Sem vergonha de ser faroeste: sobre ‘Oeste Outra Vez’

O segundo filme do realizador goiano Erico Rassi, ‘Oeste outra vez’, é um profundo estudo do gênero e das suas implicações nas questões iconográficas do mundo masculino.

Fonte: Oeste Outra Vez (still).

O faroeste já teve inúmeras transformações e mortes, por assim dizer. O que surge como a transformação de contações de histórias locais em odes propagandísticas ao progresso norte-americano logo se transforma, entre as narrativas ocidentais, no último gênero épico (apesar da concisão e secura). Já na década de 30, foi palco para subversões e comentários autocríticos, se tornando um berço para o cinema moderno. E isso torna sem sentido o termo western revisionista para filmes produzidos a partir da década de 90, como se a revisão dos clássicos não fosse uma convenção do próprio cânone. É engraçado ver para onde vão algumas discussões em torno das questões problemáticas desse gênero: muitas pessoas resumem vários filmes significativos a peças machistas, racistas e xenofóbicas, fechando os olhos para as nuances discursivas, o choque dialético e a riqueza formal presentes nas linguagens de vários autores. Só a título de exemplo: o filme Homens Indomáveis (1954), de Allan Dwan. No dia do seu casamento, Dan Ballard é abordado por um suposto xerife de outra cidade, que chega com um mandado de prisão por assassinato. Ballard se diz inocente e toda a cidade o protege, ele é um homem benquisto, apesar de só viver ali há dois anos. O xerife se chama Ned McCarty (atenção ao sobrenome) e por meio de mentiras e de documentos falsificados (!!) convence a cidade aos poucos de que Ballard é culpado. Toda a cidade decide linchar Ballard (essa imagem, de uma cidade inteira, das beatas aos bêbados, querendo linchar um inocente, se repete em inúmeros longas-metragens). No fim, quase sendo morto pela multidão enfurecida dentro da única igreja da cidade, Ballard é salvo por meio de um artifício ilegal/mentiroso de duas mulheres: sua esposa e uma prostituta, com quem teve um caso no passado. Tudo isso acontece no dia 4 de julho, com a cidade rodeada de enfeites das cores da bandeira norte-americana. Em menos de 80 minutos e com um orçamento modesto, Dwan faz um comentário satírico, escancarado e elegante sobre a caça às bruxas que aconteceu com os artistas de esquerda (não necessariamente comunistas) em Hollywood nos anos 50 — sim, o Macartismo. Pra quem quiser conferir, o filme tá disponível no YouTube, basta procurar “Silver Lode Legendado”.  

Não sei o que seria do cinema dos últimos cinquenta anos sem a influência direta de nomes como John Ford, Howard Hawks, Jacques Tourneur e Sergio Leone. Ainda assim, por diversas questões, que vão da política de estúdios até uma crítica a um suposto conservadorismo dessas narrativas, o faroeste saiu de cena em alguns momentos. Apesar dos percalços, o gênero nunca parou de ser produzido, ainda que remixado, como nos mostram as obras de John Carpenter e Clint Eastwood, só pra citar dois dos principais nomes norte-americanos. Aqui no país, terra dos cangaceiros, temos algumas contribuições de destaque. Cinema Novo e Glauber Rocha, os filmes undergrounds do Ozualdo Cadeias, Sertânia do Geraldo Sarno, o fenômeno Bacurau, o mais recente Propriedade. Sem contar no maior romance brasileiro, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. No seu primeiro longa-metragem, Comeback (2017), o diretor Erico Rassi chegou pra integrar esse grupo de realizadores nacionais que investigam o gênero. Com Oeste Outra Vez (2025), ele firma sua assinatura e lança um dos melhores faroestes contemporâneos.

Fonte: ‘Oeste outra vez’ (still)

O grande vencedor da última edição do Festival de Gramado começa com uma típica cena de faroeste: há o minimalismo que resume grandes dilemas em poucos planos, como vemos nos melhores filmes do gênero produzidos na década de 50 (os de Budd Boetticher, Allan Dwan e Anthony Mann), bem como a construção de uma sequência de abertura engenhosa e que une a beleza dos planos abertos e da integração de elementos da natureza com uma trilha sonora melodramática (como vemos nos melhores spaghetti westerns). No meio de um descampado do cerrado goiano, Totó (Ângelo Antônio) dirige seu carro velho de encontro a outro carro velho, o de Durval (Babu Santana). Parece que estamos à beira de um duelo. Eles quase batem os carros, param, descem e começam uma briga desengonçada. Uma mulher sai do carro de Durval, é Luíza (Tuanny Araújo), esposa de Totó. Ela não diz nada, sequer olha pra trás. Agora abandonando os dois, caminha lentamente como um fantasma enquanto os homens brigam com muita violência. Ela é a única mulher que aparece no filme. Sua ausência de falas, ao invés de soar como falta, preenche toda a história, é um eco refratado em cada cena. Pois ao deixar de falar, Luiza se torna todas as outras mulheres citadas no filme, todas as outras mulheres que abandonaram os homens que surgem durante a travessia de Totó. Só a cena de abertura já vale a ida ao cinema.

