
LADINO E LITERATURA
Como a literatura jovem é basilar para o retorno de uma língua perdida?
Foto: Jen Castle Photography
Ladino, também conhecido como Judeo-Espanhol, é uma língua nascida nas comunidades judaicas Sefarditas da Espanha, que foi levada a outras regiões do Mediterrâneo com a expulsão dos judeus do Reino da Espanha pelo Decreto de Alhambra de 1492. Por conta dessa onda migratória, o ladino deixou de ser apenas uma língua nascida do contato entre o espanhol e o hebraico para também ter muitas características lexicais e gramaticais do turco quando esses judeus Sefarditas chegam no Império Otamano. Como é colocado no livro Nona Casa da Leigh Bardugo, quando uma personagem utiliza a língua: “Ladino. Ela falara espanhol, hebraico e ele não sabia mais o quê. Era a linguagem da diáspora” (Bardugo, 2020, p. 110).
Contudo, com as Inquisições na Península Ibérica e diversos pogroms, com a morte de seus falantes ou necessidade de parar de utilizar a língua como forma de proteção, o ladino foi cada vez menos falado. Chegamos, assim, à situação atual em que o ladino está presente apenas em refranes (ditados), em textos escritos ou em ambientes familiares restritos. Tendo em vista o risco constante dessa língua e de seus falantes, em sua maioria idosos, inicia-se, então, um movimento de retorno à língua por parte das comunidades judaicas Sefarditas, tendo sites como o Ladino Uprising com materiais para tornar a língua acessível na internet.
Com esse movimento de retorno à língua, entram em cena os livros da autora Leigh Bardugo (1975 – ), conhecida especialmente por livros Young-Adult (para o público jovem adulto) como Sombras e Ossos (2012) e Six of Crows (2015), encontrados nas livrarias e nos vídeos do TikTok. É, então, interessante pensar que tal forma de literatura, vista como “baixa”, está sendo responsável pelo fortalecimento de uma língua esquecida, trazendo o ladino para o conhecimento do grande público.
Dentre os livros da autora, o ladino se mostra mais presente em dois livros: Nona Casa (2019) e O Familiar (2024), dois livros de fantasia que apelam para o público jovem. Em Nona Casa, essa presença ainda é muito singela, com definição de ladino – citada no primeiro parágrafo – e um refran que pode ser facilmente confundido com o espanhol: “Quien no sabe de mar no sabe de mal!” (Bardugo, 2020, p. 110, grifos da autora), inserido em um momento da narrativa que dá um aspecto mágico à língua, quando é utilizada para afastar espíritos no contexto do livro. Não apenas traz este refran, mas constrói uma protagonista que é judia, mas não tem isso como uma totalidade em sua construção narrativa. É uma característica importante que, numa história repleta de fantasmas e seres mágicos, está envolvida em algumas decisões que a personagem toma, mas ela não se resume a isso.
O aspecto mágico é uma característica dada à língua pela autora: em ambos os livros o ladino tem um papel motor na narrativa, tendo uma magia envolvida no uso da língua de acordo com os contextos de cada livro. Isso se torna ainda mais claro em O Familiar, quando os refrans ladinos são essenciais para a narrativa construída na obra, sendo o livro em que Bardugo traz ainda mais esse interesse em tornar o ladino uma língua conhecida: não apenas a língua em si, mas a história do povo que a falava. A obra já é iniciada com uma dedicatória em ladino: “A mi famiya – konvertidos, surgunlis, i fantazmas.” (Bardugo, 2025, p. 5, grifos da autora), traduzida na edição brasileira como “Para minha família – convertidos, exilados e fantasmas”. Apontando, então, já de início, que essa história pode até ter tropos narrativos conhecidos e que viralizam o livro nas redes sociais, mas ele está aqui, principalmente, para contar uma história que parece desaparecer cada dia mais da memória.
