Poesia

Alguns poemas de Carlos Drummond de Andrade por alguns poetas brasileiros

A convite da revista O Odisseu, poetas brasileiros contemporâneos indicam seus poemas preferidos de Carlos Drummond de Andrade em celebração ao aniversário do Poeta e ao Dia Nacional da Poesia.

Foto de capa: Carlos Drummond de Andrade na Biblioteca Euclides da Cunha, c.1959. Foto de Marcel Gautherot / Acervo IMS (reprodução).


Aqui no Brasil, nós temos alguns dias para celebrar a poesia nacional. Por exemplo, tivemos recentemente o Dia Nacional do Poeta, celebrado no dia 20 de outubro em referência à data da criação do Movimento Poético Nacional, do poeta modernista brasileiro Paulo Menoti Del Picchia. Anteriormente, já se celebrou também o Dia Nacional da Poesia no dia 14 de março, em homenagem ao poeta baiano Castro Alves.

É a partir de 2015, no governo da presidenta Dilma Rousseff que passamos a celebrar o Dia Nacional da Poesia em 31 de outubro, pois é a data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade, conforme estabelecido pela Lei 13.131 de 3 de junho de 2015.

Carlos Drummond de Andrade: a poesia em si

Reconhecido amplamente como o maior poeta brasileiro de todos os tempos, Carlos Drummond de Andrade foi uma das grandes vozes poéticas em língua portuguesa do século XX. Sua produção de décadas incluem centenas de poemas. Publicou seu primeiro livro, “Alguma Poesia”, em 1930 com financiamento próprio e com apenas 500 exemplares. Os livros seguintes tiveram tiragens menores ainda. Um de seus grandes livros, “Sentimento do Mundo”, obra que retrata as agonias do homem moderno no entreguerras, teve uma tiragem de apenas 150 exemplares. Em 1987, já consagrado como o maior poeta brasileiro vivo, Drummond foi homenageado com um desfile de carnaval pela Estação Primeira de Mangueira. Naquele momento, no entanto, o poeta enfrentava uma grande tristeza porque sua única filha, Maria Julieta, estava doente e acabaria morrendo naquele mesmo ano. Em seus versos livres, com linguagem direta, mas precisa e sofisticada, Drummond tem a sua poesia como um marco da literatura modernista, mas iria para muito além desse rótulo. Hoje, para celebrar o Dia Nacional da Poesia e o aniversário do grande mestre, convidei alguns poetas brasileiros para indicar poemas de Drummond. Confira!

Poetas brasileiros escolhem poemas de Carlos Drummond de Andrade

Claudia Roquette-Pinto indica ‘Campo de Flores’ (presente no livro ‘Claro Enigma’, de 1951): “Por causa (entre outras coisas) dos versos ‘onde não há jardim, as flores nascem de um/secreto investimento em formas improváveis’ (que são o mote da minha vida). Eu sempre aposto no ‘azarão’, sempre acredito no florescer de uma beleza (ou potência) de dentro daquilo que o mundo decreta como improvável.

Confira o poema:

“Campo de Flores”, de Carlos Drummond de Andrade

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus – ou foi talvez o Diabo – deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.

Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.

Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer um vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.

E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo rriais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visáo extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

Ricardo Domeneck indica ‘Estâncias’ (presente no livro ‘Novos Poemas’, de 1948): “Porque hoje mesmo, às 5 da manhã, um amigo telefonou desesperado – porque a namorado o havia abandonado, e eu consegui acalmá-lo com os versos finais: ‘e quantos desse mal um dia (estão mortos) soluçaram,/habitam nosso corpo reunido e soluçam conosco'”.

Confira o poema:

Estâncias, de Carlos Drummond de Andrade

Amor? Amar? Vozes que ouvi, já não me lembra
onde: talvez entre grades solenes, num calcinado e pungitivo lugar [que
regamos de fúria, êxtase, adoração, temor. Talvez no mínimo
território acuado entre a espuma e o gnaisse, onde respira — [mas
que assustada! — uma criança apenas. E que presságios de seus
cabelos se desenrolam! Sim, ouvi de amor, em hora infinda, se
bem que sepultada na mais rangente areia que os pés pisam,
pisam, e por sua vez — é lei — desaparecem.
E ouvi de amar, como de um dom a poucos ofertado; ou de um [crime.


De novo essas vozes, peço-te. Escande-as em tom sóbrio, ou senão
grita-as à face dos homens; desata os petrificados; aturde os
caules no ato de crescer; repete: amor, amar.
O ar se crispa, de ouvi-las; e para além do tempo ressoam, remos de
ouro batendo a água transfigurada; correntes tombam. Em [nós
ressurge o antigo; o novo; o que de nada extrai forma de vida; [e
não de confiança, de desassossego se nutre.
Eis que a posse abolida na de hoje se reflete, e confundem-se, e
quantos desse mal um dia (estão mortos) soluçaram, habitam
nosso corpo reunido e soluçam conosco.

