
‘É preciso resgatar a imaginação e colocá-la no centro’, diz multiartista Guilherme Boldrin, autor de ‘O Cuidado dos Sonhos’
Em entrevista para a revista O Odisseu, Guilherme Boldrin conta como trabalhou as referências entre cinema, música e prática da meditação para escrever O Cuidado dos Sonhos (Cachalote, 2024).
Fotos de: Lohanna Tanajura (Divulgação)
Assim que terminei de ler o primeiro conto do livro “O Cuidado dos Sonhos”, de Guilherme Boldrin, corri para as informações catalográficas para saber o ano da publicação. Estava na semana em que o Jabuti anunciou os finalistas e anteriormente o Prêmio Oceanos. Fiquei surpreso ao saber que o livro de 2024 estava apto a concorrer a esses prêmios e não entrou na lista. “Como passou?”, pensei. Os contos de Boldrin têm uma coisa de novidade: eles trazem para o contexto da literatura brasileira um absurdo bem próximo do que autores asiáticos, como Murakami e Han Kang, estão desenvolvendo. A atmosfera de mistério, de sonho, o medo do insólito que se manifesta em pequenos detalhes do cotidiano, são trabalhados de maneira muito original e envolvente. Foi como ler “Kafka à beira-mar” pela primeira vez novamente.
Como Guilherme conta na entrevista, essa magia não é algo que ele buscou externamente. As referências e a prática do misticismo na vida do autor convocam essa outra realidade para o texto. Bom, o autor vive na cidade mágica de Cachoeira, na Bahia (conhecida pelo seu axé e por ser uma cidade histórica para a independência do Brasil), tarólogo e praticante de meditação. A magia que vive, derrama no texto; o que não significa que não exista um trabalho literário consistente nos seus textos. O que ele tem feito é louvável. É difícil, no entanto, já que estamos falando de um contexto literário que se preza muito pelo realismo de denúncia. Nesse sentido, Guilherme tem ido na contramão do que o mercado pede, mas o que, de forma alguma, empobrece sua literatura. Na entrevista que você confere agora, o autor conta um pouco dos seus processos criativos e de suas referências.
‘Seria prático ser 100% escritor em um mundo no qual todo aconselhamento de carreira preza pela especialização’, diz Guilherme Boldrin, autor de ‘O cuidado dos sonhos’

Ewerton: Guilherme, seus contos abraçam o fantástico e o imaginário de forma bastante original. Aqui na latinoamérica temos essa coisa de sempre nomear como “realismo fantástico” qualquer texto que abarque o sonho e o surreal. Mas como você mesmo classificaria seus textos dentro dessa lógica de gênero (ou isso não te importa)?
Guilherme: Quando preciso definir e explicar para alguém o que fiz no Cuidado dos Sonhos, acabo falando sobre realismo mágico, termo que por algum motivo prefiro ao realismo fantástico. Não acho uma classificação ruim, já que ela me insere em uma tradição que amo muito, que é a dessa literatura latinoamericana que mistura o mito e a realidade consensual para falar sobre a vida.
Apesar disso, acho que o problema maior dessa expressão está justamente no lado do tal “realismo”. Digo isso porque acredito que a imaginação é um poder subestimado no nosso modo de pensar forçosamente ocidental. Uma das crenças que fundamentaram a criação dos contos de O Cuidado dos Sonhos é a de que é preciso resgatar a imaginação e colocá-la no centro. Imaginar é o mesmo que sonhar acordado, é estar em lugares e ver pessoas que não estão na sua frente. A literatura é, em si, um exercício delirante de imaginação. Universos invisíveis compartilhados de mente em mente e de voz em voz.
Não dá para simplesmente “dar de barato” a realidade. O tal do realismo é muitas vezes um modo de escrever que se insere no que consensualmente aprovamos como conhecimento, um status quo ordenado. Por isso, muitas vezes uma escrita funcional não é suficiente para dar conta de um mundo de gente que precisa se reinventar, de seres sonhantes e imaginantes, viajando no passado e no futuro com o poder da mente.
