Ensaio

A ferida aberta em Canudos – e a origem do termo favela

Essa etimologia mais do que um dado histórico, é um espelho da tragédia enfrentada pelo nosso povo e que decorre das próprias contradições estruturais que moldaram o nosso país (e, diga-se desde logo, até hoje persistem).

Foto de Flávio de Barros/ Acervo Instituto Moreira Salles/ © Museu da República.


A origem do termo “favela” guarda profunda simbologia com as dilacerações e contradições de nossa tumultuada história. Uma origem que, como resgata Ariano Suassuna, está ligada à própria ferida aberta de Canudos e ao povo sertanejo que ali foi massacrado. Em seu ensaio A Favela e o Arraial, Suassuna lembra que a palavra favela designava, antes de tudo, uma planta típica da caatinga, comum nos morros pedregosos do sertão. A propósito, foi no também “Morro da Favela”, em Canudos, que se instalou o grosso da artilharia que atirava contra o arraial de Antônio Conselheiro. Mais tarde, esses soldados pobres (postos ali para massacrar outros pobres como eles), ao retornarem para o Rio de Janeiro e não tendo recebido os soldos prometidos, passaram a ocupar os morros e barrancos da cidade, e justamente pela memória que guardavam do morro de Canudos, passaram a nomear favela qualquer casaria paupérrima situada no dorso dos morros.

Essa etimologia, no entanto, mais do que um dado histórico, é um espelho da tragédia enfrentada pelo nosso povo e que decorre das próprias contradições estruturais que moldaram o nosso país (e, diga-se desde logo, até hoje persistem). A favela urbana e o arraial sertanejo, como afirma Suassuna, são as duas faces de um mesmo Brasil — o Brasil real, profundo, o Brasil dos excluídos, dos explorados e opromidos; Brasil do nosso povo pobre, negro, indígena e mestiço, que vive e resiste à margem do “Brasil oficial”, “caricato e burlesco”, na melhor expressão de Machado de Assis. O que há, portanto, é uma linha de continuidade, uma espécie de retorno trágico: o mesmo povo que foi bombardeado em Canudos é, hoje, o povo alvejado nas favelas. Afinal, como nos lembra Suassuna em Canudos, Nós e o Mundo, “quando, numa grande cidade, a polícia invade uma favela ou destrói uma ‘invasão’, são outros tantos dos nossos inumeráveis ‘arraiais de Canudos’ pertencentes ao Brasil real que estão sendo destruídos e assolados pelo país oficial, que, para isso, consegue recrutar, a seu serviço, outros pobres integrantes do Brasil real”.

Essa oposição que demarca, por sua vez, diferentes visões de justiça, a “(in)justiça dos poderosos” e a justa causa do nosso povo por reconhecimento e dignidade, é o nó que une as duas realidades, “o agregado e o operário”, como nos versos de Patativa do Assaré: “Vão no mesmo itinerário, sofrendo a mesma opressão, nas cidades, o operário e o camponês no sertão, embora um do outro ausente, o que um sente o outro sente, se queimam na mesma brasa e vivem na mesma Guerra, os agregados sem terra e os operários sem casa”.

Compreender, pois, a origem da favela, com toda a simbologia que esse nome carrega, com toda dor e todo sangue, é compreender a permanência da injustiça, mas também as formas de resistência. É reconhecer que, se o sertão de Canudos foi destruído em nome da ordem republicana, hoje as periferias são silenciadas em nome da segurança pública; que a cabeça do “Brasil real” foi cortada ontem pelos canhões e continua sendo hoje pelo descaso, pelo racismo e pela exclusão. Por isso a nossa tarefa é a de manter viva a chama de Canudos, a do braseiro que queimou e que ainda hoje queima nessa ferida aberta da favela no coração do Brasil.

A tragédia retorna, mas com ela também retorna a esperança: a certeza de que o “Brasil real”, esse que vive e canta sua alegria e desolação, continua sendo a “rocha-viva da nacionalidade” e há de vencer no final. “Uns com os outros se entendendo, esclarecendo as razões, e todos juntos fazendo suas reivindicações, por uma democracia de direito e garantia, lutando de mais a mais, são estes os belos planos, pois nos direitos humanos nós todos somos iguais”, eis o clamor derradeiro do poeta sertanejo.

Leia Também: O gado vai sempre ao poço: 50 anos de ‘Lavoura Arcaica’