
1 díptico e 1 tríptico: 2 poemas de Pedro Lucas Bezerra
2 poemas de Pedro Lucas Bezerra que viraram 5. Exclusivos para a revista O Odisseu.
Modos de pescar e ler futuro
Não é sem algum risco
que a terra se torna um lugar.
Depois o mar e as veredas do desejo
se abrindo nas margens de folhas;
Tarrafas e, debalde, iscas e
linhas de pesca. Arquivo de redes
para a morte.
O sol visto de cara
dá cisco no olho.
Uma visita contínua aos búzios:
entender como criar um outro
dístico para os próximos mil dias
dentro da terra
(apartando-se do mundo da água).
Não é com meu anzol que
cavuco outras águas.
Não é violando a carapaça
da grande tartaruga.
É ouvindo a fuzilaria
de uma onda contra
uma pedra antiga:
ela virando nada.
Relendo mitos
Pigmalião mira seu alvo:
a produção de seu vulto
(a tentativa feroz de manejar
um corpo de pedra)
agora culmina no iconoclasmo.
Ninguém irá meditar junto
de tua imagem.
Ela é oca igual os ventos.
Enquanto procuras a tua medusa,
o povo constrói barcos
ou carrosséis para girar nos parques
de diversão.
Só tu e tua imagem construída
em calcário: sem palavra alguma.
Porque nem toda palavra inicia:
ainda há que se preservar
algum silêncio marmóreo.
Asclépio, ao ressuscitar o herói
epônimo Hipólito, o filho de Teseu,
o que solta cavalos,
disse a ele:
muito cuidado com o resto do mundo;
ele não se doma feito corcel.
Um aforismo cuja mensagem
era oculta como as fotos de
seus filhos, esquecidas no último
filme Kodak, furado de luz do sol.
Na cavalaria é preciso honrar
a si e ao bicho.
Apostar uma vez só no campeiro
manco, o que jamais chegará
no fim da linha.
Assim é possível domar o turfe:
soltar o cavalo final,
afugentar com ele os anjos – olhar de esguelha e pensar, afinal
Como é triste meu trote.
Quando Calisto percebeu
que havia virado uma ursa,
não temeu o fundo da mata
ou os peixes desgarrados na
jusante de mil rios sem nome.
Começou a entender
o peso da jaula, o inverso do
frio, a tensa passagem quadrúpede,
fingir ser bípede em terra alheia,
os tortos dentes nascentes nas gengivas.
Depois percebeu o carnaval,
ser a La Ursa fatal,
querer dinheiro, fazer da vida
uma sanfona triste tocada em Olinda vazia.
Ter um corpo de estopa
ou virar, afinal,
um retalho de constelação
sem tocar nenhuma estrela
Conteúdo publicado originalmente no n27 da revista O Odisseu, em breve disponível na íntegra aqui no site.