Precisamos respirar e retomar a imaginação é uma prática de descolonização, quando coloca em xeque o lugar comum da objetividade.
Ewerton: Alguns dos temas que são apresentados no livro, como a espiritualidade e o metafísico, são temas que são muito caros a você mesmo (pelo menos pelo o que eu conheço de você). Me conta um pouco como é esse processo de escrever, por exemplo, a partir das experiências de meditação e de outras vertentes do espiritualismo que você pratica.
Guilherme: Desde criança sempre tive uma noção muito experimental de espiritualidade e um grande interesse por tudo que girava ao redor do invisível e do místico. Como você sabe, sou tarólogo e praticante de meditação, mas no livro você também encontra referências às contradições do catolicismo popular, às folias de reis, à magia e ao ocultismo em certos pontos.
Esses temas me são caros por ajudarem a fundamentar o cenário sutil das histórias. Quando andamos pelas ruas, aqui em Cachoeira na Bahia, por exemplo, sentimos a presença do axé, dos terreiros de candomblé, das igrejas evangélicas, a vibração da ave maria com solo de guitarra que toca às 6 da tarde nas caixas de som pregadas nos postes e árvores da cidade. A espiritualidade está por todo lugar e ela vibra nas pessoas e, é claro, vibra também nas personagens dos meus contos, que muitas vezes anseiam por romper com seus bloqueios interiores e com as amarras de um mundo cão.
Além disso, as práticas espirituais e, especialmente, a meditação, ajudam a encontrar no corpo as sensações que são fundamentais para quebrarmos a dicotomia entre real e mágico: você deixa de ter um corpo organizado em órgãos e pedaços funcionais para virar um campo de luzes flamejantes, de calor, fluidez ou, quem sabe, para se transformar num pássaro.
Ewerton: Você é um artista em trânsito: pensando que trabalha o cinema, a fotografia, a música e outras formas de arte. Você acha que isso influencia na hora de escrever? Como?
Guilherme: Há muita Influência, tanto para bem quanto para mal. Para o mal, porque às vezes seria conveniente conseguir concentrar a energia criativa em apenas uma mídia, seria prático ser 100% escritor em um mundo no qual todo aconselhamento de carreira preza pela especialização. Para o bem, porque as artes se retroalimentam em minha sensibilidade que é muito faminta. Acabo vendo todos os meios como uma forma de expressar ideias e perspectivas de mundo complementares. Às vezes aquilo que já trabalhei com a câmera acaba fornecendo material para pensar a escrita… é sempre um modo de sentir a duração do tempo, registrar atmosferas, revelar contradições, moldar invisíveis. Já a música, é uma grande escola para tudo o que faço. Harmonizar os acordes, misturar temperamentos, canalizar ritmos. Tudo isso tem muito a ver com escrita, com tom, com atmosfera, com encantar os sentidos dos outros.
‘No Brasil, há uma valorização grande das histórias ditas realistas’, diz Guilherme Boldrin
Ewerton: Tenho conversado com alguns autores sobre como é difícil fazer uma ficção imaginativa atualmente quando, parece, a ficção contemporânea quer se aproximar ao máximo do real, associando esse realismo a uma crítica social. Para você, foi sempre óbvio escrever a partir do surreal?
Guilherme: Uma boa dose de surreal sempre me atraiu, assim como um certo absurdismo. Quando retomo meus textos mais antigos vejo que a questão do imaginário sempre foi presente. Desde que os descobri nas bibliotecas, sempre amei autores como Borges, Cortázar e Kafka. Apesar disso, não diria que escrevo “a partir do surreal”, mas que o surreal acaba sendo um veículo para transpor ideias emancipatórias ou para revelar aspectos ocultos. Talvez o conto mais puramente surreal do livro seja “O Cuidado dos Sonhos”, que dá título ao livro. Ali, tudo é imaginário. No entanto, tudo ali também é real, do mesmo modo que o voo que fazemos dentro dos sonhos é real, do mesmo modo em que acordamos em choque pensando “foi só um sonho”, mas nunca esquecemos da sensação de ter voado com belas asas a noite toda libertando nossa criança de todas as restrições disciplinares. Dizemos “foi tão real!”. Me diga, porque seguimos fazendo muros tão densos entre estados que se comunicam tão fluidamente em nossa vida?