Lilian Sais indica “Elegia 1938” (presente no livro ‘Sentimento do Mundo’, de 1940): “Em outro contexto, eu teria escolhido o poema ‘Liquidação’, porque ele me toca em um lugar muito pessoal e cheguei a considerá-lo como epígrafe de um livro meu. Mas o poema que não sai da minha cabeça nesses últimos dias é ‘Elegia 1938’. Tenho carinho por esse poema por ter sido um dos primeiros que eu li do Drummond, na juventude. Ele me acompanhou durante o luto coletivo da pandemia, por trazer esse sentimento gigantesco de impotência combinado à ansiedade da ação. Diante da chacina que aconteceu há poucos dias no Rio de Janeiro, lembrei-me novamente dele.

Confira o poema:

Elegia 1938, de Carlos Drummond de Andrade

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Ana Maria Vasconcelos indica ‘Um boi vê os homens’ (do livro ‘Claro Enigma’, de 1951): “Um poema monumental! Ao deslocar o ser humano de sujeito para a posição de objeto, o poeta nos ensina um quinhão de humildade. É com tom quase piedoso que os bois pensam a nossa pequenez e crueldade, surpreendendo-se: ‘e como neles há pouca montanha’. Um dos meus preferidos do Drummond.

Confira o poema!

Um boi vê os homens’, de Carlos Drummond de Andrade

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente, falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos — e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Marcelo Ariel indica ‘Sonho de um sonho’ (presente no livro ‘Claro Enigma’, de 1951): “Poema que chegou até mim através do samba homônimo de Martinho da Vila que foi enredo da Unidos da Vila Isabel em 1980, essa verdadeira parceria entre Drummond e Martinho da Vila intensifica profundas ligações de imanência entre dimensões culturais que se iluminam mutuamente quando se encontram“.

Confira o poema:

‘Sonho de um sonho’, de Carlos Drummond de Andrade

Sonhei que estava sonhando
e que no meu sonho havia
um outro sonho esculpido.
Os três sonhos superpostos
dir-se-iam apenas elos
de uma infindável cadeia
de mitos organizados
em derredor de um pobre eu.
Eu que, mal de mim! sonhava.

Sonhava que no meu sonho
retinha uma zona lúcida
para concretar o fluido
como abstrair o maciço.
Sonhava que estava alerta,
e mais do que alerta, lúdico,
e receptivo, e magnético,
e em torno a mim se dispunham
possibilidades claras,
e, plástico, o ouro do tempo
vinha cingir-me e dourar-me
para todo o sempre, para
um sempre que ambicionava
mas de todo o ser temia…
Ai de mim! que mal sonhava.

Sonhei que os entes cativos
dessa livre disciplina
plenamente floresciam
permutando no universo
uma dileta substância
e um desejo apaziguado
de ser um com ser milhares,
pois o centro era eu de tudo,
como era cada um dos raios
desfechados para longe,
alcançando além da terra
ignota região lunar,
na perturbadora rota
que antigos não palmilharam
mas ficou traçada em branco
nos mais velhos portulanos
e no pó dos marinheiros
afogados em mar alto.

Sonhei que meu sonho vinha
como a realidade mesma.
Sonhei que o sonho se forma
não do que desejaríamos
ou de quanto silenciamos
em meio a ervas crescidas,
mas do que vigia e fulge
em cada ardente palavra
proferida sem malícia,
aberta como uma flor
se entreabre: radiosamente.

Sonhei que o sonho existia
não dentro, fora de nós,
e era tocá-lo e colhê-lo,
e sem demora sorvê-lo,
gastá-lo sem vão receio
de que um dia se gastara.
Sonhei certo espelho límpido
com a propriedade mágica
de refletir o melhor,
sem azedume ou frieza
por tudo que fosse obscuro,
mas antes o iluminando,
mansamente o convertendo
em fonte mesma de luz.
Obscuridade! Cansaço!
Oclusão de formas meigas!
Ó terra sobre diamantes!
Já vos libertais, sementes,
germinando à superfície
deste solo resgatado!

Sonhava, ai de mim, sonhando
que não sonhara… Mas via
na treva em frente a meu sonho,
nas paredes degradadas,
na fumaça, na impostura,
no riso mau, na inclemência,
na fúria contra os tranquilos,
na estreita clausura física,
no desamor à verdade,
na ausência de todo amor,
eu via, ai de mim, sentia
que o sonho era sonho, e falso.

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