
‘A poesia vai além da racionalidade’, diz Renato D’Ölivo que lança o livro de poemas ‘Da pele pra dentro’
Costurando influências da psicanálise, análise do discurso e existencialismo, Renato D’Ölivo trabalhou em ‘Da pele pra dentro’ (Mondru) a busca pelos mistérios da vida.
A história nos mostra que a poesia já foi utilizada muitas vezes na investigação de mistérios que não conseguimos compreender no domínio do racional. Renato D’Ölivo, poeta mineiro, se insere nessa tradição e lança um livro inquieto e cheio de perguntas desafiadoras que giram em torno da existência e do sentido da vida. Renato, que se apresenta como um estudioso da psiquê humana, contou em entrevista para a revista O Odisseu que os poemas que compõe a coletânea “Da pele pra dentro” não surgiram unicamente como uma consequência do estudo, mas também de uma experiência pessoal.
“O livro ‘Da pele pra dentro’ surgiu de uma determinação de escrever um livro de poemas, algo assim tão racional: pensar, cumprir prazos, manter uma disciplina de escrita e colocar a mão na massa. Porém, há aquela parte em que esse racional não abarca o processo todo, e assim escapa a doce ilusão do controle. Claro que escrever é um exercício da razão, mas o convite também era como expressar emoção. Em 2024, diante de um episódio, daqueles que nos tiram o chão, surgiu o poema que abre a obra. A partir dele, criei uma arte colagem, pois utilizo a técnica do art-journal para lidar comigo e com o mundo, numa espécie de autoterapia. A arte sempre foi minha companheira desde a infância. Então, com os estragos do episódio, o poema e a arte, procurei um terapeuta junguiano . Foi assim que abri a porta do inconsciente, e uma avalanche de imagens foram produzidas.“ Contou Renato D’Ölivo para a revista O Odisseu.
Para Renato escrever o livro, foi necessário recorrer a outras ferramentas já conhecidas por ele e que forneciam caminhos para pensar a angústia humana. Renato explica que via a si mesmo como alguém muito racional e que foi só ao se despir dessa face apegada à lógica que ele conseguiu perceber o quanto de preciosidades que é possível encontrar no cotidiano.
“Havia um Renato extremamente racional, engessado se deslocando, ou tendo sua energia psíquica se deslocando para outro caminho, o da intuição e da sensitividade. Isso me assustou. Em determinado momento essas imagens cessaram, aqui neste ponto me atentei para as muitas epifanias. Na simplicidade do corriqueiro, surgiram insights que abriam verdadeiras portas, dessa forma boa parte do material dos poemas foi captada. Como venho de um longo processo nos mergulhos profundos da alma, a percepção diante do suposto real vem descortinando véus. Uma coisa é o apresentável, outra é o que se passa por dentro. Hoje, me move o desejo de que haja mais discussões e informação fora do recorte adoecimento/alopatia , do ser humano como limitado corpo físico apenas, e longe de sua singularidade, subjetividade e autenticidade, quando as estatísticas de saúde mental, consumo de anestésicos e violência galopam assustadoramente.”
Conhece-te a ti mesmo
Desde 2019, Renato se dedica ao estudo sobre os mistérios da mente humana. Ele conta que sempre se gostou de aprender (sua trajetória é marcada pelo estudo das letras), mas que está focado em encontrar respostas sobre a subjetividade humana. Em entrevista, Renato também aponta o comportamento humano em tempos de redes sociais como um dos seus pontos de interesse enquanto estudioso: “Ao ler uma entrevista, aqui na Revista O Odisseu, me chamou atenção a seguinte frase da Danielle Freitas: ‘Escrever é afirmar que nossas experiências importam.’ Tem muito disso nos 50 poemas do livro ‘Da pele pra dentro’, pois , como seres divinamente humanos, longe dos malabarismos apoteóticos da busca por likes há outra realidade gritante, não apresentável. O que nos torna sujeitos é esse atravessar pela linguagem que veio do outro desde a infância, o peso das instituições reguladoras, a obrigação de performar quem nós nem somos, as milhares de experiências que nos formataram”.
