr. Além disso, eu era também a câmera atrás da sua nuca. Quero dizer, da minha nuca: uma entidade pairando atrás da minha cabeça enquanto eu caminhava arfando pelas ruas da cidade, a essa época tão úmida e abafada. E, olhando para os meus concidadãos, em outros tempos tão alegres, pensava se na verdade eu não estaria atravessando as ruas de uma cidade ou de um país ou de um planeta que estivesse sendo tomado por um vírus fatal – ideia essa que, há apenas um ano, eu teria achado absurda.
Acabo de me lembrar que o gordo velho solitário fumante bêbado parecia não ter cabeça, por causa da imensa gola do seu casaco, filmada por trás. Ou seja, não contente em ser um gordo velho solitário fumante bêbado atravessando um mundo decaído para comprar seu brandy de frutas, ele era um gordo velho solitário fumante bêbado sem cabeça atravessando um mundo decaído para comprar seu brandy de frutas. No que diz respeito a mim, voltei para casa com meus pães ainda quentes, e tendo a sorte ou o privilégio de estar vivo.
Tenho uma cabeça, eu a vi no espelho.
E agora à noite disse, a mim mesmo, já deitado na cama, que deveria sim voltar ao filme, e quanto ao espírito, que ele descansasse depois. E lá vinha o gordo velho solitário fumante bêbado. Acompanhei seus passos durante minutos a fio, que, somados à sensação concreta que tive do peso do seu corpo e do esforço que fazia para arrastá-lo, tornaram-se um suplício sem tempo, quero dizer, sem redenção. Várias vezes achei que ia morrer, pois o corpo velho e gordo do bêbado fumante caía várias vezes, embora voltasse a caminhar. A última queda foi num bosque próximo a uma estrada. Pensei: pronto, morreu. Ou: finalmente!, morreu. Mas já sob as luzes da aurora, chega um caminhoneiro que, gentilmente e com muita dificuldade, o põe na caçamba do caminhão. Depois de jogá-lo ali, fechar a caçamba e subir na cabine, deixa-nos apenas com a visão da traseira do automóvel. Ao redor, os campos de relva maltratada; no meio, a estrada de terra, cortando verticalmente o plano cinematográfico e emagrecendo, até desaparecer no horizonte. Tudo permanece em suspenso. E quando o caminhão finalmente arranca, há a certeza de que isso acontece por qualquer outra coisa que não a obviedade dos motores do automóvel, da combustão da gasolina ou do livre-arbítrio do motorista. O caminhão está vivo, assim como parecem estar vivos todos os elementos do mundo, quando focados pela câmera de Tarr. A bondade radical da sua poética, mesmo sob as condições mais catastróficas, tem a ver com uma radical profundidade de campo: tudo se torna absolutamente nítido; dentro do campo de influência do seu olhar, tudo ganha nova chance: a lama, os porcos, o cachorro, o homem, a mulher, o gado, as casas, a plantação, a mosca; sim, a mosca, que aparece tanto, zumbindo, e que às vezes se torna protagonista.
Todo acidente deve ter uma chance.
(Continua após a imagem)

Terceiro dia
Ontem não consegui assistir o filme. Não sabia que estava tão cansado. Fiquei me arrastando entre as três refeições e dormindo a cada oportunidade.
Também menti. Um pouco. Não é verdade que só saio de casa para fazer o básico. Às vezes acontece dessas coisas: fui convidado por minha mãe para passar o São João na velha casa familiar. Agora, portanto, estou num pequeno município a cinquenta quilômetros de Salvador.
Durante a viagem, na janela do carro, a paisagem se transformava ao longo de um travelling de mais ou menos sessenta minutos. Saímos da chuva torrencial e fomos entrando no território do sol. Enquanto isso, minha mãe desfiava, como a voz em off ou a de vários dos personagens em Sátántangó, uma longa narrativa, sem pausas, como se proferisse um monólogo. Ela já tem essa tendência, mas é claro que a quantidade de dias sem que nos víssemos aumentou essa sua peculiaridade. Relatava para mim todos os infortúnios pelos quais está passando, num bate-perna frenético por um labirinto de cartórios. Depois ela falou sobre a vontade de explodir com tudo. Disse: “Se os canalhas sempre se dão bem e os honestos sempre se dão mal, quero ser canalha. Ou chegar nesses lugares e explodir com tudo”. Esse ano minha mãe – ela também – virou uma anarco-terrorista em potencial.
