Poesia

1 díptico e 1 tríptico: 2 poemas de Pedro Lucas Bezerra

2 poemas de Pedro Lucas Bezerra que viraram 5. Exclusivos para a revista O Odisseu.


Modos de pescar e ler futuro


  1. Não é sem algum risco
    que a terra se torna um lugar.

    Depois o mar e as veredas do desejo
    se abrindo nas margens de folhas;

    Tarrafas e, debalde, iscas e
    linhas de pesca. Arquivo de redes
    para a morte.

    O sol visto de cara
    dá cisco no olho.

    Uma visita contínua aos búzios:
    entender como criar um outro
    dístico para os próximos mil dias
    dentro da terra
    (apartando-se do mundo da água).

  1. Não é com meu anzol que
    cavuco outras águas.

    Não é violando a carapaça
    da grande tartaruga.

    É ouvindo a fuzilaria
    de uma onda contra
    uma pedra antiga:
    ela virando nada.

Relendo mitos


  1. Pigmalião mira seu alvo:
    a produção de seu vulto
    (a tentativa feroz de manejar
    um corpo de pedra)
    agora culmina no iconoclasmo.

    Ninguém irá meditar junto
    de tua imagem.
    Ela é oca igual os ventos.

    Enquanto procuras a tua medusa,
    o povo constrói barcos
    ou carrosséis para girar nos parques
    de diversão.

    Só tu e tua imagem construída
    em calcário: sem palavra alguma.
    Porque nem toda palavra inicia:
    ainda há que se preservar
    algum silêncio marmóreo.

  1. Asclépio, ao ressuscitar o herói
    epônimo Hipólito, o filho de Teseu,
    o que solta cavalos,
    disse a ele:
    muito cuidado com o resto do mundo;
    ele não se doma feito corcel.

    Um aforismo cuja mensagem
    era oculta como as fotos de
    seus filhos, esquecidas no último
    filme Kodak, furado de luz do sol.

    Na cavalaria é preciso honrar
    a si e ao bicho.
    Apostar uma vez só no campeiro
    manco, o que jamais chegará
    no fim da linha.

    Assim é possível domar o turfe:
    soltar o cavalo final,
    afugentar com ele os anjos – olhar de esguelha e pensar, afinal

    Como é triste meu trote.

  1. Quando Calisto percebeu
    que havia virado uma ursa,
    não temeu o fundo da mata
    ou os peixes desgarrados na
    jusante de mil rios sem nome.

    Começou a entender
    o peso da jaula, o inverso do
    frio, a tensa passagem quadrúpede,
    fingir ser bípede em terra alheia,
    os tortos dentes nascentes nas gengivas.

    Depois percebeu o carnaval,
    ser a La Ursa fatal,
    querer dinheiro, fazer da vida
    uma sanfona triste tocada em Olinda vazia.

    Ter um corpo de estopa
    ou virar, afinal,
    um retalho de constelação
    sem tocar nenhuma estrela

Conteúdo publicado originalmente no n27 da revista O Odisseu, em breve disponível na íntegra aqui no site.