Fonte: ‘Oeste outra vez’ (still)

O que se segue é bem simples e rudimentar, como os personagens e a própria noção de masculinidade que os cercam. Totó cumpre a ameaça que faz a Durval e contrata Jerominho (Rodger Rogério), um pistoleiro octogenário, pra matar o rival, que sobrevive ao atentado e também contrata pistoleiros, Antônio (Daniel Porpino) e Domingos (Adanilo). O resto é travessia: perseguição no ritmo lento do faroeste.

O movimento mais comum das histórias do Velho Oeste é o da trilha, é o de sair de um ponto A em busca do tão sonhado e incansável B: a liberdade, a riqueza, a vingança, o progresso, a nação. Não é por acaso que travessia é a última das milhares de palavras contadas por Riobaldo em Grande Sertão. O gesto moderno de Rassi (e nada inédito, basta ver os faroestes de Monte Hellman nos anos 60) é o de colocar seus protagonistas numa errância que domina boa parte do filme. Até o momento em que surge o Ermitão (Antônio Pitanga), já na terceira parte do longa, não sabemos qual é o destino da fuga de Totó e Jerominho. Apenas acompanhamos a dupla que foge da ira de Durval e dos seus contratados. E isso é o bastante porque no épico é assim: todo movimento, por mínimo que seja, diz muito, às vezes diz tudo. Não saber, ir junto. Esse é o modo como a montagem conduz o espectador que se vê no meio de uma briga sem sentido. E no fim das contas é isso, se nem as brigas e os tiroteios fazem sentido por qual motivo a viagem também teria um destino certo?

Em Comeback, Rassi iniciou a carreira nos longas-metragens com uma obra que se situa entre uma série de filmes melancólicos construídos a partir de uma relação de aproximações e distâncias com o faroeste e o melodrama a partir de uma ambientação urbana e contemporânea. Talvez, o melhor exemplo desse tipo de filmes neste século sejam Gran Torino (2008) e A Mula (2018), ambos dirigidos e protagonizados por Clint Eastwood. Aliás, a relação do faroeste com o melodrama é muito estreita e o próprio Clint é um ótimo exemplo disso, pois o mesmo cara que estrelou a trilogia dos dólares e venceu o Oscar de Melhor Filme e Melhor Direção com um faroeste também realizou As Pontes de Madison (1995) e Menina de Ouro (2004). Todo bom faroeste, além de ser um épico é também um melodrama clássico.

Fonte: ‘Oeste outra vez’ (still)

Aqui a chave melodramática se dá por um dos temas mais caros na literatura do século XX: a incomunicabilidade. Mais precisamente, o filme se move a partir do silêncio dos homens e da imobilidade causada pelo abandono das mulheres. Todas as casas que aparecem no filme estão sujas, com pilhas de louças pra lavar, muitas garrafas de bebidas e até fogões a lenha. Sem suas mulheres, que também são suas mães, esses homens se tornam meninos. Mais de um personagem revela o desejo de arrumar uma mulher para passar o resto dos dias e cuidar da casa. Sem a presença delas (e o cuidado, o carinho, o trabalho obrigatório) esses homens se veem sem rumo que até falar demais, ou simplesmente conversar ao pé da cama, num quarto de hotel barato, se torna difícil e estranho. Não se trata de um filme tese sobre os efeitos nocivos do machismo. Rassi não para pra explicar o mal, os diálogos não querem ensinar; pelo contrário, são engraçados, ora leves, ora pesados, econômicos. Apesar de ser um filme de gênero com todos os códigos imagéticos e narrativos (e até de atuação), esses homens são bem reais: são nossos pais, tios, avôs, os velhinhos que jogam dominó na esquina, somos até nós, em certa medida, mesmo com todo o verniz da desconstrução.

Fonte: Comeback (still).

O primeiro plano de Comeback, além de parecer com o último plano de Oeste Outra Vez, apresenta os principais elementos que permeiam até a exaustão o novo filme de Rassi. Antes da imagem, ainda na apresentação das logos das produtoras e distribuidoras, ouvimos sons de um jogo de sinuca. A imagem surge relevando um barzinho pega-bebo, velho e meio sujo, ao som de um brega clássico, com homens se divertindo, jogando e bebendo. A câmera se aproxima de Amador (Nelson Xavier), o protagonista, um pistoleiro idoso que tira um cochilo. Na sequência, um homem o devolve sua pistola Mauser, que estava no conserto. 