A trama do filme envolve uma iminência. Algo trágico está sempre para acontecer. Envolve a chegada daqueles dois homens suspeitos, jovens e pobres, que parecem ter sido exilados da aldeia em outros tempos. A narrativa de alguns aldeões faz com que os dois homens se tornem, aos olhos da nossa imaginação, anjos exterminadores. Numa das cenas mais sublimes, acompanhamos as costas dos dois homens caminhando a favor do vento forte, que leva, junto com seus dois corpos, um monte de papéis e folhas mortas, rodopiando em volta, furiosos. Fatalismo, destino: são as palavras, meio fora de moda, que me vêm, e que não posso reprimir. Quando chegam num bar da cidade grande, olham para os clientes, todos alheios e tolos como parecem tolos e alheios todos os bons cidadãos, e dizem algo como: “O que é que estão olhando. Vamos explodir isso aqui”. Igualmente, quando os habitantes da aldeia, longe dali, sussurram sobre o boato da chegada iminente dos anjos, dizem: “Eles vão tocar fogo em tudo”.
Pensando bem, a história já explodiu. Não há nenhuma solução de continuidade possível. Mas essa catástrofe, como em tudo, também nos daria alguma liberdade – um jogo com outras regras; pequenas variações, mas poderosas. Não sei se os filósofos, os ficcionistas, os ensaístas, os críticos, os comentadores, os jornalistas, enfim, todo o staff cultural desta aldeia global, já conseguiu, não entender, porque isso já o fazem ou tentam, mas incorporar todas as consequências dessa ideia: a história já explodiu.
Estou assistindo Sátántangó como é possível assistí-lo nesses tempos: mutilado. Mas não é como se estivesse assistindo a uma série de tv. Uma série pressupõe episódios fechados, com um gancho no final. Aqui, não. Paro quando durmo ou quando já não dá para seguir. E a imagem que acabou de acontecer fica reverberando na cabeça, enquanto faço outras coisas.
A imagem que ficou da sessão de anteontem à noite foi a de uma criança parada do lado de fora da sua casa, sentada numa poltrona velha, e que, depois de um bom tempo, simplesmente se levanta e caminha. Essa criança continua caminhando, em algum lugar. Talvez dentro do meu corpo ou neste quintal que observo enquanto escrevo. E penso que a criança e o caminhão passam pelo mesmo processo misterioso: de súbito, são impelidos a se movimentar. Há forças estranhas em jogo, e elas incidem sobre o instante: a história é agora.
Ontem eu quase pensei em parar com isso aqui. Me parecia excessivo, fragmentário e pouco informativo. Mas vou continuar. Não há porque ficar querendo estabelecer grandes elos. Me resta fazer associações entre os cacos e ver se cola.
Pretendo voltar ao Sátántangó hoje à noite.
Quarto dia
Ontem encarei o fogo queimando a madeira até que a fumaça irritasse os meus olhos e eu pudesse lacrimejar. Hoje acordei de ressaca porque além de ter inalado muita fumaça da fogueira, bebi muita cerveja e licor. As pessoas andam dizendo que estão bebendo demais. Dia desses foi a vez da caixa do supermercado falar: “A gente tem que beber mesmo, para aguentar”, enquanto eu passava uma garrafa de vodka e algumas cervejas pela bancada.
Eu não tinha entendido ou lembrado que o São João seria na madrugada de ontem, então me surpreendi com a sua chegada. Meu irmão e a minha cunhada vieram. Ficamos umas duas horas tentando acender a fogueira, por causa da umidade. Por todas essas coisas, não pude ver o filme, mais uma vez. E isso já começa a parecer uma piada. Paciência.
Às vezes, nos meus bons momentos, visualizo com detalhes a ideia de que a cultura, isto é, esse arquivo monumental de fantasmas, vive para além de nós; por exemplo, enquanto dormimos. Jesus, personagem dominante da cultura ocidental, morre e ressuscita em ciclos infinitos; Dom Quixote volta a atacar os moinhos de vento, sempre com mais afinco; Molly continua seu monólogo interior enquanto Leopold Bloom dorme o sono dos insensatos; Riobaldo volta a se apaixonar por Diadorim como se nunca o tivesse conhecido; a criança do filme de Tarr, por sua vez, continua correndo por entre esses móveis cobertos de luz macia, estampados com as sombras das folhas movimentadas pela brisa fresca do litoral onde estou. Por vezes é ela, a criança de Tarr, que levanta uma xícara de café, como a que levantei com tanto esforço, por causa da ressaca, há pouco tempo. Talvez seja um pouco ela quem digita agora.