Ewerton: Por outro lado, você também toca em temas muito sensíveis, como a loucura, a violência, o luto e problemáticas bem reais. Em que medida, fantasiar também serve para falar de questões da dita realidade?

Guilherme: Eu acho que uma da grande má compreensão é a de que a fantasia e, por consequência, a imaginação, seria meramente uma forma de escapismo, ou pior, “coisa de criança”. Como se “coisa de criança” fosse ruim. Inclusive, as magias de crianças são as mais efetivas e é preciso aprender com elas.
Talvez o estilo mais malogrado por conta da má compreensão da imaginação seja a ficção científica. Octávia Butler, por exemplo, quando fala de alienígenas, também fala sobre racismo, terrores de gênero, xenofobias, lideranças femininas e a construção de um senso de comunidade, bioengenharia e com certeza mais uma série de temas que não dei conta de perceber. Isso sem contar os exercícios imaginativos de Ursula K. LeGuin. “Os Despossuídos” talvez seja um dos maiores livros sobre a questão anarquia X estado que já foram escritos e ela faz isso pensando na relação entre dois planetas vizinhos em outra galáxia. Na América Latina, autoras atuais como Mariana Enriquez e Mônica Ojeda, tem usado o terror para trazer à tona faces muito reais das contradições e violências de uma realidade que nem sempre dá conta de ser transmitida meramente pela narração factual.
Tudo isso para dizer que usar métodos fantásticos para falar de questões da realidade consensual não é só uma prática conhecida, mas uma também muito eficiente. Trata-se, no final de contas, de um modo de tatear temas cabeludos, de criar metáforas que aproximam a mente daquilo que é implícito, elicitar intensidades, povoar pensamentos, libertar as ideias! Um bom exemplo é o cinema de Buñuel, que é um dos pais do surrealismo nessa mídia. Filmes como “O Fantasma da Liberdade” ou “O Discreto Charme da Burguesia” demonstram como o absurdo e o fantástico podem ser ácidas ferramentas de crítica social.
Ewerton: Você acha que falta para a ficção de hoje em dia um pouco mais de imaginação?
Guilherme: Acho difícil afirmar assim. Há, com certeza, muita imaginação povoando livros vivos e corajosos, o problema é esses livros se destacarem nas listas de influencers, nas prateleiras de livrarias e nas mãos dos leitores. No Brasil, há uma valorização grande das histórias ditas realistas no, vou chamar assim: “circuito literário oficial”, isso conta também para a onda de autoficção, que está super na moda. Então eu acho que não necessariamente falta imaginação, mas será que ela está na moda?
Ewerton: Alguns dos seus contos brincam e subvertem o gênero. São quase prosas poéticas, livres de seguir uma estrutura conhecida pelos leitores. É preciso bastante coragem para construir esses textos. Como foi, para você, encontrar essa liberdade?
Guilherme: Por muitos anos eu pratiquei escrita em fluxo. A ideia era escrever solto, para entrar em um modo alterado de consciência, às vezes perseguindo uma sensação, uma nostalgia ou memória. Quem escreve sabe o quão prazerosa pode ser uma imersão dessas. Acho que anos dessa prática me ajudaram a me libertar da estrutura pré-definida, talvez porque realmente ela saia a princípio do escopo das minhas preocupações e só retorna na hora da edição. Na hora da criação, vou seguindo um aroma que me leva pelas ruas, paisagens e sensações. São essas histórias que você diz, que subvertem o gênero, que me dão mais prazer na busca por um cheiro perdido. Para dizer que são contos, talvez a única medida que valha seja a surpresa. A sensação de estupefação, se por acaso algumas dessas prosas poéticas poderem encantar o leitor para longe das estruturas e entregar em troca um agrupamento perfumado de sensações, missão cumprida.
