Reportagem Especial

A Cor da Pele: A poesia de Adão Ventura definitivamente nas prateleiras das livrarias

Lançada agora em outubro de 2025, a poesia reunida de Adão Ventura recebe o título de um de seus mais emblemáticos livros: “A Cor da Pele” (1980). 

Foto: Reprodução.


Adão Ventura, mineiro nascido em 1939 e morto em 2004 nunca foi, necessariamente, um nome desconhecido. Durante sua vida, o poeta do Vale do Jequitinhonha, transitou entre os principais meios literários, conversando com outros poetas e autores importantes da sua época (Murilo Rubião, Silviano Santiago, Ferreira Gullar e outros) e sendo reconhecido, principalmente, como um grande intelectual que sempre foi. 

No caso, este reconhecimento se deve, para além da sua genialidade, pelo trabalho que desenvolveu junto ao Suplemento Literário de Minas Gerais, trabalho literário histórico e que reuniu ali, nas décadas de 1960 a 1980, a chamada “Geração Suplemento”. Faziam parte d’A Geração, Adão Ventura, Murilo Rubião, Sérgio Sant’Anna e outros cuja vida são entrelaçadas com o cenário cultural de Minas Gerais. 

Mais para o fim da vida, mais precisamente na década de 1990, chegou a ser presidente da Fundação Palmares, um dos mais importantes órgãos, até hoje, de preservação da cultura negra no Brasil. Estar presidente da Fundação Palmares se dá principalmente por conta da relação que o autor desenvolveu com a pesquisa das mais diversas manifestações de arte afro-diaspóricas como o jazz do qual era grande fã. 

Entretanto, ser reconhecido, não fez com que a sua obra permanecesse nas prateleiras das livrarias após a sua morte. Aliás, nem mesmo enquanto estava vivo essa obra recebia grandes tiragens. O reconhecimento do talento de Adão Ventura se deu principalmente por meio de seus pares que, além de elogiá-lo, foram aqueles que fizeram o trabalho de crítica consistente a ponto de fazê-lo ser traduzido para o inglês, alemão e outras línguas. 

‘Até agora não era possível entrar numa livraria e achar um livro de Adão Ventura’, diz Tarso de Melo, editor do Círculo de Poemas

O poeta Adão Ventura. Foto do Acervo dos Escritores Mineiros (UFMG).

Tarso de Melo, poeta e editor d’O Círculo de Poemas, casa que agora abriga a obra completa de Adão Ventura, contou em entrevista para a O Odisseu que o resgate da obra de Ventura passou por esse desafio de dar conta de reunir a materialidade da produção artística do poeta. “Não seria possível fazer essa publicação sem o trabalho importante do Acervo dos Escritores Mineiros”, disse. O AEM é um departamento muito importante vinculado à Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais e que cuida do acervo não só de Ventura, mas de outros mineiros como Murilo Rubião e Fernando Sabino. 

Ainda assim, foi preciso contar com uma ajuda extra. Na entrevista, Melo conta que para fazer a edição que agora sai pelo Círculo de Poemas, foi necessário pedir os exemplares do amigo de Adão e também membro do Suplemento Jaime Prado Gouvêa. Melo também aproveita para dizer que ele mesmo só conseguiu ter dimensão da obra de Adão Ventura a partir da edição. “Tinha lido alguns poemas esparsos, mas nunca um livro completo”. Nesse sentido, a reunião dos poemas que chega agora pelo Círculo ganha essa dimensão histórica:

“Estou muito curioso para ver a repercussão porque eu tenho quase certeza que pouquíssima gente leu. Para a gente fazer essa edição, a gente teve que contar com o empréstimo dos livros de um grande amigo dele que é o Jaime Prado Gouvêa. Agora a gente consegue colocar numa dimensão comercial uma dessas vozes secretas da literatura brasileira. Porque por mais que tenha gente estudando, por mais que existam homenagens, não era possível entrar numa livraria e encontrar um livro de Adão Ventura.” Tarso de Melo, editor da coleção Círculo de Poemas (Fósforo), em entrevista para a revista O Odisseu.