Mais cedo, na cama, quase não consegui levantar. Queria dormir até a noite. Mas não foi assim. Algo me acordou, algo me levantou de lá, algo me impeliu; só sei que não fui eu que quis.
***
Os trechos acima eu escrevi por volta das onze da manhã. Agora volto aqui às cinco da tarde. Dia chuvoso mais uma vez, então me tranquei no quarto com Sátántangó.
Horror. A criança percorrendo os móveis da sala, caminhando na luz da manhã e justificando certos arroubos poéticos. Acabo de descobrir que aquela criança é, na verdade, uma assassina. Ela havia se levantado da poltrona, seguido por um curto trecho de campo e entrado por um buraco na parede de um celeiro. Pegou um gato e olhou-o nos olhos. Dava-lhe uns solavancos dizendo: “Eu sou mais forte do que você. Posso te matar. Você vai morrer”. As orelhas do gato se espremiam contra a cabeça, ele não entendia nada. Depois ela o prendia numa rede e o deixava pendurado no teto. Enquanto isso, ia à sua casa e misturava veneno de rato com leite. Voltava para o sótão e enfiava a cabeça do gato no leite, torturando-o. Mesmo assim, ele bebia o leite. Depois, ela andava de costas lentamente, até chegar à parede, deixando o gato em primeiro plano. O gato morreu com a cabeça enfiada na tigela de leite, empanturrado, entre o nosso olhar e o dela. Ninguém pôde fazer nada. Ela, porque não quis, nós, porque fomos espectadores.
Mesmo assim, ele bebia o leite.
***
Isso aqui deve estar ficando muito ruim porque não consigo sequer me escutar. Lá fora, o vizinho resolveu botar música num volume insuportável. Eu gostaria de ter paz suficiente para conseguir fazer qualquer relação entre esse ruído externo e a festa dos bêbados que acaba de acontecer dentro de Sátántangó. Essas correspondências, sempre tão surrealistas, me impressionam. Mas, se a cena do filme dura o suficiente para que nossa mente se perca num fluxo de não sentido nauseante, porém concentrado, sintético, e, enfim, estético, a cena do vizinho, não, ela apenas me irrita.
Ao que parece, todos os adultos da aldeia estão ali; todos igualmente embriagados. Um senhor toca um acordeom. Os outros se batem uns nos outros como planetas cujas trajetórias fossem tão aleatórias quanto as de bolas de bilhar.
Ontem o nosso São João não foi uma festa propriamente dita. Foi uma celebração muito íntima. O que fazem aí na casa ao lado sim, é uma festa, mas acima de tudo uma violência. Mas o fato é que vou parar agora porque o som lá fora está realmente insuportável e estou me sentindo não a menina que assassina o gato mas o gato sendo assassinado.
Só uma coisa, antes de terminar: a festa em Sátántangó é a festa do juízo final. Não há mais nada a fazer, senão beber, dançar e fornicar, enquanto esperamos a chegada dos anjos exterminadores.
Somos obrigados a sustentar a felicidade a qualquer custo.
Acho que esse barulho está me fazendo muito mal. Melhor parar agora.
***
(Continua após a imagem)

São cinco e quarenta e seis da tarde e voltei aqui porque tive uma pequena epifania. Resolvi que não ia tentar esquecer o som do vizinho, mas que ia vivenciá-lo enquanto durasse. Estava na cama com as pernas para cima enrolando um tufo do cabelo quando percebi que, se encaramos certas partes da vida como se fossem cenas de um filme e assistimos o seu desenrolar como um longo plano-sequência, de repente tudo passa a fazer sentido, mesmo que, em si, a realidade seja absolutamente arbitrária. E subitamente a música do vizinho se amalgamou ao balançar dos galhos da mangueira que tocam os limites da varandinha do meu quarto provisório.
Quinto dia
São seis da tarde. Volto ao filme por volta das dez da noite, desde onde o interrompi, na cena da festa desesperada e absurda dos aldeões corruptos, corrompidos, embriagados.
