
42 anos sem Cortazár: Relatos de um domingo de luto e de um sepultamento debaixo de um aguaceiro
O sepultamento de Cortázar, recorda a escritora uruguaia Cristina Peri Rossi, aconteceu em uma manhã chuvosa no Cemitério de Montparnasse, em Paris. Leia alguns relatos de um domingo de luto.
Fotos: Cortazár em Paris: lugares citados em contos e onde morou o escritor (Fotos de Sergio Werner).
A morte de Julio Cortázar, ao meio dia daquele domingo, 12 de fevereiro de 1984, no Hospital Saint-Lazare, em Paris, após uma internação de 10 dias, comoveu o meio intelectual latino-americano. Aos 69 anos, a seis meses de completar seu septuagésimo aniversário, o escritor argentino tornava-se o primeiro dos quatro principais autores do Boom a partir, precedendo o mexicano Carlos Fuentes (2012), o colombiano Gabriel García Márquez (2014) e o peruano Mario Vargas Llosa (2025). Cortázar partia em um momento em que as críticas negativas às suas últimas obras, sobretudo O livro de Manuel e Nicarágua tão violentamente doce, e à sua militância política haviam arrefecido. E fazia apenas dois meses de sua última visita a Buenos Aires, após dez anos de exílio, ocasião em que a Argentina comemorava o fim de uma ditadura militar marcada por sequestros, torturas, milhares de desaparecidos, assassinatos e exílios forçados.
Um dos primeiros escritores procurados por jornalistas foi Jorge Luis Borges que, lacônico, classificou Cortázar como um “excelente escritor”, de “contos excepcionais” e fama “merecida”. Ainda entre os compatriotas, Adolfo Bioy Casares foi mais generoso e situou a obra de Cortázar no panteão definitivo da literatura argentina, no “círculo das melhores obras que já foram escritas por autores argentinos”, enquanto Silvina Ocampo destacou o poder inspirador de sua escrita: “É difícil ler Cortázar sem buscar uma caneta e começar a escrever”. Para Marta Lynch, ele era o mestre de toda uma geração que “aprendeu a escrever lendo-o”. “A geração à qual pertenço aprendeu a escrever lendo Cortázar”, afirmou a escritora argentina, sendo ratificada por Ernesto Schoó, que descreveu Cortázar, ao lado de Borges, como um dos “dois colossos” que moldaram a ficção e o jornalismo contemporâneos: “Gostemos ou não, queiramos ou não, todos nós que hoje escrevemos na Argentina, seja ficção ou jornalismo (esta outra forma de ficção), recebemos a influência desses dois colossos”.
(Continua após a imagem)

Vargas Llosa, que já havia virado ao avesso, acabara de se instalar em sua escrivaninha para escrever um artigo quando o telefone tocou: “Cortázar morreu. Qual seu comentário?”. Gaguejando, obedeceu: “Todos nós, latino-americanos, deveríamos nos sentir de luto pela morte de Cortázar. Foi um dos escritores mais importantes do nosso tempo”. Em vez de escrever o artigo, Vargas Llosa, que há tempos não tinha notícias do amigo, passou o domingo folheando e relendo contos e passagens dos romances de Cortázar.
Gabriel García Márquez foi mais emotivo, diferenciando a admiração comum daquela que o amigo despertava: “Os ídolos infundem respeito, admiração, carinho e, certamente, grandes invejas. Cortázar inspirava todos esses sentimentos como poucos escritores, mas inspirava, além disso, outro menos frequente: a devoção. Foi, talvez sem pretendê-lo, o argentino que se fez amar por todo o mundo”, evocou o autor de Cem anos de solidão. “Prefiro continuar pensando nele como, sem dúvida, ele gostaria: com o júbilo imenso de que tenha existido, com a alegria entranhável de tê-lo conhecido e a gratidão de que tenha deixado para o mundo uma obra talvez inacabada, mas tão bela e indestrutível quanto a sua lembrança”.
(Continua após a imagem)

No México, Juan Rulfo foi comunicado da morte de Cortázar pouco antes de iniciar uma palestra. Ao subir no palco, pediu um minuto de silêncio. Os presentes responderam ao pedido aplaudindo de pé. Emocionado, Rulfo – que dizia que Cortázar tinha um coração tão grande que foi preciso fabricar um corpo também grande para acomodar esse coração – não conseguiu ministrar a palestra, cobrindo as lágrimas com óculos escuros. Elena Poniatowska celebrou a “moral gigantesca” do autor: “Vou recordá-lo sempre como o escritor da moral gigantesca, o mais acessível e aquele que derrotou a fama porque, mais do que motivo de orgulho, era para ele um compromisso eterno oferecer sempre o melhor: a autenticidade”.

