Se controlar as emoções é antídoto para evitar o caos, enlouquecer de vez em quando é necessário. É o terreno fértil no qual nasce a arte. E, talvez, a cura para nossos males interiores.

A realidade dói. Por isso, inventamos a arte: essa luneta mágica através da qual o mundo fica mais bonito e palatável. A propósito, o romance “A Luneta Mágica”, de Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1869, foi um dos livros reflexivos que li quando, aos 11 ou 12 anos – já não lembro, ingressava na adolescência. Na história, considerada uma das primeiras obras de fantasia contemporânea da literatura brasileira, o personagem Simplício, homem tosco que sofre de miopia, tem sua vida radicalmente transformada a partir de duas lunetas misteriosas: uma que o faz ver apenas o bem ao seu redor; outra, através da qual enxerga somente a maldade humana.
Além de entender, na minha frágil compreensão adolescente, que a realidade, embora seja uma só, poderia comportar diferentes versões, a depender das lentes com as quais nós a observássemos, o livro também me fez pensar sobre a necessidade de um sensato equilíbrio ao olhar o mundo e as pessoas que nos rodeiam. Na mesma época, quando acompanhava meu pai em suas idas dominicais à igreja, ouvia sermões muito bonitos sobre o mesmo tema, na voz calma, mas enfática, do reverendo Kainuma. Naquelas manhãs de domingo, no interior sóbrio, ao estilo inglês, da Catedral Anglicana do Redentor, em Pelotas, a filosofia tomava o lugar da fé nas frases daquele homem franzino que, ao subir ao púlpito, se tornava gigante. Em suas pregações, carregadas de forte influência da cultura nipônica, ouvia, com frequência, a palavra “temperança” – expressão que virou uma espécie de mantra na minha idade adulta. Uma fortaleza para enfrentar com moderação e autocontrole (às vezes, confundidos, por quem não me conhecia, com frieza e passividade) as alegrias, agruras e desafios da vida.
“Sem esse genial mergulho no delírio, a humanidade estaria privada de bons romances, boa música, poesia e todas as outras manifestações artísticas”
Se controlar as emoções é antídoto para evitar o caos, enlouquecer de vez em quando é necessário. É o terreno fértil no qual nasce a arte. E, talvez, a cura para nossos males interiores. “Em vão se dirige às portas das musas quem tem o domínio de si”, dizia Platão, enquanto Aristóteles afirmava que “nunca existiu um grande gênio sem nenhuma mistura de loucura”. Na vida diária, tenhamos ou não pretensões à genialidade criativa, muitas vezes, uma boa dose de enlouquecimento é imprescindível para suportar as mazelas do mundo. Por outro lado, sem esse genial mergulho no delírio, a humanidade estaria privada de bons romances, boa música, poesia e todas as outras manifestações artísticas, que nascem do desvario diante da existência.
Nesses dias sombrios, nos quais o real parece emergir de uma obra distópica, onde governantes totalitários ressurgem com assustadora naturalidade e aceitação ou catástrofes climáticas passam a fazer parte da rotina dos noticiários, equilibrar, com temperança, as lunetas com as quais observamos o mundo ficou cada vez mais difícil. E a lente mágica da arte tornou-se cada vez mais necessária. Ora, como instrumento de denúncia; ora, como refrigério, consolo capaz de nos fazer enxergar o humano que ainda existe em cada um de nós. Ou, simplesmente, como anestesia contra uma realidade que dói.
Leia Também: Estereótipos e personagens.