Bebi um pouco ou muito, todos os dias até aqui, percebo agora. Hoje pretendo não beber.
Sexto dia
“Concede-me um tango?”, disse um senhor de bigode bem aparado, levantando-se do canto do bar, de dentro da tela, de dentro do meu quarto, à meia-noite. A prostituta de meia-idade, que momentos antes estava dando voltas sozinha sobre si mesma, planeta perdido, embriagada entre os embriagados, olha para o senhor e concede-lhe, sim, o seu tango. A câmera fecha no casal improvisado. Romantismo improvisado, sujo, erigido do nada, ou da dor. O acordeom nos embala. A câmera deixa o casal e passeia pelo bar: uma mulher triste atrás de uns copos vazios; um homem roncando com a cabeça jogada para trás e a boca aberta; dois homens dormindo, um na mesa, outro estirado no banco, com as botas sujas de lama; um casal, colado à parede, abocanha, cada um de um lado, uma baguete, como se aquilo fosse um beijo, como se aquilo fosse erótico, como se aquilo fosse arte contemporânea.
Cenas estranhamente familiares.
As coisas acontecem assim mesmo: nós não sabemos de onde veio o senhor de bigode bem aparado, mas ele simplesmente apareceu e começou a existir. Não necessariamente os longos planos se conectam uns aos outros. As cenas da vida de cada personagem parecem bolhas que surgem, flutuam enquanto tem de durar, e finalmente explodem, ainda que se determinem mutuamente, por vias escusas.
Depois da festa, porém, nós teremos que velar a criança morta. Mas por que escrevo no futuro, se é agora que ela está lá, a criança, estendida numa mesa coberta por uma toalha branca, entre nós e os demais personagens, imóveis dentro do quadro? Dá-se tempo para que velemos a morta. É isso: dá-se tempo.
A morta é a assassina do gato. Deve ter provado do próprio veneno.
Um dos anjos do apocalipse finalmente chegou. Irrompe no velório e discursa. Um dos primeiros discursos lúcidos do filme. Não vemos os rostos de quem o escuta, porque quem o escuta somos nós. O anjo exterminador nos responsabiliza pela morte da criança. Não diz a palavra “assassinos”, mas diz que ela morreu enquanto festejávamos; enquanto dançávamos o nosso tango.
***
Acabo de entender que o que me impele nesta escrita, apesar de toda a modorra que sinto nesses dias, é o meu desejo de poder capturar um contra-plano radical. É claro que há os contra-planos inerentes à obra: neste filme, por exemplo, o contra-plano imediato engloba os aldeões que já não vemos, mas que ainda estão dispostos ao redor da menina morta, escutando o discurso do anjo. Continuamos vendo-os, na nossa mente. Mas isso não basta. Pois deve haver, sim, ou deveria haver, um contra-plano de tudo, sempre virtual, sempre excedente, iluminado por outra luz que não aquela resumida às quatro paredes de um fotograma, mas que, se entrevisto, a iluminaria, retrospectivamente, com perspectivas insuspeitadas; um contra-plano, enfim, que fosse como a vida tomada enquanto entidade em-si, tal como se mostra-e-não-se-mostra nos planos de Tarr; a presença vital que se insinua sempre e a todo instante, por entre as coisas e apesar das coisas, dentro dos corpos e fora deles, à revelia das vontades, e que, ao mesmo tempo, não poderíamos chamar de deus ou destino, mas simplesmente de possível.
***
Acabo de descobrir, olha só, que todos os aldeões eram trabalhadores numa espécie de cooperativa, e comecei a caminhar com eles até uma fazenda distante, à procura de um paraíso ou algo que o valha. Lembro-me então que foi o anjo exterminador que, com a sua retórica, conseguiu instigar os aldeões a trabalhar em outras bandas e, além disso, os convenceu a investir nesta nova empreitada a soma de dinheiro que estava sendo motivo de sinistras e incompreensíveis contendas, no começo do filme. O que importa, ao menos para mim, é que fomos engabelados pelo anjo – ou ao menos eu me senti assim –, e agora estamos num êxodo rumo ao campo de uma nova esperança. E de repente o anjo exterminador se transformou num anjo salvador.
