“’Flow’ e o frio na barriga”, por Fernando Baldan

Flow: Imagina se fosse meu gato perdido fugindo da enchente, caindo várias vezes na água fria, fugindo de cães, se escondendo da tempestade, deslocando sem rumo cada vez mais longe?

Cena do filme ‘Flow’, de Gints Zilbalodis (Foto: reprodução).

Vi “Flow” no cinema dias antes do Oscar. A aventura melancólica do gatinho é um pesadelo para todo dono de gato, como eu. Acompanhar  os infortúnios enfrentados pelo bichano na natureza chega a dar um nó na garganta em tempos de superproteção de animais domésticos. 

Imagina se fosse meu gato perdido fugindo da enchente, caindo várias vezes na água fria, fugindo de cães, se escondendo da tempestade, deslocando sem rumo cada vez mais longe?

Fiquei muitos anos sem ter gato em casa. Acabei arrumando um na pandemia, como muita gente fez, para suprir o vazio. Na época, eu morava num apartamento e acabei me mudando para uma casa com quintal. Eu invejava os gatos de Simon’s Cat, que corriam pela grama e se penduravam nos muros. Eu queria uma vida mais natural para o meu gato, sem, no entanto, que isso implicasse nalgum perigo. Sendo assim, nada de ficar no muro. 

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O quintal espaçoso tinha um muro bem alto de um lado, outro com grade, nos fundos, e um muro decorado com cerâmicas do outro lado. Tudo perfeito para cercar o gato. Ele até tentou uma ou outra peripécia, mas foi vencido pela arquitetura. Ainda bem. 

Gatos precisam ser gatos, mas gatos morrem. Um gato de rua dura, em média, apenas dois anos. Já um gato doméstico que dá suas saidinhas vive cerca de quatro anos humanos. E os castrados que moram com seus donos e desconhecem o mundo lá fora vivem pelo menos oito anos.

Na pandemia, cheguei a alugar chácara aos fins de semana para dar uma espairecida e levei o gato. Ele não demorou a se adaptar. Um dia depois já estava explorando os ambientes internos e, com coleira e guia, os quintais. Também coloquei um GPS nele nessas ocasiões temendo que ele escapasse. Com o passar do tempo, notei que isso seria impossível. O gato adora explorar, mas é receoso. Teme pessoas que não conhece e também barulho de carros e caminhões. 

‘Mesmo estando num ambiente controlado, com hora para voltar do quintal, o gato consegue de vez em quando exercer sua natureza de forma plena.’

Em casa, quando o gato se atreve a dar uma espiada no quintal da frente nos momentos em que abro a porta para chegar ou sair, ele volta correndo para dentro ao notar o som de um veículo barulhento que se aproxima. Por via das dúvidas, a janela da sala ganhou uma tela, onde ele se exercita ao limite de perder uma ou duas unhas por se pendurar. Como os dentes dos tubarões, as garras são sempre renovadas. 

Esperto e brincalhão, usa sofás e arranhadores de trampolins e gosta de perseguir mosquitos e outros insetos. Mesmo estando num ambiente controlado, com hora para voltar do quintal, o gato consegue de vez em quando exercer sua natureza de forma plena. Duas vezes, não sei como, conseguiu apanhar passarinhos, um pego na tela da janela, e outro agarrado no quintal dos fundos. Felizmente consegui salvá-los, esperando que saíssem do estado de choque e voltassem a bater as asas para longe. Minha casa, minhas regras. Nada de animais capturados. Ele que se contente com o ratinho de pelúcia e as lagartixas de borracha. 

Por vezes, quando não sei onde o gato está, bate uma leve angústia com a possibilidade de ele ter sumido de alguma forma, mas nada que se compare ao frio na barriga que senti em “Flow”, com o bichano livre para fazer o que quisesse e totalmente à mercê das intempéries.

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Sobre o autor

Mineiro de Poços de Caldas, Fernando Baldan é jornalista formado na PUC-Campinas, pós-graduado em jornalismo literário pela ABJL (Academia Brasileira de Jornalismo Literário) de São Paulo. Autor do livro “Procura-se um sofá”. Colaborou com RRAURL e Piauí. É assessor de comunicação e funcionário público.

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