Notas sobre ‘No Other Land’ ou Como construir uma casa

No Other Land é como uma canção entoada no último dia de uma guerra sangrenta. Doloroso, mas exatamente o que precisamos ouvir.

Cena do filme No Other Land, de Yuval Abraham, Basel Adra, Rachel Szor e Hamdan Ballal (Antipode Films AS).

1.

Durante o dia, sem nenhum pudor, com fuzis e retroescavadeiras, eles destroem a casa. À noite, com as mãos tateando o escuro, nós a refazemos — a mesma e outra, uma nova casa, que será demolida na manhã seguinte. 

2.

A insistência dos moradores de Massafer Yatta, que também posso chamar de garra ou de paixão e que todos deveríamos chamar de direito, foi o que os colocou nas manchetes dos principais telejornais dos Estados Unidos e da Europa e no mapa-múndi. Estar em um mapa é ser reconhecido, é saber dos limites geográficos da própria existência, por mais inóspita que seja. O vilarejo localizado no sul da Cisjordânia está registrado em mapas desde meados do século XIX, como é comentado por um dos personagens do filme No Other Land (no Brasil, Sem Chão). Mesmo assim, ignorando os direitos dos palestinos, tropas sionistas avançam de forma sistemática contra os vilarejos que não oferecem nenhuma ameaça à máquina de moer gente liderada por Benjamin Netanyahu.

Na verdade, não oferecem ameaça bélica, mas há outro tipo de resposta. O filme deixa isso muito claro ao mostrar o modo como a população resiste ao governo israelense. Somente existindo, insistindo na sobrevivência e na reconstrução das suas casas, construindo escolas, se refugiando em cavernas e realizando marchas e protestos com crianças e idosos no meio de estradas onde só passam veículos militares dos próprios algozes e, principalmente, filmando tudo, somente respondendo com todos os meios escassos e disponíveis é que eles afirmam quem é o povo que detém a coragem.

E coragem cultivada pelos invadidos e colonizados é perigosa, espalha rápido. Hoje, o mundo todo enxerga (pelo menos aqueles que querem ver) que o verdadeiro propósito do governo israelense não é combater o terrorismo do Hamas, mas promover o extermínio do povo palestino — embora a própria história já tenha dado pistas desse empreendimento colonial desde o fim do século XIX. Por meio de ativistas, jornalistas locais, mídias alternativas, coletivos e partidos políticos favoráveis à causa e alguns artistas, anônimos e famosos, acompanhamos o que acontece na Faixa de Gaza. Os palestinos querem viver, nada além disso. O maior trunfo do último vencedor do Oscar de Melhor Documentário não é querer dar conta das razões complexas e da linha do tempo do conflito, muito menos apontar soluções e saídas, não se trata de uma peça jornalística ou informativa, apesar de nos colocar no centro da violência de modo muito mais cru e realista que qualquer matéria feita por correspondentes ocidentais. O longa-metragem mescla os gêneros do relato pessoal, da peça política, dos cinemas verdade e de guerrilha, da denúncia independente via redes sociais e do filme-ensaio. Antes de ser um jornalista independente, o protagonista-roteirista-diretor Bassel Adra é fruto dessa terra, filho de ativistas e vive rodeado por pessoas tão teimosas quanto ele. O filme revela seu desejo mais gritante, que também é o desejo coletivo do seu povo. Nada além da independência, da paz, do direito de poder ir e vir sem correr risco de vida, o direito de simplesmente entrar num carro e sair estrada afora. O direito à humanidade. A autodeterminação dos povos (que a ONU usou de desculpas pra subsidiar o início da limpeza étnica da região palestina). A prece pelo que é fundamental. 

 ‘Hoje, o mundo todo enxerga (pelo menos aqueles que querem ver) que o verdadeiro propósito do governo israelense não é combater o terrorismo do Hamas, mas promover o extermínio do povo palestino’ – Lucas Litrento sobre ‘No Other Land’

3.