Nessa rotina de estudos, se aproximou da teoria psicanalítica, da hipnose clínica, da arteterapia, astrologia, alquimia e outros recursos que fossem capazes de oferecê-lo ferramentas para essa investigação. Isso resulta na complexidade de seu livro que se mostra uma obra muito mais centrada em trazer à tona perguntas que focar nas respostas.
“Esse movimento todo me permitiu expansão da consciência; já havia um convite lá atrás, quando no mestrado foquei em Análise do Discurso Francesa, e aqui a linguagem não é neutra, ela vai produzindo sentidos moldados pela história e ideologia, assim, o sujeito é interpelado, pois não produz o sentido, mas é afetado por ele. Linguística, marxismo e psicanálise. Hoje quando atuo no terreno sagrado das terapias, no témenos, percebo melhor determinados mecanismos, e essa bagagem toda apurou meu olhar para mim mesmo e para o outro. Neste ponto de minha trajetória parece que se apresenta uma síntese do Renato artista, professor, terapeuta, escritor. A poesia cirúrgica e acolhedora nos versos dos 50 poemas trazem muito desse percurso de estudos, e do ser humano partejado por mim mesmo. Ser humano esse, universal, em toda sua complexidade.”, conta Renato D’Ölivo para a revista O Odisseu.
‘A poesia tem sim um poder transformador’, diz Renato D’Ölivo, autor de ‘Da Pele Pra Dentro’
Ao perguntar a Renato: “por que se aprofundar em estudar os mistérios da subjetividade humana e também dos mistérios dividos e metafísicos (outro aspecto presente no livro)”, ele me responde da melhor maneira possível: “por que não?”. “Por que ainda não nos abrimos para os mistérios da vida? Quais são as amarras, as prisões, os grilhões? Por que estamos bem acoplados ao que nos adoece? Por que rotulamos, reforçamos estigmas e perpetuamos exclusões que só alimentam mais dores? Fomos culturalmente engessados de diversas formas, mas a visão cartesiana, a cisão mente/corpo e todo um jogo de interesses para nos manter longe de nós, se é que é possível, continua fazendo o trabalho a que se destinou.“, disse em entrevista.
São muitos os caminhos possíveis para pensar aquilo que está em segredo, e, nesse sentido, surge a pergunta irresistível: por que a poesia enquanto um material de interpretação desses segredos? Para Renato, o desejo de romper com um pensamento inteiramente racional foi um dos motivos que o levou a mergulhar no lirismo. Como ele mesmo diz, mergulha pois acredita que a poesia possui um grande poder:
A poesia consegue sim, a arte tem um poder imenso, transformador. Poesia vai além as racionalidades, toca corpo e alma, toca onde pede acolhimento e clarezas. Trago aqui um recorte da contribuição de quem leu a obra: “Ler os poemas de Renato é entrar num território em que a arte cumpre sua função mais antiga e mais rara: salvar. Não no sentido espetacular ou redentor, mas naquele gesto silencioso em que a palavra sustenta o que antes não tinha forma”. É dessa maneira que a poesia nos aproxima dos mistérios da vida. A arte tem essa “estranha e poderosa capacidade de transportar uma experiência humana de um corpo a outro”. Infelizmente o intelecto ainda zomba do incompreensível, afinal parece ser um vexame não conseguir compreender e explicar. Porém, sem as vias ditas “irracionais” não se apreende e experimenta o sagrado, a vida, e a libertação. O pensamento científico exclusivamente objetivo, mas carregado de subjetividades, vê monstros e fantasmas no inexplicável. A poesia encontrada no livro Da pele pra dentro fala da urgência da integração dos opostos, do homem como um ser integral. A poesia desse livro é para tocar almas. Um fio que conduz a conexão: linguagem, emoções, alma, profundezas da experiência humana. É poesia para se sentir vivo.
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Da pele pra dentro, de Renato D’Ölivo
Editora Mondru, 2025

