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‘No Sertão, a fronteira entre o real e o mágico é quase inexistente’, diz Arthur Petrola, autor da coleção de contos ‘O Interior das Terras’

Em depoimento para a revista O Odisseu, Arthur Petrola explica que buscou honrar a tradição oral ao escrever “O Interior das Terras” (Mondru).


Estamos vivendo um revival das narrativas que buscam retratar a realidade dos interiores do Brasil e que fogem da ficção majoritariamente urbana que vinha se fazendo até o fim da década de 2010 no país. Poderíamos dizer que a grande referência para essa nova geração de narradores seria o “Torto Arado”, do baiano Itamar Vieira Jr. No entanto, outros nomes como Socorro Acioli, Micheliny Verunschk, Luciany Aparecida, Tito Leite II e Franklin Carvalho também estão narrando de forma brilhante o que acostumamos a chamar de “Brasil Profundo”. Na esteira desses novos autores, Arthur Petrola, escritor cearense radicado na Inglaterra, nos presenteia com “O Interior das Terras”.

Arthur Petrola, autor de O Interior das Terras (Mondru, 2025)/ Foto: Divulgação.

‘No sertão, o fantástico é parte da vida’, diz Arthur Petrola, autor de ‘O Interior das Terras’

Na apresentação do livro de contos, é dito que o livro se aproxima do realismo mágico de Gabriel García Márquez e Julio Cortázar. Em entrevista com Petrola, digo que aqui na América Latina temos o costume de chamar qualquer narrativa que evoque o fantástico por essa alcunha, mas que a nossa literatura tem brincado com o mistério e a magia há tempos, inclusive na história oral do nosso povo.

Petrola é um autor que assume inteiramente suas raízes do interior do nordeste e não hesita em creditar à tradição oral o tom mágico de suas narrativas:

No Sertão, a fronteira entre o real e o mágico é muito tênue, quase inexistente. Quem cresceu ouvindo as conversas de alpendre ou de beira de fogo sabe que o sobrenatural não pede licença para entrar na vida cotidiana; ele faz parte dela. Eu não invento essa atmosfera; eu a escuto. Meu processo criativo parte dessa escuta atenta. Todas as lenda não são superstição, mas uma camada mais profunda da realidade. Em ‘O Interior das Terras’, busco honrar essa tradição oral, transformando os ‘causos’ que ouvi em literatura, mantendo o respeito pelo mistério que habita a alma do sertanejo. No sertão, o fantástico não é ‘mentira’, é parte da vida“, diz Arthur Petrola para a revista O Odisseu.

Esse tom mágico, inclusive, surge como outra forma de representar o sertão para além dos limites da literatura dos retirantes e das secas, que é o que mais se conhece do sertão enquanto representação literária em todo o país. “A geração de 30, com mestres como Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz, foi fundamental para denunciar a seca e a miséria social. No entanto, o Sertão não é apenas escassez; é também potência. A minha busca, e a de muitos contemporâneos, é retratar um sertão-mundo, onde a aridez geográfica contrasta com uma fertilidade imaginativa e filosófica.”, diz Petrola.

O autor então foge da representação da seca e quer apresentar aos seus leitores uma categoria outra referente ao sertão, muito mais centrado nos cenários mágicos, nos “causos” e nas lendas que circulam por todo esse território imenso.

“Meus personagens não são apenas sobreviventes, eles enfrentam dilemas existenciais, místicos e universais. Busco um sertão que dialogue com a ancestralidade e, ao mesmo tempo, com aspectos cósmicos e psicológicos. Quero mostrar que, na dureza da terra, o que floresce é uma humanidade complexa, cheia de sonhos e mitologias próprias.”, diz Arthur Petrola para a revista O Odisseu.

Por uma ficção que convoca a imaginação

Finalizei minha conversa com Arthur com uma provocação que tenho feito a autores que buscam fugir dessa tendência ultrarrealista que temos na literatura contemporânea. No lugar da imaginação e da fabulação, muitos autores estão buscando uma representação exata da realidade para endossar denúncias sociais. Sobre isso, Arthur comenta:

“Acredito que a literatura tem duas perspectivas importantes: denunciar a realidade e, crucialmente, reencantar o mundo. Vivemos tempos de um realismo cru, muitas vezes brutal, e a ficção contemporânea tende a espelhar isso de forma direta. Porém, esquecemos que a realidade material, por si só, muitas vezes não basta para explicar a experiência humana. O resgate do fantástico é uma forma de resistência. O fantástico nos permite acessar verdades que o realismo não alcança. A fabulação não é uma fuga, mas uma lente de aumento para entender nossas angústias e esperanças. Precisamos do mistério e do maravilhoso para suportar o peso do mundo e lembrar que a vida, em si, é um acontecimento inexplicável. Um absurdo.”

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