
‘Torre de Babel’, um poema Carolina Grego Donadio
Imagem: Arte de Josse de Momper (1564-1635) – via WikiArts.
Torre de Babel
etimologicamente falando,
nossas línguas têm a mesma origem,
e, no entanto, você fala francês.
você também desconhece meu idioma,
história de ter estudado alemão.
e por isso pegamos emprestado uma língua
que não é nossa e que fingimos, com algum cinismo,
dominar. debruço-me sobre sua gramática, decoro seu vocabulário,
você me explica como os heterossemânticos produzem ruídos na comunicação.
e com o tempo começo timidamente a dizer frases simples
como eu gosto de você.
você ri do meu tom solene,
como quem emprestou a frase de um livro de literatura.
nesse idioma moderno e precário que usamos, você me convida
to have a ride, baby
e eu entro no carro sem me preocupar
que você não tem carta e que eu não sei dirigir.
mas o som e a prosódia da sua voz me fazem
sentir saudades do conforto dessa casa onde não vivi.
e eu aceito, porque você me assegura que vai devagar.
na estrada, as placas têm contornos plásticos,
as indicações estão nessa língua que não entendemos,
e imprimo eu mesma os significados desses letreiros
make me travel and i offer you peace.
você se diverte e arrisca meio na minha língua, meio na sua aonde
você poderia me levar?
ao som das músicas que você me apresenta
eu adormeço ao seu lado, despreocupada.
e de repente você pisa no freio,
mas não vejo o que atravessou o nosso caminho.
a estrada é mesmo cheia de surpresas.
what happened, pergunto,
mas você está me falando em uma língua que
não entendo,
porque não é a nossa.
mene, mene, tekel u-pharsin.

Carolina Grego Donadio é poeta, tradutora e revisora. Paulistana de nascença, cresceu no interior do estado e voltou para a capital, em 2007. É graduada em Letras pela USP e Mestre pela Universidade Paris-Sorbonne. Os poemas “Torre de Babel” e “Clément Rosset” integram o poemário narrativo Hellas: Geografia greco-sáfica, sobre os limites da linguagem no encontro entre duas mulheres.