Então estamos caminhando pela estrada depois de ter, sabe-se lá porquê, destruído coletivamente um armário velho, com marretadas, marteladas, pazadas e pauladas, e apertado nossos víveres básicos em alguns carrinhos de mão. Passamos, portanto, de aldeões singelos a bêbados delirantes, de bêbados delirantes a assassinos de criancinhas, e agora, eis que somos um coletivo de trabalhadores munidos de novas esperanças, mesmo depois de termos tido as nossas almas aniquiladas.
Enfim, a estrada é longa e os pés são lentos. Em alguns momentos lembramos, como quem lembra de um fio de cabelo branco em meio aos pretos, que deixamos o gordo velho solitário fumante bêbado para trás, sozinho na aldeia abandonada. Um dos nossos companheiros diz que é assim mesmo, que é a vida. Uma companheira concorda e diz que ele vai se virar; que agora vai poder beber até morrer. Que morra, dizem os outros dois. Todos concordamos, rindo.
Agora entramos pela boca escura de uma casa antiga, como se esta fosse um novo inferno, contrariando todas as esperanças relativas ao paraíso. Lá dentro, iluminamos as ruínas da casa com fachos de lanternas, na tentativa de entender qualquer coisa… que venha um lampejo de razão, sequer…
Coisa curiosa: nessa cena que acabei de descrever, a alternância de planos, subitamente entrecortados, fez com que a passagem do escuro para o claro se desse como num balé neuronal, e comecei a pensar se não era dentro da minha cabeça que os aldeões passavam seus fachos de luz, não apenas porque meus olhos já se abriam e fechavam, sonolentos, fazendo com que a transição de sombra e luz do tempo narrativo se amalgamasse às transições de sombra e luz dos meus sentidos, mas porque, a cada facho de luz das lanternas, eu sentia, em algum ponto da minha cabeça ou do meu cérebro, umas cócegas, como se as luzes o tivessem afagando. Então eu dormi e eles devem ter passado a noite inteira explorando a caverna, a câmera, o fotograma, a minha casa, o meu quarto, a minha cabeça, tanto faz.
Sétimo dia
Melhor não escrever nada porque estou bebendo neste exato momento e meu corpo está possuído por aquilo que eu poderia chamar de espírito-de-porco.
Oitavo dia
Diagnósticos matinais: 1) ressaca; 2) não vi o filme mais uma vez (vergonha, vergonha); 3) me encontro encalacrado na forma que escolhi para esse texto, que é ou deveria ser algo entre o diário e o ensaio. Acabei transformando, como em outras ocasiões da minha vida, o ato de fruir uma obra de arte num trabalho exaustivo, labiríntico, vertiginoso. De modo que ontem fiquei pensando mais uma vez se seguiria ou não. O diário, quando escrito para ser lido, revela uma dialética problemática entre o público e o privado, cuja mera menção já me provoca coceiras.
Nono dia
O último dia deste diário, porque Sátántangó chegou ao fim ontem de noite.
Ao longo desses dias as minhas costas foram melhorando progressivamente, assim como o meu humor, mas obviamente não vou posicionar a salvação no terreno da arte, se bem que ela sempre contribua um pouco, dependendo das formas com que nós nos ofereçamos a ela.
Duas coisas que me fizeram bem: sol e movimento. Anteontem vi dois lagartos enormes na beira de uma lagoa, tomando banho de sol. Quando me aproximei, um deles subiu num coqueiro. Como eu não sabia ser possível uma coisa dessas, a entendi como uma epifania: um lagarto pode sim, subir num coqueiro. Que fique registrado. E ele ficou lá, parado, olhando para mim. O outro voltou a nadar como se nada tivesse acontecido. Provavelmente, para este eu não existi. Talvez para o outro também.
Anteontem minha mãe, meu irmão e minha cunhada voltaram para a cidade. Desde então estou sozinho na casa da infância, e na primeira noite imaginei os fantasmas de meus avós.
