
A alma em flor de Florbela Espanca
Hoje, 8 de dezembro de 2025, lembramos não apenas os 95 anos de morte de Florbela Espanca, mas celebramos os versos que embalam as nossas saudades.
Em 1981, Fagner lançou o CD Traduzir-se que continha, dentre outras faixas, a música Fanatismo, que logo tornou-se um grande sucesso da MPB. O que pouca gente sabia/sabe é que a linda letra da música saiu da pena da inspirada e jovem poeta portuguesa Florbela Espanca, nascida em Vila Viçosa (Alentejo), em 8 de dezembro de 1894. No ano seguinte, Fagner gravou outra canção extraída de um poema de Florbela. A escolhida da vez foi Fumo, cuja letra, carregada de um romantismo intenso e sensual, era marca registrada de Florbela Espanca. Ambos os textos fazem parte do livro Sóror Saudade, lançado em 1923 e editado, à época, por Francisco Lage.
A poeta era filha de Antónia da Conceição Lobo, criada de servir na casa de João Maria Espanca e Mariana, que não podiam ter filhos. Por essa razão, com a conivência de Mariana, João relacionou-se com Antónia, com quem teve Florbela e Apeles. As crianças foram registradas com o sobrenome da mãe e Florbela só foi reconhecida pelo pai vinte anos depois, embora tivesse com ele uma boa convivência.
Muito cedo, ingressou na escola, onde já manifestou inclinação para as letras. Consta que o seu primeiro texto poético, intitulado “A vida e a morte”, data de 11 de novembro de 1903, quando ela tinha somente 8 anos.
A jovem cresceu em um ambiente propício ao desenvolvimento de seus talentos, tendo livre acesso à educação, inclusive tendo ingressado na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, sendo uma das 14 mulheres entre os 347 alunos. Florbela escreveu largamente para a imprensa, mas publicou somente dois livros em vida: o já citado Sóror Saudade, em 1923 e o seu primeiro livro, intitulado Livro de Mágoas, em 1919. Os duzentos exemplares esgotaram rapidamente, o que é considerado algo raro, ainda mais tratando-se da obra de uma mulher.
As muitas questões pessoais afetaram não somente a saúde mental da poeta, como atravessam a sua poesia de forma intensa, demonstrando uma melancolia e uma tristeza que renderam lindos versos, como os de O meu orgulho:
Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera
Não me lembrar! Em tardes dolorosas
Eu lembro-me que fui a Primavera
Que em muros velhos fez nascer as rosas!
A melancolia, por vezes, misturava-se a uma paixão sensual e intensa como em Os versos que te fiz:
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim para te oferecer.
Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder…
Deixa dizer-se os teus lindos versos raros
Que foram feitos para te endoidecer!
Florbela não alinhou-se a qualquer movimento literário de sua época, embora tenha produzido com intensidade, principalmente para a imprensa. Além de poesia, dedicou-se também à escrita de contos. Seus sonetos, carregados de sentimento e intensidade, demonstram a doçura de uma alma apaixonada e, ao mesmo tempo, a força de um coração inquieto e inclinado para o mundo e suas muitas possibilidades. Infelizmente, sua luz durou pouco e em 8 de dezembro de 1930, aos 36 anos, ela morreu vitimada por um edema pulmonar, embora muitos acreditem que a causa real foi tristeza, e uma tristeza intensa que alojou-se em seu espírito desde a morte de seu irmão Apeles, vitimado por um acidente aéreo. A dor nunca cicatrizou! Hoje, 8 de dezembro de 2025, lembramos não apenas os 95 anos de morte de Florbela Espanca, mas celebramos os versos que embalam as nossas saudades.
Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!
(Os meus versos, Florbela Espanca)
Leia Também: ‘Quanto custa um lugar à mesa do pai?’ – Uma leitura de ‘Lavoura Arcaica’, de Raduan Nassar

