Entrevistas

ENTREVISTA AFETIVA #02 Rita de Podestá entrevista Lara Haje, ou eu disse que você era escritora

Eu não disse é um livro que destrincha o silêncio trazendo à tona as tragédias pessoais das personagens assim como a forma que cada uma encontra de recuperar o diálogo possível.

Imagem de capa: Reprodução

A Lara é minha prima de primeiro grau e quando eu era pequena, achava que seu nome era Arara. Talvez quando diziam a Lara, eu ouvia o nome da ave, ou tem algo a ver com o papagaio, parente da arara, que tinha na casa dos meus tios em Brasília. O problema é que eu não conseguia pronunciar arara, e isso tornava bem difícil para mim falar o nome daquela prima mais velha pela qual eu tinha um certo fascínio. Devo ter ficado aliviada quando entendi que seu nome era Lara: curto, bonito e fácil de pronunciar.

Resgatada a lembrança, resolvo pesquisar sobre o nome Lara e descubro que a etimologia popular liga o nome a Mutina, epíteto da ninfa Lara, (também conhecida como Tácita) que, com o perdão do resumo, tem sua língua cortada por Júpiter após revelar suas infidelidades, se tornando assim, a deusa do silêncio.

Se é caso de sincronicidade ou mania de escritor que adora encontrar coincidências, não sei. Acontece que a Lara (Haje, não a ninfa) lançou seu primeiro livro, cujo título é: Eu não disse. O que sei é que esse livro de contos – que pode e deve ser lido como um romance – tem como um dos protagonistas, o silêncio. Seja de alguém que se calou, alguém que foi calado e agora diz, alguém que tem dúvidas se realmente disse, ou até os silêncios sobre o quais poucos têm coragem de debruçar.

Eu não disse é um livro que destrincha o silêncio trazendo à tona as tragédias pessoais das personagens assim como a forma que cada uma encontra de recuperar o diálogo possível. Tudo isso, por meio de uma linguagem muitas vezes violenta e direta – resultado do grito liberto de quem se calou por muito tempo.

Um livro corajoso e necessário, que mostra como a ficção é o lugar certo para não dizer, dizendo (ou o contrário). O que me leva a adiantar minha resposta à pergunta que ela me fez ao final da entrevista a seguir. Sim, um livro pode ser o resultado de um acúmulo, de uma história remoída por tempo demais, um fato que nos obceca até o ponto de cometermos a loucura (ou a violência) de transformá-lo em literatura. O que me leva à famosa máxima “escrevi para não matar”: muito mais elegante do que cometer um homicídio doloso.

Por fim, ao final do livro, a Lara me agradece por ter sido eu a primeira pessoa a dizer que ela é uma escritora. Acontece que a Lara já era escritora, ela apenas estava em silêncio.


Lara Haje é jornalista e mestre em Políticas de Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), trabalha como repórter na agência de notícias da Câmara dos Deputados. Co-autora do livro Paúra um mergulho na síndrome do pânico (2018). Ficou em 5º lugar no Prêmio Off Flip 2023 na categoria crônica, com “Tijolos de isopor”, e uma das 15 finalistas do III Prêmio Anna Maria Martins (2023), da União Brasileira de Escritores, com o conto “Merda, em árabe”, além de uma das autoras classificadas do II Concurso Literário Philos Mulher 2024, com o conto “Como se sobrevive a uma coisa dessas”. Eu não disse (Cachalote, 2024) é seu primeiro livro de ficção.


Comecemos pelo livro

Rita: Eu não disse pode ser uma afirmativa, uma apreensão e até uma dúvida (se considerarmos que na literatura perguntas podem vir sem interrogação). Você acha que a literatura é uma forma de abarcar tudo isso: o que não foi dito, o que deveria ser dito e o que não se sabe dizer?