Colocar a obra de Adão Ventura em circulação de forma definitiva também passa pelo trabalho de pesquisa e de divulgação da obra de Ventura por Fabrício Marques. Doutor em literatura pela UFMG, Marques vem trabalhando com o acervo de Adão Ventura há um tempo. Em 2019, organizou uma edição especial do Suplemento Literário de Minas Gerais em homenagem aos 80 anos de Adão Ventura. No editorial da edição (disponível aqui), ele escreve: 

“Adão Ventura é dos raros poetas cujos versos não escondem a essência nobiliárquica de quem traduz para o reino das palavras toda a grandeza e miséria da experiência humana.”

Vale abrir um parêntese para dizer que Fabrício Marques tem desenvolvido um excelente trabalho de divulgação da poesia mineira não apenas com a obra de Adão Ventura. Este ano, ele está finalista na categoria Poesia por organizar a obra completa de Maria do Carmo Ferreira, poeta vanguardista de Minas Gerais, que sai pela editora Martelo. 

‘A poesia de Adão Ventura tem muito a dizer a um mundo tagarela e superficial como o de hoje’, diz Ricardo Aleixo

No número do Suplemento organizado por Marques, participam outros mineiros muito importantes para a cultura negra de Minas Gerais, como a professora Leda Maria Martins e o poeta e performer Ricardo Aleixo. Aleixo, inclusive, tem uma plaquete que também é lançamento do Círculo de Poemas para o mês de outubro. 

Dendorí: dar corpo ao poema é uma plaquete que tem o ousado objetivo de reunir poeticamente as ideias de Aleixo quanto à performance. Em novembro, o poeta e professor irá ministrar um curso online que vai pensar justamente a obra de Adão Ventura e tem por título À flor da cor da pele da palavra: A poética de Adão Ventura. Além de um excelente leitor de Ventura, Aleixo também foi amigo pessoal, como conta em entrevista à revista O Odisseu:

Quando conheci Adão Ventura eu contava cerca de 25 anos. Ainda não me sentia “enturmado” no provincianíssimo mundo literário belo-horizontino e, verdade seja dita, é assim que me sinto ainda hoje – como um “não enturmado”. Eu visitava o poeta com frequência na Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, onde ele coordenava o Núcleo de Cultura Negra. Cerca de dois anos depois, em 1987, ele me convidou para trabalhar com ele, passando, assim, a ser “meu chefe” (risos). A gente conversava sobre tudo e sobre nada. A grande diferença de idade (ele é de 1939; eu, de 1960) não contava muito. O que eu mais gostava era de escutar seus relatos sobre a experiência nos EUA, como professor de Literatura Brasileira Contemporânea na University of New Mexico, em 1973. Adão era muito engraçado. Sinto falta dos bons e sempre alegres “conversados” com ele. Ricardo Aleixo para a revista O Odisseu.

O poeta Adão Ventura. Foto: Acervo dos Escritores Mineiros (UFMG).

Dentro dos estudos das poéticas negras brasileiras, enxerga-se Ventura como este precursor (que foi) e que reverbera na poesia de outros autores como, por exemplo, Ricardo Aleixo. Perguntei então o que ele acha dessas afirmações que o colocam como um “herdeiro” de Adão Ventura, mas ele discorda:

Não sou, não. Fomos amigos e interlocutores, como eu disse, mas não fui influenciado por ele. Adão não deixou herdeiros poéticos. Seu projeto é singularíssimo. Não se parece com nada do que veio antes dele e não é reivindicado por nenhum(a) poeta relevante que tenha surgido depois dele. E está bem que seja dessa forma, porque se trata de um artista da palavra muito raro. Agora, é óbvio que a minha escrita existe e circula num espaço forjado e firmado por ele e por outros nomes de sua geração e das gerações anteriores, não é? Um Cuti, um Arnaldo Xavier, uma Míriam Alves, um Oswaldo de Camargo, um Paulo Colina. Ricardo Aleixo para a revista O Odisseu.