“Fale da sua aldeia e estará falando do mundo.” A célebre frase de Tolstói pode ser usada aqui de modo ambíguo. Há a coragem desses condenados da terra, exemplo para todos os outros que estão em tantas partes do mundo, tornando hoje a bandeira palestina um símbolo global, como são outras bandeiras manchadas de sangue pelo imperialismo. Vivendo com poucos recursos, sitiados pelos gigantes repletos de tecnologias de ponta — quantas vezes não vimos esse mote em histórias, desde Homero? — os palestinos são mostrados no filme por meio do registro do cotidiano. Há o riso, o tratamento dos doentes, o bolo de aniversário, o último cigarro da noite. O problema é que tudo isso ocorre no meio de um etnocídio em curso. Como se vivem nas periferias do Brasil? 

Em ensaio presente no livro Anseios: raça, gênero e políticas culturais, bell hooks afirma: “Eu me situo na margem. Parto de uma distinção definida entre a marginalidade que é imposta pelas estruturas opressivas e a marginalidade pela qual se opta como espaço de resistência — como lugar de abertura e de possibilidade radicais”. É possível ver a dor de viver nesse espaço dúbio no rosto de Bassel Adra, principalmente nos episódios da prisão do seu pai e da destruição da escola. Apesar de não haver novidade na violência do exército israelense — ele afirma que o pai, um ex-ativista, já fora preso diversas vezes, todas da mesma forma —, a barbárie em ritmo circular não deixa de cansar o jovem que nem consegue responder à simples pergunta “você quer formar uma família?”. Enquanto ele fuma seus olhos se perdem num véu de desesperança, à beira do abismo. As limitações da câmera e da iluminação e a fumaça do cigarro contribuem pra melancolia desses planos. Em alguns desses momentos, Bassel e o jornalista judeu Yuval Abraham, também roteirista e diretor do filme, conversam amenidades ou projetam um futuro muito distante, quase impossível — eles sabem que não há nada a ser dito, o plano aberto se converte em primeiro plano, seus olhos continuam perdidos. Bassel encara a escuridão, não a da noite, mas outra, mais antiga. Ele tem a minha idade, mas é muito mais velho que eu. Ainda assim ele não cai: no momento em que escrevo esse texto, Bassel volta a gravar vídeos das milícias dos colonos sionistas atacando seu vilarejo como retaliação ao seu discurso no Oscar.

(Continua após a imagem)

Cena do filme No Other Land, de Yuval Abraham, Basel Adra, Rachel Szor e Hamdan Ballal (Antipode Films AS).

4.

O filme não representa uma grande novidade no que diz respeito à presença de câmeras no vilarejo e na transformação desses equipamentos em ferramentas de defesa tática e de amplificação das vozes dos moradores. Bassel e sua família possuem um vasto material em vídeo, ao longo da projeção vemos diversos trechos: o próprio Bassel criança; seu pai, num espelhamento interessante, mais jovem, com a sua idade — o que nos faz pensar novamente na tragédia em círculo; a construção da escola que depois é destruída, como mostram as gravações dos celulares, substituindo as antigas câmeras de vídeo. É daí, não por qualquer caminho estilístico barato, que surge a narração em primeira pessoa, oscilando entre o filme-ensaio e o texto autobiográfico, o relato. Ouvimos a voz de Bassel não como a leitura em voz alta de um diário escrito às pressas e no calor do momento, mas como um sussurro monocórdico, tão baixo que não poderia ser ouvido no mundo real, sua voz interior, quase como um narrador em primeira pessoa de uma obra de ficção. 

Li algumas críticas no Letterboxd que consideram o filme formalmente bagunçado, sem muita coesão entre os estilos que transita. Para além da urgência e da denúncia que tem o trabalho hercúleo de furar a barreira das mentiras espalhadas na grande mídia, não há como a forma não ser contaminada pelo meio, a fratura exposta também desenha o filme, das condições de filmagens à ilha de edição. Ao publicar Ninho de Cobras, o escritor Ledo Ivo, meu conterrâneo, disse que sua obra não era bem um romance, estava mais pro antirromance ou até pro livro de contos, de histórias. Sua justificativa era que seu livro fora escrito durante o auge da Ditadura Militar, em 1973, e se passava durante outra ditadura, a do Estado Novo, nos anos 30, fazendo com que a obra se assemelhasse a cacos de vidro. Sinto que No Other Land é consciente disso tudo, apesar das suas limitações e condições de produção: principalmente por ser escrito e dirigido por quatro pessoas.