Ewerton: Seus contos me lembram a ficção imaginativa que vem sendo produzida por autores asiáticos contemporâneos, como Murakami e Han Kang. Quais são suas influências na escrita?
Guilherme: Murakami certamente foi uma das minhas influências mais fortes para a escrita desse livro. Especialmente o modo como ele constrói situações em espaços interstícios da cidade. Os poços, os terrenos baldios, as estações de trem. No meu livro tem muito disso, casas velhas, bosques, espaços que realmente são como frestas pelas quais se espia segredos. Murakami também traz os gatos e os encontros marcantes e inesperados que são marcas registradas de seu estilo. Eu entrei em contato com a literatura de Han Kang este ano e gostei muito de A Vegetariana. Acho que faz muito sentido que haja uma reverberação dessa literatura no que escrevo e talvez possamos pensar em uma linha que também nasce de Kafka, por exemplo, que é uma das minhas maiores influências e, acredito, também seja importante para Murakami e Han Kang.
Outras influências marcantes na minha literatura são os livros de Borges e Cortázar, que simplesmente exacerbam o que um conto pode fazer, “Ficções” e “Todos os Fogos o Fogo” são livros de cabeceira. Sempre gosto de citar a prosa de Hilda Hilst como influência, porque seu Fluxo-Floema foi um livro iniciático para o modo como penso o fluxo. Octávia Butler e Ursula LeGuin, supracitadas, foram essenciais para liberar meu pensamento. Bem como os contos de Conceição Evaristo, Lygia Fagundes Telles, Ignácio de Loyola Brandão e Clarice Lispector. Vale dizer que o araraquarense Ignácio de Loyola Brandão foi responsável pelo meu primeiro contato com a literatura surrealista, quando a sua coletânea “O Homem do Furo na Mão” caiu nas minhas mãos de adolescente.

Ewerton: E quais outras influências (na música, no cinema e afins) também chegam no seu texto?
Guilherme: Uma das minhas maiores influências é o cinema de Apichatpong Weerasethakul, um tailândes que talhou um jeito muito próprio de filmar o realismo mágico. O modo como o cinema dele naturalmente vai para o mundo espiritual, volta e mistura dos dois é simplesmente genial. Os filmes são repletos de sabedoria simples e uma velocidade que te muda a percepção por dias depois de assistir o filme.
Já a música, está envolvida em absolutamente tudo que faço. Inclusive, em um dos contos do livro, “A promessa que não se deve”, temos um álbum de Jazz espiritual como personagem central. No caso, Pharoah Sanders, o lendário saxofonista, em seu último álbum na vida, chamado “Promises”, em parceria do Floating Points, um artista de música eletrônica, e a orquestra sinfônica de Londres. Escrevo ouvindo muito os discos de Anouar Brahem, um músico franco-tunisiano, que toca Oud, um instrumento clássico da música árabe. É música de presença e de tempo profundo. Esse tipo de som do mundo, normalmente instrumental e misterioso, é o que costuma me acompanhar nas sessões de escrita.
Ewerton: Agora que o livro de contos já está no mundo, o que mais você pensa em escrever?
Guilherme: Já estou trabalhando em um novo volume de contos, um pouco mais longos, buscando novos horizontes com toques de humor e absurdismo, já que o primeiro acaba sendo bastante sério no tom. Estou gostando de equilibrar minha tendência ao sublime, temperando com graça e ironia. A tendência também é enxugar um pouco o surrealismo para aprofundar as tramas intersociais na dinâmica dos relacionamentos, entre pessoas e também entre pessoas e animais, pessoas e coisas, pessoas e práticas. Também tenho novas poesias e um volume ainda inédito delas, que estou na fase de curadoria. As ideias para romances, permanecem como uma esperança para o futuro.
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