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Dionne Brand e Christina Sharpe: Duas intelectuais negras que você deveria conhecer

Agora em Novembro, Dionne Brand e Christina Sharpe estarão na FLUP (Rio de Janeiro – RJ) para uma mesa chamada “Onde a vida não seja apenas possível” e, se você não conhece as autoras, deveria tratar de conhecer.

Fotos: À esquerda, Dionne Brand (foto de Clea Christakos-Gee). À direita, Christina Sharpe (foto de Wendy D Photography).

Texto de Lourdes Modesto.


Dionne Brand é uma autora caribenha-canadense, que nasceu em Trinidad e Tobago e migrou para o Canadá durante a juventude. Seu primeiro livro a ser traduzido para a língua portuguesa foi “Um mapa para a porta do não retorno”, que saiu pela A Bolha editora em 2022, com tradução de Jess Oliveira e floresta e apresentação de tatiana nascimento. O livro em questão, originalmente lançado em 2001, lança o conceito da “Porta do Não Retorno” para investigar a questão da fratura temporal criada pela violência da Diáspora de pessoas negras que foram sequestradas de África durante o processo de escravização que fez parte da fundação das Américas. Na obra, a autora parte de um momento da sua infância em que pediu ao seu avô para lhe dizer de que povo africano eles descendiam e o avô não conseguiu lembrar para iniciar um redemoinho narrativo de ensaios sobre migração, diáspora, pertencimento, raça, classe, gênero e criatividade.

Em 2023, a editora Bazar do Tempo trouxe mais dois livros da autora para o Brasil: “Pão tirado de Pedra” e “Nenhuma Língua é Neutra”, ambos traduzidos por Lubi Prates e Jade Medeiros. O primeiro, originalmente publicado em 1994, é composto de ensaios que tratam, como dito no subtítulo, de raça, sexo, sonho e política. Os textos deste livro discorrem sobre a cidade, a criatividade, o mundo do trabalho e da arte podem afetar o corpo de uma mulher negra e lésbica. O segundo, originalmente publicado em 1990, é um livro de poemas que reflete sobre linguagem e corporeidade e traz imagens de amor entre mulheres, do mar e construções da e para a memória sobre esses temas. Até este ano, estes eram os únicos livros da autora disponíveis em língua portuguesa, mas agora a Zahar traz “Salvage”(2024) que foi traduzido por floresta como “Salvamento”.

A escritora Dionne Brand (foto: reprodução).
A escritora Christina Sharpe (foto: reprodução)

Christina Sharpe, por sua vez, é uma autora norte-americana da Pensilvânia. Temos dois livros dela traduzidos para o português. O primeiro livro traduzido foi “No Vestígio”, publicado pela Ubu, em 2023, com tradução de Jess Oliveira. Neste livro, originalmente lançado em 2016, a autora funda o conceito de Vestígio/Vigília (Wake, no original). Sharpe fala sobre a necessidade de reagir hoje com trabalho, cuidado e atenção à violência racista que foi criada na época da escravização e comércio de pessoas como bens móveis. A autora traça uma linha que vai desde a experiência da sua família com a violência, a morte e à vigília dos velórios para elaborar possibilidades de análise e atenção para o racismo cotidiano.

O segundo livro de Sharpe, que chegou ao Brasil em 2023, veio pela editora Fósforo. A editora lançou um trecho da tradução chamada “Algumas notas do dia a dia” num livro de bolso na FLIP do mesmo ano e, posteriormente, o livro “Notas Ordinárias” (2024), com tradução de Jess Oliveira. O livro conta com um conjunto de notas numeradas, divididas em oito partes e traz reflexões sobre memória, aproximações e distanciamentos entre memória pessoal e a memória que é preservada nos museus, principalmente quando se fala de violência racista. A autora também fala da Beleza como Método e reflete sobre possibilidades de sobrevivência e construção coletiva no mundo contemporâneo.