Em O Familiar, seguimos, então, a história de Luzia, uma jovem camareira que trabalha para uma família abastada que se utiliza de “milagritos” (aqui, os refrans ladinos são utilizados para truques mágicos) para ter uma vida menos sofrida, fazendo o balde água pesar menos ou uma fornada de pães queimados parecerem novinhos em folha. Filha de cristãos-novos, ela está com o constante medo de não frequentar a igreja o bastante, para que não seja confundida com hereges, ou pior, judia no cenário da Espanha entre o final do século XVI e início do século XVII, com a Santa Inquisição em voga, 100 anos após a expulsão de boa parte da população judaica do país. Como é estabelecido já nas primeiras páginas do livro:
Quando Luzia vira o pão queimar, não pensou muito antes de passar a mão sobre ele e cantar as palavras que a tia lhe ensinara – “Aboltar cazal, abola mazal”. Uma mudança de cena, uma mudança de sorte. Ela cantarolou bem baixinho. Não era exatamente em espanhol, assim como Luzia não era exatamente espanhola. Mas Doña Valentina nunca a aceitaria naquela casa – nem mesmo naquela cozinha escura, quente e sem janelas – se detectasse qualquer indício de judaísmo nela. (Bardugo, 2025, p. 11, grifos da autora)
O ladino é, então, uma boa representação da sensação de populações judaicas na diáspora: assim como a língua não é exatamente espanhol, Luzia – ainda que segunda geração de cristãos novos, que vai à missa todos os domingos e que não segue mais a religião de seus antepassados – nunca será espanhola, mas sim uma judia na Espanha. A possibilidade de viver naquele local pode lhe ser roubada por um mínimo olhar diferente.
Essa impossibilidade de pertencimento é construída por todo o livro. Luzia se torna famosa em Madrid por seus “milagritos”, mas não pode arriscar que escutem em que língua ela entoa seus cânticos. Ao longo da narrativa ela pode se tornar parte da corte do rei se ganhar um torneio, mas ela queria fazer parte de uma corte em que “[…] a usariam para reprimir rebeliões, assassinar hereges e índios e judeus e qualquer outro inimigo do Deus de Filipe [Filipe II]?” (Bardugo, 2025, p. 219). A sua relação com a Espanha e espanhóis é sempre de estrangeira, uma imigrante em seu país natal. Para Luzia, o ladino é tanto uma benção quanto uma maldição, pois ainda que ela comesse “[…] presunto de boa vontade e remenda[sse] vestidos após o pôr do sol no sabá […] sentia sua magia como um fio condenatório, atando-a ao passado e a todo judeu em toda sinagoga que ainda curvava a cabeça em prece” (Bardugo, 2025, p. 219). Luzia sente medo de sua própria língua e cultura, pois não quer perecer da mesma forma que seus pais e milhares outros judeus, cristãos novos ou qualquer um acusado de heresia ceifado pela Santa Inquisição e seus desdobramentos. Qual foi a sua surpresa quando essa língua imbuída de magia a salvou da fogueira.
Em seus últimos livros, em especial em O Familiar, Leigh Bardugo, então, traz o ladino para os olhos do grande público não apenas como uma língua esquecida, mas como uma possibilidade de conexão e retorno às raízes perdidas no tempo. Entrar em contato com a língua é entrar em contato com a história das pessoas que a falaram – e foram assassinadas por isso. A fala de um dos personagens de seu último livro resume bem a sua visão com relação ao ladino: “A língua cria possibilidades” (Bardugo, 2025, p. 91). O ladino pode não ser mágico como nos livros da autora, mas carrega a força de uma língua que, assim como seu povo, se desdobrou entre o hebraico, castelhano, turco e tantas outras línguas para manter sua cultura viva.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BARDUGO, Leigh. O familiar. Traduzido por Isadora Prospero. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025.
BARDUGO, Leigh. Nona Casa. Traduzido por Marina Della Valle. São Paulo: Planeta, 2020.
JUDEO-Spanish. Inalco. Disponível em: <https://www.inalco.fr/en/languages/judeo-spanish> Acesso em: 29 de outubro de 2025
LADINO made accessible. Ladino Uprising. Disponível em: <https://ladinouprising.wordpress.com> Acesso em: 29 de outubro de 2025
LADINO language. Britannica. Disponível em: <https://www.britannica.com/topic/Ladino-language> Acesso em: 29 de outubro de 2025
LADINO 101. The sephardic jews brotherhood of america. Disponível em: <https://www.sephardicbrotherhood.com/what-is-ladino> Acesso em: 29 de outubro de 2025
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