Poesia

3 poemas para conhecer Ana Paula Tavares, vencedora do prêmio Camões 2025

Professor de literaturas africanas da Universidade Federal Fluminense, Dr. Júlio Machado dá indicações para quem quer conhecer a poeta angolana.

Imagem de capa: Reprodução

Poeta angolana vanguardista, Ana Paula Tavares é historiadora e doutora em história e antropologia. Sua poesia é referência para pensarmos as literaturas africanas de língua portuguesa. Em sua trajetória, ganhou prêmios e está em antologias em diversos países, incluso Suécia, França e Alemanha. Ao ganhar o prêmio Camões, principal distinção para autores de língua portuguesa, seu nome se confirma como um dos maiores da história da poesia lusófona. Para conhecermos um pouco mais de sua trajetória, convidamos o professor Júlio Machado para indicar alguns de seus poemas.

Cerimônia de Passagem (p. 15)

“a zebra feriu-se na pedra

a pedra produziu lume”

a rapariga provou o sangue

o sangue deu fruto

a mulher semeou o campo

o campo amadureceu o vinho

o homem bebeu o vinho

o vinho cresceu o canto

o velho começou o círculo

o círculo fechou o princípio

“a zebra feriu-se na pedra

a pedra produziu lume”

Primeiro, primaz, primordial. “Cerimônia de passagem” é o primeiro poema do primeiro livro de Paula Tavares, Ritos de passagem, de 1985. Para além de sua posição física no livro, trata-se de um pórtico ao universo poético da autora, que, numa síntese admirável, descortina ao leitor a gênese de um grupo cultural, desde a in(a)cidental descoberta do fogo à celebração da linguagem que se fez canto.

O Mamão (p. 31)

Frágil vagina semeada

pronta, útil, semanal

Nela se alargam as sedes

                           no meio

                           cresce

                           insondável

                                            o vazio…

O fruto a furto. “O mamão” integra um conjunto de poemas intitulado “De cheiro macio ao tato”, no qual a mescla de sentidos reconfigura, por assim dizer, as relações do corpo com o mundo. Neste poema, o inusitado se instaura com a aproximação de fruto e mulher não pelo que visivelmente se expõe e se espera, mas pelo que nele e nela se esconde. O vazio, embora insondável, materializa-se pelo mesmo contorno interno de vaso, o receptáculo das sementes que um dia serão novo fruto e novo corpo. 

Boi à Vela (p. 45)

Os bois nascidos na huíla

são altos, magros

                            navegáveis

de cedo lhes nascem

                           cornos

                           leite

                           cobertura

os cornos são volantes

                                indicam o sul

as patas lavram o solo

deixando espaço para

                                a semente

                                a palavra

                                a solidão.

No princípio era o verbo, mas também o boi, o álefe, o alfa, o animal civilizatório de cujo nome valeram-se os semitas para iniciar seus sistemas de escrita. Os bois de Guimarães Rosa (eles mesmos o diziam) não compreendiam os humanos, altos demais, esguios demais para caberem no olhar horizontal de que dispunham. Não assim os bois nascidos na Huíla, eles próprios altos, esguios, movidos a vela e sabedores de um sul anterior às fronteiras. Trata-se, aqui, de temática de extrema importância para a poética de Paula Tavares, que, conhecedora em profundidade dos povos nômades do sul de Angola, deles empresta formas de organização do simbólico pautadas não pelo regramento estrito, mas pela mobilidade. Anda-se sempre, para um sul, para um desnorte, em ciclos que mantém viva a tarefa de calcar o chão e ir lavrando a um só tempo a terra e as palavras.

Referência: TAVARES, Paula. Amargos como os frutos. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Pallas, 2011.

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Foto: Divulgação.

Júlio Machado é escritor e professor de literaturas africanas na UFF. Em poesia, publicou O itinerário dos óleos (Prêmio Xerox/Livro Aberto), O quintal e o mundo (Prêmio Nascente: USP/Editora Abril) e Lagar de fala (semifinalista do Prêmio Oceanos e finalista do Prémio de Poesia de Oeiras 2024). Como contista, recebeu o Prêmio UFES de Literatura por Autocombustão humana (EDUFES, 2024) e o 3º Premio Purorrelato (Gobierno de España), pela narrativa “As beterrabas do Malanje”. Como dramaturgo, escreveu A profecia, para o Grupo Pândega, e Luzia, para o Teatro do Brejo Bento.