
Prefácio do livro ‘As ruas sem nome’, de Tieko Irii
Leia com exclusividade o prefácio do livro ‘As ruas sem nome’ (Editora Patuá, 2025), da escritora e artista visual nipo-brasileira Tieko Irii, escrito pelo Prof. Dr. Victor Hugo Kebbe.
Foto de @nilton.fukada (Divulgação).
Pensar sobre identidade, ainda mais identidade em contexto diaspórico, não é fácil. Porém, mais difícil ainda é refletir sobre identidade cuja diáspora é atravessada também por processos de racialização complexos. Essa é a realidade de quase dois milhões e meio de pessoas que vivem no Brasil, sendo elas descendentes de japonesas e japoneses e que precisam a cada dia pensar – e pesar – como navegar no tecido social brasileiro. Muitos são os preconceitos envolvendo uma diáspora que se iniciou em 1908, ainda mais num país cujo processo de racialização exclui ou torna estrangeira e estrangeiro todas as pessoas que não são consideradas – no contexto brasileiro – como brancas, negras ou indígenas.
Esse tem sido o debate de várias pesquisadoras e pesquisadores no Brasil, no Japão e em outros países, interessados em compreender um pouco mais sobre a experiência de ser “japonesa” e “japonês” neste país. Além de pesquisas na Sociologia, Antropologia, Relações Internacionais e Direito, temos também uma infinidade de textos e memórias redigidas pelos protagonistas de toda essa aventura.
Vários foram os imigrantes homens que se debruçaram sobre como contar essa história, revelando os desafios, as agruras e as conquistas em viver em solo brasileiro, em sua grande maioria revelando uma epopeia que cruza oceanos. Porém, e como a leitora ou o leitor já deve ter percebido, são narrativas contadas por homens.
Este livro que você, leitora ou leitor, tem em mãos é uma história diferente. Nas próximas páginas você vai se deparar com uma aventura contada por duas pessoas, a filha e o pai, sobre a diáspora envolvendo Brasil e Japão. Contudo, atente-se: é uma história contada majoritariamente pelos olhos de uma mulher. É um texto bastante envolvente sobre duas pessoas que foram atravessadas pelo deslocamento, uma – o pai –, vindo ao Brasil, e outra – a filha –, indo ao Japão. É nesse cruzamento dessas duas trajetórias que conheceremos a família de Tieko, um lar habitado não apenas por pessoas, mas por sonhos, expectativas, frustrações e os enfrentamentos diante dos desafios apresentados pela vida.
Embora não seja o objetivo deste livro, o texto que você tem em mãos também é um alento para a própria historiografia da diáspora japonesa para o Brasil. Enquanto a grande maioria dos livros e textos memorialistas e acadêmicos optaram pela omissão deliberada da jornada feminina nesta diáspora, temos aqui uma história contada por uma mulher que, posteriormente, olha para a trajetória do pai e reflete sobre a própria vida.
Conheci Tieko em uma de minhas aulas, afoita por querer entender um pouco mais sobre a diáspora japonesa e seus efeitos no Brasil. Aprendi ao longo dos anos, respondendo às suas perguntas e inquietações, que Tieko queria entender um pouco mais sobre sua própria trajetória e como ela se percebia nesse país. Fico feliz e sou muito grato, como professor, por ter podido conhecer o começo dessa história fascinante que ainda continua a se desenrolar a cada dia que passa. Estou ansioso pelos próximos capítulos dessa jornada.
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As ruas sem nome, de Tieko Irii
Editora Patuá, 2025
428 pp.
Victor Hugo Kebbe – Prof. Dr. em Antropologia Social e Estudos Japoneses