Ontem, na noite de despedida do filme, o gordo velho solitário fumante bêbado voltou à aldeia treze dias depois de ter caído na beira da estrada e de ter sido levado para um hospital pelo caminhoneiro, ou melhor, pelo caminhão. Ele não sabe, portanto, que dias atrás os outros aldeões foram levados a deixar a cidade. E que nós, e não ele, tínhamos visto os aldeões entrarem naquela casa em ruínas para perscrutar as paredes, cheias de musgo e gretas, da história. Tínhamos acompanhado o sono coletivo deles, reunidos num só cômodo, por causa do frio. Acompanhamos, também, a narração dos seus sonhos individuais, falada por uma voz em off. O povo ainda tinha a capacidade de sonhar, em meio ao caos, se bem que alguns tivessem pesadelos. Vimos a chegada da manhã e o retorno do anjo. Novo discurso que evocava algum tipo de conspiração contra a cidade, contra o Estado, não sabemos, e permaneceremos sem saber. Percorremos as entranhas da máquina burocrática, onde, sozinhos numa sala, dois militares escreviam documentos oficiais, tecendo o destino dos supostos conspiradores e determinando, em linhas poeticamente estapafúrdias, a personalidade de cada um dos aldeões, ou melhor, dos seus personagens, porque, visto desde o plano da ficção, o que aqueles dois militares escreviam era uma história, mentirosa ou não, nunca saberemos, mas era uma história.
Nada mudou, porém, para ele. O gordo velho solitário fumante bêbado senta na sua cadeira e espera algo acontecer lá fora, para anotar no diário. O protótipo do escritor moderno. Agora tocam os mesmos sinos da abertura do filme, durante a qual havíamos testemunhado a orgia bovina. Mas através da janela não acontece nada. Então ele acusa os aldeões de uma “eterna passividade”. Porque pensa que todos devem estar, nesse momento, deitados nas suas camas, olhando para o teto, esperando o inevitável chegar. Mas os sinos, hoje, tocam distintamente, o que o faz sair de casa. Vai até a igreja destruída pela guerra, da qual sobrou apenas uma campanário. Na verdade o sino, diferentemente do começo, é agudo, estridente, e bate cada vez mais forte, à medida de sua sofrida aproximação. Lá dentro, um homem sustenta o olhar fixo nas paredes de pedra, batendo o sino e gritando: “Chegaram os invasores, chegaram os invasores!”. Ficamos observando por muito tempo as transições no rosto deste homem. Pouco a pouco as mesmas palavras, entoadas como um mantra, tornam-se raivosas e depois embargadas pelas lágrimas que lhe caem dos olhos. Este homem é intemporal. Está ali há séculos, batendo o seu sino.
O gordo velho solitário fumante bêbado volta para casa. Diz a si mesmo que deve estar louco, pois entendeu tudo errado: aquilo era um sinal do fim, e não do começo. Os invasores estão chegando. “Os turcos”. Treme. Pega uma tábua e a posiciona na janela. Martela. Pega a segunda tábua e a prega acima da primeira. A terceira tábua. Martela. O quarto já está quase sem luz. A quarta tábua, acima de todas as outras. Blackout. O último som do martelo.
Hoje voltou a chover e eu decidi que vou ficar mais um tempo por aqui. Vejo uma lagarta no chão. A cada dois passos, ela para e levanta a cabeça no ar, tremendo, como se farejasse algo. Talvez a minha presença. Não sei se lagartas dão passos ou farejam.
***
Passaram-se uns trinta minutos desde que escrevi sobre a lagarta, e ela ainda está aqui, ao meu lado, farejando algo a cada dois passos.
***
Não sei se vou conseguir terminar, mas vou terminar, tenho que terminar. Volto aqui porque acabei de ser invadido por uma metáfora do filme, que não sei por que fui esquecer: o trabalho das aranhas. Elas aparecem no bar onde os bêbados festejam, enquanto a menina morre, lá fora. E quando todos os bêbados dormem, espalhados de qualquer jeito pelo bar, as aranhas tecem suas teias, entre corpos e objetos. O anjo fala também fala das aranhas, as minhas aranhas, ele diz, espalhadas por todos os cantos do mundo, em todas as cidades, construindo suas teias. Através delas, qualquer movimento será sentido.
Isso: uma sensibilidade que fosse arriscada, frágil, dolorida e perigosa.
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Daniel Guerra nasceu em Salvador, Bahia, em 1987. Hoje vive em São Paulo, onde cursa graduação em filosofia na Universidade de São Paulo. É doutor em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia. É escritor, editor, diretor teatral e crítico de arte. Fundou a Revista Barril em 2016. Publicou o romance Fléti e Míris (7Letras, 2025) e o livro de teoria da arte O acontecimento cênico (Kotter, 2023).