O eu-lírico de “Finde Mundo” experimenta um estranhamento muito genuíno perante o mundo. Um grande sentimento de desesperança, de saudade de um tempo que não volta.

De vez em quando me deparo com o seguinte comentário na internet: “o arrebatamento aconteceu e nós fomos os que ficamos”. O comentário se utiliza da mitologia cristã: o arrebatamento é Deus tirando da Terra os seus servos fiéis para salvá-los antes do apocalipse. Os que ficam sofrem com o armagedom bíblico, o famoso “fim do mundo”.
Geralmente, esse comentário aparece em algum vídeo ou conteúdo que mostre algo muito absurdo, algo totalmente fora do que se imagina de ética e estética. O estranhismo presente no mundo hoje seriam as provas de que o que vivemos não é o mundo, mas o que restou dele.
Lendo “Finde Mundo” (Patuá), lembrei deste comentário. Os poemas da Lígia são sobre o tédio da expectativa do fim, mas às vezes penso que estamos no que restou de um mundo. Somos o que restou de projetos civilizatórios. Tudo o que existe hoje é não-civilização, não-afeto, não-vida. O que estamos escrevendo é uma literatura pós-apocalíptica e nenhuma distopia conseguiria dar conta do que é o mundo sob o capitalismo.
O fim do amor é o fim do mundo
“Finde mundo” é a estreia de Lígia Souto na literatura em formato livro, mas ela, na verdade, é uma artista experiente. Sua trajetória passa pela dramaturgia e pelo audiovisual, sendo premiada em ambos os formatos. Esse trânsito entre as linguagens artísticas está presente em seu livro.
A dramaticidade, talvez, seja a verve não apenas do teatro, mas também do cinema e da performance como um todo. Em “Finde Mundo”, o drama é contido, ou melhor, interrompido. Sob uma camada de tédio e de desinteresse geral, existe um drama latente. Mas o que lemos, talvez, não seja a explosão da dor no momento em que acontece, mas o que sobra quando não há mais lágrimas a chorar. O vazio, o silêncio.
vontade de nada
de tudocontar carneirinhos
(Poema “Suspiro Noturno”, de Lígia Souto)
O tema do “fim” está presente não apenas no fim do mundo, mas também no fim de um relacionamento que, de certa forma, também é o fim de tudo. De maneira bem honesta, sem se preocupar com o que se pensa a respeito de juras de amor e de “sofrência”, Lígia constrói belíssimos poemas de saudade. A ausência é estranha para o eu-lírico, algo que ainda não se está dentro do costume, embora o tempo tenha passado. Ainda é uma ferida. De algum jeito, algo se quebrou quando a pessoa amada partiu e os remendos feitos são insuficientes. Na impossibilidade da volta e na demora do fim do mundo, o que resta? O que se pode dizer de uma vida vazia de amor?
Além dos versos, o livro também apresenta “prosas poéticas” ou “poesia em prosa”, como preferir. O exercício do lirismo fora da estrutura tradicional é algo que, não facilmente, me convence (não me considero um leitor difícil, apenas um leitor de preferências), mas eu gostei. Essas intervenções em texto por extenso conseguem dar mais profundidade ao projeto literário da autora que, na maioria das vezes, prefere os poemas pequenos e que aposta no interdito.
Sendo assim, o texto em prosa abre uma janela no correr do livro. Se o tempo todo estamos observando, como se pelo outro lado da janela, o que o eu-lírico apresenta, nesses breves momentos somos convidados a adentrar precisamente nesse universo todo de solidão e espera.
sonhei contigo essa noite. que chegava pelo mar, que me amava ainda. era água para todo lado e era mar que não tinha fim. sonhei beijos e abraços, que me fazia rir, sorrir, que a saudade não era minha só, era nossa.
Lígia Souto em “Finde Mundo” (grifo meu).
A escrita poética em tempos de ruptura
Li, recentemente, alguns livros de poesias escritos por mulheres. Li (e resenhei) “Acrobata”, de Alice Sant’Anna e li e entrevistei Milena Martins Moura, autora de “O Pecado e os Cordeiros Dividindo o Pão”. Terminando de ler Lígia Souto, fiquei pensando como é difícil traçar um panorama da poesia contemporânea (um exercício que eu também tenho feito com o Índice da Nova Poesia Brasileira da revista O Odisseu).
Em alguns pontos, Lígia e Alice se aproximam. As duas nos convidam para o “convívio da poesia”, como escreve Luciana di Leone. Isto é, ambas nos convidam para dentro de seu lar, em poesias que retratam as cenas cotidianas, o ambiente doméstico e “acontecimentos”. Esse é um tipo de poesia que me interessa muito e, nos dois casos, consegui sentir vida destes poemas. Um frescor de poesia nova.
Em outros momentos, Lígia se aproxima de Milena, na ferocidade, na revolta, na temática do feminino de forma mais rebelde. Esteticamente, Milena e Lígia estão em opostos: uma vez que o diálogo da primeira está, principalmente, com o clássico e com os mitos fundacionais e a segunda com o contemporâneo e com as novas experimentações na escrita poética.
Mas as três se unem como escritas de uma poesia que expressa um tempo esquisitíssimo que é esse o que vivemos. As novas ameaças da cadela do neofascismo, a perda da esperança na luta identitária, o receio diante a perda de novos direitos sociais, gerou um grande nível de insegurança sobre os corpos e essa insegurança perpassa muitas dessas escritas.
Em Lígia, talvez, é onde seja mais explícito. O eu-lírico de “Finde Mundo” experimenta um estranhamento muito genuíno perante o mundo. Um grande sentimento de desesperança, de saudade de um tempo que não volta (o tempo do amor, mas também um tempo mais simples ou um tempo de mais felicidade). Junto à saudade, há o desejo. Um desejo também impossível de se realizar, cortado pela ameaça constante do fim do mundo.
Entretanto, o mundo nem acaba de uma vez e nem melhora. Fica nesse chove e não molha. Fica na iminência, na beira do abismo. E o que fazer neste tempo? Acho que é essa a grande sacada da poesia de Lígia Souto que é a poética de um eu-lírico que sente náuseas, cólicas e esses incômodos que precedem um grande romper que demora à chegar. O vômito é o alívio para a náusea e o fim do mundo é uma esperança. Que ousada estreia literária.
Leia Também: ‘Vigiando um leão de perto’: A poesia narrativa em ‘Acrobata’, novo livro de Alice Sant’Anna.

Finde Mundo, de Lígia Souto
Patuá, 2024
Poesia, 162 pp.
R$ 50


que leitura lindíssima do livro. obrigada.
Ótima resenha! Traz à cena as diversas camadas de uma angústia repleta de urgência, tédio e paciência, que se alternam do comeco ao fim – do livro e do mundo. O livro é uma delícia! Um banquete que nos instiga a provar o doce e o amargo, como se nos ofertasse anticorpos para o que vier no esperado e temido fim.