Lara: Para mim, foi sobretudo uma exploração do que eu não sabia dizer. Escrevi a partir do que eu mesma não entendia, o que era um mistério pra mim mesma, e escrevi, acho, para explorar esses enigmas, e um dos enigmas era próprio o não dizer, o silenciamento feminino sobre dores, violências, dramas familiares. Foi depois de explorar o que eu não sabia dizer que acabei dizendo coisas que eu acho que deveriam, sim, ser ditas. As tragédias familiares, tão silenciadas e engolidas pelas mulheres há tanto tempo, devem ser ditas, acho que a gente deve debater temas controversos como o suicídio, o adoecimento mental, o vício, a violência, e a literatura é uma forma disso acontecer. Mas não como objetivo  – no sentido de estou escrevendo para passar uma mensagem  –, mas como consequência de uma exploração de um mistério, de angústias, por meio das palavras. Para passar uma mensagem, já temos outros meios, como os jornalísticos, as redes sociais

Eu não disse
Lara Haje
Editora Cachalote, 2024
107 pp.

Rita: Seu livro é um livro de contos, mas pode (e eu diria que deve) ser lido como um romance. Como você o enxerga agora que tem o distanciamento inevitável autora-obra.

Lara: Eu escrevi contos soltos, e foi a partir de uma leitura crítica da escritora Carla Kinzo, que enxergou uma ligação entre os contos, que eu construí essa espinha dorsal que transformou o texto nesse misto de livro de contos e romance. Como eu sou uma escritora iniciante, embora jornalista experiente, talvez eu não tenha inicialmente tido a ousadia de me arriscar a dizer que era um romance não-linear feito de fragmentos (embora tenha me arriscado a fazê-lo), mas hoje é muito mais assim que o enxergo, e acho que a experiência do leitor é mais rica assim também.

Rita: O que é foi mais desafiador no processo de escrita desse livro: escrever ou editar?

Lara: Escrever, definitivamente. Acho que existem livros que os escritores escrevem se divertindo com o processo e livros que se escreve chorando. Eu ouvi o escritor Alexandre Vidal Porto falar isso numa entrevista, que escreveu Cloro chorando e Sodomita se divertindo. Eu não disse foi escrito, em grande parte, com minhas vísceras na madrugada, a partir de um desamparo, uma solidão e também uma espécie de transe que talvez só os insones conheçam. Já a edição foi um processo diurno, racional e sóbrio, bem menos sofrido, porque o indigesto em mim já tinha se transformado em outra coisa, em palavras, em um projeto de livro. O que foi mais desafiador, na edição, foi o risco de assumir um caráter mais autobiográfico que o livro de fato tinha, ao nomear os títulos dos contos como Filho, Filha, Esposa. Os títulos desses contos (ou capítulos ou fragmentos) eram outros, mas a partir da sugestão da Carla Kinzo mudei os títulos para que o livro ganhasse mais unidade. Fiz a mudança porque o livro ficaria melhor, mas foi desafiador em termos pessoais.

Rita: Seu livro é coescrito com outros autores se pensarmos que as epígrafes têm uma função muito importante na narrativa, preparando ou desafiando o leitor diante do que vem a seguir. Dito isso, a pergunta é: com quem você tem escrito?

Lara: Acho muito interessante como, quando a gente está escrevendo um livro, parece que tudo que a gente lê, assiste de bom, converge para o livro, dialoga com o livro, e foi assim com Eu não disse. Vários livros que me caíram nas mãos nessa época de escrita abordam direta ou indiretamente o tema suicídio: Não fossem as sílabas de Sábado, da Mariana Salomão Carrara; A mais recôndita memória dos homens, do Mohammed Sarr;  O perigo de estar lúcida, da Rosa Montero, que pareciam falar do tema muito melhor do que eu poderia, e eu quis incorporar essa contribuição deles à minha investigação. E depois o tema do silenciamento das mulheres sobre tragédias e dramas familiares me pegou, e mergulhei nisso com Tatiana Salem Levy, com Melhor não contar, título que tem relação com o do meu livro, assim como Sobre o que não falamos, da Ana Cristina Braga Martes. A franqueza e a crueza da Elvira Vigna me acompanharam e me influenciaram, e retornei à Lygia Fagundes Telles, com seu trabalho primoroso de narradoras múltiplas em As meninas, assim como à Clarice Lispector, com Água viva, que tem muita reflexão sobre o próprio processo de escrever, de uma insone como eu.