Como o próprio Tarso conversou comigo durante a entrevista, a recuperação da obra de Adão Ventura também passa pelo interesse de novos acadêmicos, dessa geração mais atenta às problemáticas quanto à raça no Brasil, em encontrar esses precursores da poesia negra no Brasil. Nesse espaço excludente que é a circulação literária no Brasil (até hoje), quiseram nos fazer acreditar que a poesia de autores negros seria um advento inédito desta geração. O resgate, portanto, de obras de autores como Miriam Alves e Adão Ventura é essencial. 

Nos últimos anos há um interesse crescente por autores negros, autores que fizeram percurssos menos óbvios ou hegemônicos, por assim dizer, dentro da poesia. Uma das tarefas mais interessantes do Círculo de Poemas é justamente essa: a cada livro que nós lançamos, obrigamos o leitor e o estudioso de poesia a olhar aquele momento e entender que tudo é mais complexo. Porque se não a gente corre o risco de dizer “ah, a poesia dos anos 70 era assim ou era assado” e não é! O Brasil é imenso! Para 20 poetas que fizeram sucesso em uma determinada época, a gente pode estar falando de 2 mil poetas. Tarso de Melo para a revista O Odisseu.

Se referindo especificamente ao autor d’A Cor da Pele, existe então esse momento maravilhoso que é o de encontrar, em um poeta que atuou principalmente no século passado, muito dos debates sociais que fazemos hoje em dia. Para Ricardo Aleixo, a poesia de Adão Ventura não terminou de dizer o que tinha para dizer. Pelo contrário, lê-lo é sempre uma surpresa:

A poesia dele tem muito a dizer a um mundo tagarela e superficial como o de hoje. Adão é um poeta da minúcia, do verso pensado, burilado. Não é, a dele, uma poesia estribada só na enunciação de temas que a sociedade brasileira se recusa a ouvir, historicamente. Adão Ventura é um poeta do dizer exato, do não dizer, do dito pelo não dito, das ambivalências. É poeta para se ler mais de uma vez. Sempre topamos com surpresas ao relê-lo. Tenho a poesia em tão alta conta que vou tratar dessas questões no meu novo curso online, ‘À flor da cor da pele da palavra: A poética de Adão Ventura’, que ocorrerá ao longo de 4 sábados no próximo mês. Ricardo Aleixo para a revista O Odisseu.

Resgate da crítica da obra de Adão Ventura em ‘A Cor da Pele’

A Cor da Pele: Poesia Reunida, de Adão Ventura/ Círculo de Poemas (Fósforo), 2025/ 320 pp.

Na edição da poesia reunida de Adão Ventura que sai pelo Círculo de Poemas, será possível encontrar não apenas os seus livros de poesia que foram publicados integralmente outrora. Também estão reunidos quase 40 poemas que foram publicados esparsamente e um poema inédito. Ademais, contamos com textos críticos importantes, um do próprio Fabrício Marques, já mencionado, e outro, texto histórico, que é a crítica de Silviano Santiago de 1980 na ocasião da publicação do livro A Cor da Pele. A resenha, que também foi publicada naquela edição especial do Suplemento Literário de Minas Gerais, é um dos mais fundamentais comentários críticos sobre a obra de Ventura. Nele, Santiago escreve:

Adão Ventura filia-se ao que se poderia, chamar – insistindo ao máximo no paradoxo – a tradição ocidental da poesia negra, tradição esta elevada à condição soberana por um Cruz e Souza em pleno movimento simbolista. Isto quer dizer que Cruz e Souza e Adão fazem legítima poesia ao mesmo tempo que fazem excelente poesia negra. Isto porque o elemento negro no poema não é produto de ornamentação vocabular, o que apenas denotaria certo exotismo tão ao gosto de poetas de linha romântica. Silviano Santiago para o Suplemento Literário de Minas Gerais em 1980. 

A edição da poesia reunida de Adão Ventura já foi entregue na caixinha do Círculo de Poemas para assinantes e já chega às prateleiras das livrarias. Desta vez, acredito, definitivamente.

Leia Também: Luiz Gama filho de Luiza Mahin