‘Kuján e os meninos sabidos’, de Ailton Krenak e Rita Carelli: o criador canta e dança entre seus filhos

‘Kuján e os meninos sabidos’ (Companhia das Letrinhas) é também um convite para nos tornarmos crianças novamente e aprendermos a nos relacionar com o mundo.

Ilustração de Rita Carelli em ‘Kuján e os meninos sabidos’, livro em parceria com Ailton Krenak. Foto: Companhia das Letrinhas.

Estreando na literatura infantil, Ailton Krenak dá continuidade à parceria – que começou em 2022, na organização de “Futuro Ancestral” – com Rita Carelli. Nesta aventura vinda das histórias de avó Laurita Krenak, ouvidas de avó Bastiana e daí atrás, a natureza e a humanidade são postas em perspectiva no conto infantil, cativando crianças de todas as idades através das páginas da narrativa ancestral em que o criador, disfarçado de kuján, decide visitar seus filhos na terra. 

“Contam os antigos que quando o Marét-khamaknian terminou a criação do mundo, viveu um tempo entre suas criaturas, cantando e dançando com seus filhos”, depois de se retirar do paraíso, o criador retorna à Terra como kuján, um tamanduá. Seguindo a tradição das narrativas do povo Krenak, a história se desenrola como a língua do tamanduá, trazendo reflexões sobre a conexão entre a natureza e a humanidade, além de colocar as crianças como parte da ação necessária para construir melhores caminhos para o futuro. 

Na chegada à Terra, o kuján é caçado pelos guerreiros que logo tratam de prepará-lo como prato de comemoração na festa da aldeia. As artes de Rita Carelli, imitando papel recortado e colagens manuais, destacam as imagens e passagem dos dias em páginas mais claras e mais escuras, em dimensões e texturas que nos aproxima das memórias de infância em seu manuseio e no envolvimento com a leitura, que desperta a torcida para que Roti e Cati, os meninos sabidos, consigam ajudar o criador na fuga da aldeia em meio à confusão.  

A liberdade que a infância permite

É interessante observar a relação do povo Krenak com os animais e a natureza. Assim como em histórias e contos tradicionais de outros povos indígenas, como os Munduruku, a harmonia entre humanos e natureza está sempre em perspectiva, demonstrando como ações individuais acabam afetando a comunidade e vice-versa. Um outro exemplo aparece no reconto “Como as Águas Vieram ao Mundo”, escrito por Lidiane Damaceno Krenak para a antologia “Originárias” (Companhia das Letrinhas, 2023), que aborda a formação dos rios, cachoeiras, córregos e lagos, além de explicar como a teimosia do rium, beija-flor, deu origem ao Mínhang.  

É comum em falas de Ailton Krenak a preocupação com a crise climática e a relação dos humanos com a natureza, mais de uma vez se foi dito que as crianças são a esperança para os dias melhores e restabelecimento do equilíbrio. Os meninos sabidos terem a esperteza de salvar o kuján, diz muito da liberdade que a infância permite, de experimentar a conexão com o sensível, que também é discutida por Ailton Krenak em “Futuro Ancestral” (Companhia das Letras, 2022), quando conta da liberdade que teve na infância para viver a conexão com a natureza sendo parte constituinte dela. 

Assim, o livro é também um convite para nos tornarmos crianças novamente e aprendermos a nos relacionar com o mundo e “sentir a vida nos outros seres, numa árvore, numa montanha, num peixe, num pássaro, e se implicar.” (2022, p.102-3). 

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Obras citadas

Obras citadas:

KRENAK, Lidiane Damaceno. Como as Águas vieram ao Mundo. Em: Originárias: Uma antologia feminina de literatura indígena. Organização de Trudruá Dorrico e Maurício Negro, ilutrações de Maurício Negro. São Paulo – Companhia das Letrinhas: 2023.

KRENAK, Ailton. Futuro Ancestral. São Paulo – Companhia das Letras, 2022.

‘Kuján e os meninos sabidos’

de Ailton Krenak e Rita Carelli
Companhia das Letrinhas, 2024
40pp.
R$ 45,75.

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