Homens, armas, bebidas, lugares velhos e abandonados, sinuca, brega.

O faroeste é um gênero bem musical se pensarmos nas suas rimas e repetições. São várias as imagens que se repetem de forma consistente. Geralmente, é a imagem do tiroteio, sacar a arma, atirar sem mirar e mesmo assim acertar. Em Oeste Outra Vez, Rassi escolhe outra imagem clássica do gênero pra repetir exageradamente: o da bebida. Os homens estão bebendo em praticamente todos os faroestes clássicos e isso não surge de modo inconsequente. Os personagens alcóolatras dos filmes de Howard Hawks estão aí pra provar. Bem como todas as obras que se passam em saloons ou têm momentos decisivos nesse ambiente, como O Matador (1950) e Matar ou Morrer (1952). O álcool sempre levará a tragédia, pois um cavalo de Troia sempre estará amarrado na entrada do saloon.

O destilado também é esse símbolo de força masculina, o azedo da cachaça com limão velho como mecanismo de defesa e de negação. Para além do suposto alívio direto à dor do abandono, é interessante notar como a cachaça substituí a água. Seus cavalos tomam água no leito do rio, mas Totó e Jerominho, ao invés de carregarem cantis de água, bebem pinga a todo momento, morrendo de sede, mas sede de quê?

Tem um plano muito bonito na última parte do filme. Já na casa do Ermitão, primo do pistoleiro, Totó e Jeromino estão sentados num banco, encostados na fachada do barraco. A cor dominante é o amarronzado, a cor de terra. Naturalmente, nossos olhos viram pra esquerda, onde os homens estão. Não percebemos um elemento no canto oposto. Só quando o personagem de Pitanga abre a porta, no centro do plano, e joga uma garrafa de cachaça vazia é que percebemos uma pilha de centenas de outras garrafas vazias, amarronzadas pelo tempo e pela terra. Um plano síntese de toda a narrativa.

Fonte: ‘Oeste outra vez’ (still)

Essa decupagem mais dura aliada à montagem e à direção remontam tanto ao clássico (a relação dos closes com os planos abertos, a contemplação da natureza, o Monument Valley brasileiro) quanto com o contemporâneo (a quebra de expectativa, a iluminação natural imersa no breu, o anticlímax). De forma mais madura e assertiva do que em seu primeiro longa, Rassi conduz um filme onde tudo parece estar no lugar. A trilha sonora equilibra perfeitamente as canções do imaginário popular e dos bares brasileiros com uma trilha sonora original que presta homenagens aos clichês do faroeste e reitera a melancolia e a solidão desses homens. A fotografia segue a linha do horizonte baixa nos planos abertos, como ensinada por Ford, e traz um tratamento de cor que valoriza os cenários nada óbvios do Cerrado. Das vilas abandonadas à imensidão da Chapada dos Veadeiros. 

Durante a exibição, na sala de cinema, tive a impressão de dois eventuais problemas da montagem. A já citada repetição das bebidas e o bloco de cenas da dupla de pistoleiros contratadas por Durval. À primeira vista senti um gargalo, mas quando os créditos sobem e depois, pensando no filme, entendi e concordei com essas escolhas de montagem. Com o tempo o filme vai crescendo na minha memória.

Fonte: ‘Oeste outra vez’ (still)

Erico Rassi roteirizou, dirigiu e montou (com Leopoldo Nakata) um dos melhores filmes nacionais pós-pandemia. É notório que estamos numa leva de obras bem diversas. As salas de cinema mostram, apesar dos momentos monotemáticos de Ainda Estou Aqui e do próximo original globoplay da vez, que os diretores e diretoras brasileiras estão abraçando com mais vigor a investigação de gêneros cinematográficos distintos e que a retomada do cinema da retomada não é o novo normal. Gravado em 2019 e lançado nas salas de cinema em 2025, os bastidores de Oeste Outra Vez não mostram apenas os percalços típicos de grandes filmes autorais e de gênero produzidos por aqui sem o aporte de bilionários, mas de que existe certo descrédito no gênero faroeste (ainda que sejam distribuídos com esse rótulo do revisionismo como algo novo). O longa está na sua segunda semana em cartaz nos cinemas. Já Comeback está disponível gratuitamente no site do Sesc Digital.

Sem vergonha de ser faroeste, Oeste Outra Vez convida o espectador não apenas para refletir sobre as condições extremas desses homens, mas também propõe uma imersão no gênero e na história do cinema sem precisar pregar pra convertidos.

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