Em Cuba, Roberto Fernández Retamar, da Casa de las Américas, afirmou que, com a morte de Cortázar, a América e o mundo inteiro perdiam um dos grandes escritores do século: “Um coração generoso que passou muitos anos defendendo as melhores causas”. O uruguaio Mario Benedetti seguiu a vertente política: “Equivocam-se os que pensam que Cortázar morto incomoda menos que Cortázar vivo”.
No Brasil, Davi Arrigucci Júnior, autor de O Escorpião Encalacrado, declarou à Folha de S.Paulo: “Ele [Cortázar] sempre militou em busca de uma realidade condizente com o ser humano”. Haroldo de Campos, que organizou a coletânea de ensaios Valise de cronópios, recordou o amigo: “Era um grande escritor. Um dos maiores da atualidade e um amigo muito generoso e sensível. Fico chocado com a notícia de sua morte súbita, ele que parecia nunca envelhecer. Apesar de estar próximo dos 70 anos, foi sempre um jovem audaz no trapézio volante da vida, engajado na invenção da poética, no amor e na solidariedade social”.
Eric Nepomuceno lembra que, no último encontro que teve com Cortázar, o grande cronópio parecia mais cansado. “Quando nos despedimos, perguntei-lhe se estava bem. ‘Não’, disse-me, e essa sinceridade é tão própria dele. ‘Mas faço o que posso'”, lembra:
“Combinamos de nos ver em Paris, daqui a mais algumas semanas. Enquanto isso, vou pensando que, na verdade, Julio está bem. Do contrário, não teria mentido.
E vou pensando, entretanto, que Julio é como os dias 29 de fevereiro: ocorrem a cada quatro anos, o que é muito tempo para o dia que se espera, mas a gente tem a absoluta segurança de que virão sempre e sempre; e, em um tempo de tantas inquietudes e dúvidas, não há nada como um 29 de fevereiro, e essa é uma das razões pelas quais quero tão bem ao meu amigo Julio.”
O sepultamento de Cortázar, recorda a escritora uruguaia Cristina Peri Rossi- que levantou, anos depois, a hipótese de que Cortázar teria morrido de Aids e não de leucemia ou câncer, como noticiado na época, por ter contraído o vírus HIV após uma transfusão de sangue na França, em 1981, e esta teria sido a mesma causa da morte da última companheira, a escritora canadense Carol Dunlop, alguns meses antes -, aconteceu em uma manhã chuvosa no Cemitério de Montparnasse, em Paris:
(Continua após a imagem)

“Quantas vezes, Julio, tínhamos recordado juntos aqueles versos de César Vallejo: ‘Morrerei em Paris com aguaceiro, um dia do qual já tenho a lembrança'”, lembra Peri Rossi em Julio Cortázar y Cris. “Não fui ao enterro de Cortázar. Não estou na foto. […] Eu me negava a aceitar que Julio fosse mortal, e preferia recordá-lo vivo, eternamente jovem”.
Até o último dia, Julio seguiu sendo Julio, lembrou Tomás E. Martínez, em seu discurso durante a cerimônia de criação da Cátedra Latinoamericana Julio Cortázar, da Universidade de Guadalajara, em 2004, em uma conferência que reuniu, além de Eloy Martínez, García Márquez, José Saramago e Carlos Fuentes.
Na mesma conferência, o ex-presidente da Colômbia, Belisario Betancur, lembrou que no dia que morreu Cortázar, a rádio Caracol, em Bogotá, anunciou que a partir da meia-noite fariam uma surpresa cortazariana, só transmitida às três da manhã: eram tangos com letras de Cortázar.
No creas em todo lo que dicen los periódicos. Segue vivo, eternamente jovem, o grande cronópio. E aqui vai o poema de César Vallejo, Pedra negra sobre uma pedra branca (Em César Vallejo : Antologia poética . Tradução de José Bento. Lisboa: Relógio D’Água, 1992):
Morrerei em Paris com aguaceiros,
num dia do qual já tenho a lembrança.
Morrerei em Paris – daqui não saio –
numa quinta-feira, como hoje, de outono.
Quinta-feira será, pois hoje, quinta-feira,
em que estes versos proso, dei os úmeros
à pouca sorte, e nunca como hoje
voltei, com todo o meu caminho, a ver-me só.
Morreu César Vallejo, espancavam-no
todos sem que lhes fizesse nada;
davam-lhe forte com um pau e forte
com uma corda também; são testemunhos
as quintas-feiras e os ossos úmeros,
a solidão, os caminhos, a chuva…