O quarteto palestino-israelense é estreante no cinema, mas veterano no ativismo e composto por dois palestinos e dois judeus. Bassel Adra e Hamdan Ballal dão continuidade às filmagens dos seus companheiros palestinos; contrariando o racismo institucionalizado pelo estado judeu, o jornalista investigativo Yuval Abraham e a cineasta Rachel Szor compõem o grupo. Apesar do grande tema do longa-metragem ser a resistência dos moradores do vilarejo, a relação de admiração e amizade mútua entre os quatro é visível tanto de forma mais explícita (as conversas entre Bassel e Yuval), quanto por meio da sua construção formal: a câmera de Rachel Szor que se aproxima o suficiente, quase beirando a composições que remetem ao cinema ficcional. A montagem, também assinada pelo coletivo, organiza a decupagem precisa e apresenta um trabalho que traz ecos de narrativas de guerra e até de terror, infelizmente.

Para além das questões políticas, que mexem muito comigo, afirmo que o documentário é um filme muito bem resolvido e realizado, desde a etapa de pesquisa e pré-produção (tão importante nos filmes do gênero) até à montagem. A estreia em Berlim seguida da exibição em diversos festivais de destaque e culminando na vitória no Oscar não é resultado apenas de uma agenda progressista, até porque esses lugares são extremamente conservadores. Não consigo ver com frieza e distância, mas se pudesse também diria que é um grande filme.

Não gosto de quando adjetivam obras de arte como importantes, necessárias e potentes (essa é a pior palavra). Esses enquadramentos sempre me soam vazios e geralmente interditam o debate em torno da obra de arte, além de servirem como muletas pro consumismo de enlatados com verniz de coisa boa, mas aqui quebrei as pernas. Não há como negar a importância e a urgência desse filme. Sua força política em apresentar o cotidiano de palestinos pro grande público com humanidade e sem sensacionalismo barato por meio de um apuro técnico que servirá de referência pra futuros documentaristas justifica todos os prêmios.

O que vemos não é apenas um filme ou uma denúncia. É um filme-denúncia, talvez o melhor em décadas. Narrativa da fratura, poética da relação. 

(Continua após a imagem)

Os diretores do filme No Other Land ao receber o Oscar 2025 de Melhor Documentário. Foto: Reprodução.

5.

Lição de vida é ver um rosto palestino.    

6.

Não gosto do título brasileiro. Enquanto Sem Chão soa fatalista, como se não houvesse mais ninguém em Massafer Yatta, No Other Land (Nenhuma Outra Terra ou Sem Outro Lar, algo nessa linha) é uma afirmação pela negação em sair. É bater o pé na terra. Até porque a casa destruída é refeita, é preciso chão pra fazer outra casa, mesmo que seja numa caverna. Os palestinos do vilarejo onde passa o filme ainda têm chão, por enquanto, apesar dos ataques às suas plantações e do caminhão betoneira derramando concreto num poço d´água.

7.

Assisti o filme no Arte Pajuçara, cinema de rua aqui de Maceió, com Larissa, minha namorada. Os créditos rolavam e não tínhamos o que falar, saímos da sala em silêncio e cada um foi ao banheiro numa caminhada onde os nossos passos ecoavam alto demais. Estávamos tensos e tristes, impactados com todas as cenas do filme. O que me deixou sem palavras — e que apesar desse texto continua me encurralando — foi um sentimento misto de culpa e impotência. Não há nada que possamos fazer pra mudar o etnocídio televisionado. Podemos lotar as salas de cinema, escrever críticas e artigos, piratear o filme, exibir em cineclubes, nada disso vai parar os racistas. Netanyahu é um grande case de sucesso da extrema direita, o nacionalismo judeu nunca fora tão nocivo, o império norte-americano dobra a aposta. Ainda assim aprendemos com Bassel Adra, sua família e seus vizinhos. A vida, a terra, o muro. De longe o filme mais relevante presente na última edição do Oscar, No Other Land é como uma canção entoada no último dia de uma guerra sangrenta. Doloroso, mas exatamente o que precisamos ouvir.

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