Coluna Escrevernar

As 10 melhores leituras de 2025

Ao reunir estas dez melhores leituras, percebo que todas, cada uma à sua maneira, me ensinaram algo sobre resistência. Resistir à guerra, ao amor que aprisiona, às perdas, ao apagamento, ao colonialismo, ao patriarcado, ao esquecimento.


Alguns anos parecem escrever-se a si mesmos antes que possamos compreender o enredo. 2025 foi assim para mim: um ano guiado por leituras que não apenas ocuparam as horas dos meus dias, mas me reorganizaram por dentro, como se cada livro retirasse cuidadosamente um véu que eu nem sabia que carregava. Ao tentar elencar as melhores leituras que fiz, percebi que elas formam uma espécie de constelação secreta, obras que iluminam, por caminhos distintos, temas que me inquietam há anos: a memória, a violência, a ancestralidade, a escrita como ato de resistência, o amor como construção e ruína.

A trilogia dos gêmeos, de Ágota Kristóf/ Editora Dublinense, 2024.

A primeira leitura do ano chegou como um golpe: A trilogia dos gêmeos, de Ágota Kristóf. Durante quatro dias inteiros, habitei aquela prosa devastadora, dura como pedra lavrada pelo vento da guerra. Kristóf escreve como quem não pode se permitir o luxo de uma vírgula a mais. Sua linguagem, neutra no sentido barthesiano, quase impessoal, escapa do sentimentalismo para se aproximar da experiência traumática. Nada ali é ornamento; tudo é sobrevivência. A economia da língua, tão radical, é também testemunho de alguém que perdeu o idioma materno e precisou reconstruir-se em outro. Na trilogia, a violência do mundo se infiltra na própria sintaxe, de modo que o leitor sente a escassez não apenas no relato, mas na forma. Um texto que, enquanto narra uma infância esfacelada pela guerra, simultaneamente questiona o próprio estatuto da verdade. Passei páginas reconstruindo e desfazendo fatos, como um quebra-cabeça que insiste em permanecer inacabado. A literatura, ali, se recusa a entregar respostas. Há livros que nos acolhem; este me feriu, e, talvez por isso mesmo, me transformou.

Da devastação da guerra, entrei numa outra devastação: a doméstica, a emocional, a silenciosa. Na voz dela, de Alba de Céspedes, me surpreendeu por tocar um território íntimo e, ao mesmo tempo, coletivo: o do silenciamento feminino dentro do casamento. Aqui também Barthes me acompanhou página após página, especialmente quando descreve o amante que sofre na ausência, preso à espera.

É exatamente esse mecanismo perverso que aprisiona Eleonora e Alessandra: mulheres fincadas num amor que lhes exige a própria anulação. Conforme avançava, fui percebendo que, mais do que personagens ficcionais, elas representam gerações de mulheres que abriram mão de seus estudos, de seus corpos, de seus desejos para assumirem o papel de esposas, um papel que lhes foi imposto como destino inevitável. A presença dos maridos, paradoxalmente, opera como ausência: homens que ocupam espaço, mas não escutam; que convivem, mas não veem; que tocam, mas não reconhecem. A depressão, o esvaziamento de si, a desistência lenta, tudo isso se instalou nelas como poeira que ninguém percebe, mas que sufoca. Céspedes escreveu um romance que denuncia, com precisão e delicadeza, o perigo de fazer do amor o único eixo de uma existência. No amor patriarcal, silenciar-se é morrer aos poucos.

Li O Colibri como quem atravessa um campo minado. Marco Carrera, oftalmologista, pai, amante silencioso, sobrevivente, é um personagem cuja dor parece implodir o tempo inteiro, mas que se recusa a desaparecer. Emméno — “eu persevero” — torna-se o verbo que sustenta o romance, uma espécie de mantra para continuar existindo quando tudo parece perdido. A frase de São João da Cruz: “Para chegares ao que não sabes, hás de ir por onde não sabes”, orienta não apenas a caminhada de Marco, mas a própria tessitura fragmentária da narrativa. A cronologia se desfaz para dar lugar à lógica da memória: não linear, não organizada, mas pulsante. E então surge Miraijin, a neta, esse “homem do futuro” que é, na verdade, uma menina. O gesto simbólico é enorme: o futuro, para Veronesi, só poderá existir sob outra lógica, talvez mais ligada ao cuidado, à empatia, à escuta. Se Marco permanece, é por ela. O colibri, pássaro que permanece suspenso no ar graças a um movimento quase invisível, é metáfora luminosa desta sobrevivência silenciosa.

Depois de tantas dores, precisei respirar. E encontrei fôlego em Memórias de Menino, do escritor amazonense Odenildo Sena. O livro é difícil de classificar: crônica? ficção memorialística? ensaio afetivo? E talvez resida aí sua beleza. Sena nos conduz a uma Manaus que já não existe, onde igarapés eram ruas e barcos, extensões naturais do cotidiano. A figura central é Mãe, com maiúscula. Ela é a guardiã do menino e o eixo que sustenta toda a narrativa. Em meio à pobreza, à perda precoce do pai, às adversidades, ela é o horizonte. E Sena escreve de modo tão sensorial que quase pude sentir a umidade da cidade, o cheiro do rio, o movimento das embarcações. Aqui, a memória é um gesto de amor. Um retorno às origens como quem costura o tempo para que ele não se perca.