Rita: Falando em pergunta, quando você escreve, qual é a pergunta atual, ou as perguntas, que tem te levado a escrever?

Lara: Em Eu não disse talvez a minha principal pergunta – mas que eu só entendo agora, porque foi a própria escrita, as próprias palavras, que foram me revelando a pergunta – tenha sido: como eu, que me entendia como uma mulher feminista desde os 12 anos de idade, tinha parado num lugar de violência, de solidão materna, de silêncio. Esses lugares desconfortáveis a que o patriarcado nos lança me interrogam, porque são lugares do tipo “decifra-me ou devoro-te”.

Rita: No agradecimento você me agradece por ser ter te afirmado ser uma escritora, afinal o que é ser escritora?

Lara: Alguém que expressa sua subjetividade por meio de palavras escritas, que deixa a angústia e outras inquietações que atravessam o corpo saírem na forma escrita e, com sorte e talento, essa escrita conversa com outras pessoas.

Agora sim, as perguntas afetivas

Rita: Nossa avó em comum nunca falava a palavra desgraça. Tem alguma palavra que você nunca diz?

Lara: Não digo vadia, mocréia, tenho aversão a esses xingamentos específicos para mulheres.

Rita: Se você pudesse inventar uma palavra, qual seria?

Lara: Teria inventado cabismeditando e ensismemuda, mas Guimarães Rosa já o fez por mim. Acho que ainda falta, no português, uma boa palavra pro órgão sexual feminino, gostaria de ter a capacidade de inventá-la, mas não tenho  – talvez precisemos de um concurso nacional  –; vagina parece planta, e os apelidos que já foram inventados igualmente não dão conta do que se quer nomear.

Rita: Me confirma essa memória: é verdade que seu pai ensinou o papagaio a te acordar ou eu inventei isso?

Lara: O papagaio sabia, sim, gritar Lara, e meu pai gritava Lara, e ele gritava Lara de volta, era uma forma de me acordar na adolescência, quando a gente gosta de dormir até tarde no fim de semana, e os pais vão ficando agoniados com aquilo, mas, quando eu ficava brava, meu pai dizia que estava só falando com o papagaio.

Rita: No seu livro a narradora do conto “Abraço” diz que escolhia os azulejos coloridos para pisar. Qual mania de criança você ainda mantém?

Lara: Me esconder e ficar bem quietinha quando estou muito triste, a quietude me recupera.

Rita: E se você fosse uma cor, qual cor você seria?

Lara: Às vezes vermelho, às vezes azul, mas de perto, de pertinho, às vezes Flicts, como a lua, citando este nome maravilhoso inventado pelo Ziraldo pra essa cor difícil e fugidia (não sei se é verdade, mas na minha cabeça seus pais me deram os livros do Ziraldo).

Rita: E um livro, se você fosse um livro, qual livro seria?

Lara: Eu sempre achei que eu era Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, da Clarice, mas reli recentemente e me irritei um pouco com o Ulisses, então hoje muito mais Água viva.

Rita: O que é família para você em uma palavra?

Lara: Amor, não consigo deixar de dizer amor, por todas as pessoas que me vêm à mente com a palavra família, embora saiba que, sob o manto do amor familiar, as maiores atrocidades têm sido escondidas.

Rita: O que é palavra para você em uma palavra?

Lara: Precisar (no sentido de nomear com exatidão, mas também de necessidade).

Rita: Para terminar: me faz uma pergunta?

Lara: A literatura é uma forma elegante de rancor?

Leia também: ‘Entendemos, enfim, que o lugar do estereótipo não nos cabe’, diz Octávio Santiago, autor de ‘Só sei que foi assim: A trama do preconceito contra o povo do Nordeste’