A presença das duas autoras no Brasil, se relaciona a dois acontecimentos importantes: o lançamento do livro “Salvamento” e a mesa “Onde a vida não seja apenas possível”, na Feira Literária das Periferias, a FLUP. A mesa acontecerá no bairro de Madureira no Rio de Janeiro, dia 29 de novembro e terá mediação de Bia Ferreira. No site da FLUP temos a descrição da discussão:

O que significa estar “no rastro” da história? Nesta conversa poderosa, Christina Sharpe, com seu conceito de “wake” (que é rastro, vigília e esteira de navio) e Dionne Brand, com sua poesia que recusa o mundo como ele é, nos guiam por uma reflexão urgente. Elas partem da memória diaspórica para pensar as formas de violência e apagamento que persistem, mas também as possibilidades radicais de se viver de outro jeito. Ao conectar esse pensamento com a realidade brasileira, a mesa vira uma oficina de futuros. Elas não só analisam o presente, mas nos equipam para sonhar e construir futuros negros onde a vida não seja apenas possível, mas floresça com justiça e beleza.

Dionne Brand e Christina Sharpe estarão na FLUP 2025

O que se espera da mesa é uma discussão a respeito da construção de um futuro em que a dignidade, a esperança e a alegria sejam a realidade da comunidade negra do Brasil e do mundo, e não apenas uma possibilidade rara. Esta construção de futuro é ainda mais relevante frente à violência que o estado impõe à comunidade negra no Brasil, com o uso de policiamento e a complicação estrutural no processo de obter direitos básicos.

O livro “Salvamento” (Zahar, 2025) de Dionne Brand, com tradução de floresta, discute a colonialidade presente nas narrativas. Brand reflete a relação com os livros a partir da experiência de leitora e reflete: como os livros clássicos de língua inglesa influenciaram sua relação com o mundo? Brand discute como uma literatura que representa a experiência do homem branco europeu como a experiência universal pode ser uma tragédia na vida de leitores negros, como o naufrágio de um navio. Ao mesmo tempo, Brand fala sobre como a literatura negra pode trazer perspectivas e mapas para esses leitores, um Salvamento do que esteve no navio.

Lélia Gonzalez, no seu texto “A categoria político-cultural de amefricanidade” nos ensina que embora haja diferenças entre as formações sociopolíticas entre os povos negros Sul-Americanos e Norte-Americanos, há também a possibilidade de propor uma consciência comum de negritude das Américas. Esta consciência, que ultrapassa a linguagem racista e designa à todos aqueles que descendem de africanos e dos movimentos da Diáspora, segundo Gonzalez, é a “Amefricanidade”. Ela explica que o “termo nos permite ultrapassar as limitações de caráter territorial, linguístico e ideológico, abrindo novas perspectivas para um entendimento mais profundo dessa parte do mundo onde ela se manifesta: A AMÉRICA como um todo (Sul, Central, Norte e Insular)” (Gonzalez, 2020, p. 134-135).

A Amefricanidade é uma categoria também composta pelos povos originários das Américas. Nas palavras de Gonzalez, o valor metodológico da categoria: está no fato de permitir a possibilidade de resgatar uma unidade específica, historicamente forjada no interior de diferentes sociedades que se formaram numa determinada parte do mundo…. Por conseguinte, o termo amefricanas/amefricanos designa toda uma descendência: não só a dos africanos trazidos pelo tráfico negreiro como a daqueles que chegaram à AMÉRICA muito antes de Colombo. (Gonzalez, 2020, p. 135).

Pensar na comunidade Amefricana, como Lélia Gonzalez nos ensina, aproxima o povo negro como uma consciência que pode e deve trabalhar e construir junta. Este raciocínio fortalece a ideia de conhecer a produção intelectual de Brand e Sharpe para encontrar ferramentas para criar o mundo em que a vida seja mais que uma possibilidade, mas uma realidade feliz e frutífera. O pensamento das intelectuais negras contemporâneas fazem parte do que foi salvo do naufrágio humanitário que foram os anos de escravização e que é hoje, com a insistência violenta do racismo. Cabe a nós cuidar e atentar ao que resistiu para que também possamos resistir.

Salvamento: Leituras do naufrágio, de Dionne Brand
Zahar, 2025
Tradução de floresta
248 pp.

Lourdes Modesto é professora de Língua Inglesa no Estado da Bahia (SEC-BA), Mestre e Doutoranda em Literatura e Cultura na UFBA. Publicou o livro de Ensino de Língua Inglesa “Novas Práticas para o Ensino Médio – Inglês” pela Editora do Brasil, com coautoria de Senaria Santana. O livro foi contemplado pelo PNLD e está disponível na Amazon. Revisou o livro “Nenhuma Língua é Neutra” de Dionne Brand (Bazar do Tempo, 2023).