O Colibri, de Sandro Veronesi/ Autêntica Contemporânea, 2024/ 336 pp.
Um Rio Sem Fim, de Verenilde S. Pereira/ Editora Alfaguara, 2025/ 184pp.

O quinto livro que escolhi me jogou de volta ao meu Amazonas ferido. Um Rio Sem Fim, da também amazonense Verenilde Pereira, é uma obra arrebatadora não apenas pelo que narra, mas pela forma de narrar. A história de Maria Assunção e Rosa Maria, meninas indígenas retiradas de seus territórios para servir famílias ricas em Manaus, expõe uma ferida antiga que insiste em supurar: a violência colonial que nunca cessou. A prosa de Verenilde é sofisticada e extremamente poética, pois mesmo imersos na violência sofrida pelas personagens, ela escreve com uma beleza singular, restituindo a nós leitores contemporâneos o que a História tentou ocultar por centenas de anos.  E assim compreendi o que ela afirma: a memória é uma forma de conhecimento. O livro é, ao mesmo tempo, autoficção e filosofia feminina. Ele acende luzes em lugares onde antes havia apenas névoa.

Depois de Ernaux, precisei de outra mulher que escrevesse a partir da fratura e felizmente encontrei Apolinária, de Bianca Santana. Este romance é mais do que uma homenagem à avó: é um gesto de reparação histórica. Apolinária narra sua própria história, e esse ato é político. Dar voz a uma mulher negra que enfrentou pobreza, racismo, maternidade solo e abandono paterno é abrir uma fissura no discurso oficial que tentou apagá-la. A alternância entre as vozes de Apolinária e Bianca evidencia a mobilidade social como conquista ancestral. Os capítulos são entrelaçados com reflexões sociológicas, ecos de Grada Kilomba, Chimamanda Adichie, Lélia Gonzalez. A literatura aqui não apenas conta uma história, ela amplia repertórios, combate estereótipos, devolve humanidade. A escrita de Bianca é febril, corporal, pulsante. Ela escreve como rio: com fluxo próprio, inevitável.

Com Memória de Menina, retornei à minha própria adolescência; mesmo que o verão vivido por Annie Duchesne, em 1958, estivesse a décadas de distância. Ernaux escreve em terceira pessoa porque não reconhece naquela jovem a mulher que se tornou. E esse distanciamento é um dos elementos mais geniais da obra: é preciso afastar-se para compreender. A submissão de Annie a H., o rapaz que a ridiculariza e a diminui, reverberou em minhas próprias memórias. Nós, mulheres, fomos ensinadas a agradar, a nos moldar, a evitar desagradar, e, muitas vezes, naturalizamos a violência. Ernaux me fez revisitar episódios que eu acreditava ter esquecido.

Na sequência, mergulhei nas águas do desejo e do exílio com Cristina Peri Rossi. Nossa vingança é o amor reúne poemas de cinco décadas, atravessados por sensualidade, política e muita desobediência. Desde que comecei a ler, tornou-se meu livro de cabeceira. Abro-o como um oráculo, na tentativa de desvendar quem sou através de poemas que mexem com todos os meus sentidos. Peri Rossi sempre soube que escrever é enfrentar o mundo e enfrentá-lo com amor é um gesto profundamente subversivo.

Depois mergulhei em outro tipo de desamparo: Ressuscitar Mamutes, de Silvana Tavano, vencedor do Prêmio Oceanos 2025. Um romance sofisticado que encara a esperança e a desesperança ao narrar aquilo que talvez seja impossível: a mãe. Ao reconhecer que nunca alcançaremos a mãe como pessoa inteira, Tavano reinventa uma “mãe de todos os tempos”. Sua prosa é delicada e feroz, capaz de tocar as zonas mais íntimas de nossa memória afetiva. Um livro que nos lembra que a esperança nasce, paradoxalmente, da consciência daquilo que não podemos salvar, e, ainda assim, amamos.

E então, Coração Sem Medo, de Itamar Vieira Jr., encerrando a Trilogia da Terra, foi uma das leituras mais dolorosas e necessárias que fiz. A busca de Rita Preta pelo filho Cid, levado pela polícia sem explicação, expõe o funcionamento de um Estado que administra a morte de corpos negros como parte de sua engrenagem. O romance dialoga com Lélia Gonzalez e Fanon de forma impressionante. Gonzalez, ao falar da mulher negra como ponto mais vulnerável da pirâmide social, encontra eco imediato em Rita, cuja dor não mobiliza instituições. Fanon, ao falar da gestão colonial da morte, ilumina o desaparecimento de Cid. A escrita de Itamar é luminosa e feroz. Ele não descreve simplesmente a realidade: ele a revela. Ele a faz arder.

Ao reunir estas dez leituras, percebo que todas, cada uma à sua maneira, me ensinaram algo sobre resistência. Resistir à guerra, ao amor que aprisiona, às perdas, ao apagamento, ao colonialismo, ao patriarcado, ao esquecimento. Cada livro me devolveu uma parte de mim que eu não sabia que tinha deixado para trás. A literatura, quando verdadeiramente viva, não ilumina apenas o que vemos, ilumina também o que tememos ver.

Ressuscitar Mamutes, de Silvana Tavano/ Autêntica Contemporânea, 2024/ 120pp.

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