A força e a versatilidade da obra de Dias Gomes é o destaque da Flipelô 2025

A Fundação Casa de Jorge Amado, que organiza a Festa Literária Internacional do Pelourinho, anunciou Dias Gomes como o autor homenageado de 2025.

O escritor e dramaturgo Dias Gomes, homenageado da Flipelô 2025. / Foto: Arquivo O Globo

Tradicional no circuito de festivais literários do Brasil, a Festa Literária Internacional do Pelourinho, a Flipelô, chega à sua 9ª edição entre os dias 6 a 10 de agosto. Seguindo o molde de outras festas literárias do país, como a Flip, em Paraty, a Flipelô também desenvolve a sua programação a partir da homenagem a algum grande escritor ou personalidade das artes em geral.

Nos últimos anos, a Festa deu prioridade em homenagear figuras baianas, como foi o caso de Mãe Stella de Oxóssi, em 2023, e Raul Seixas, em 2024. Nos dois casos, a curadoria destacou não apenas uma escolha a partir da obra e posicionamentos amplamente reconhecidos, mas também a relação com a obra de Jorge Amado. 

Mãe Stella, nós sabemos, foi amiga de Jorge Amado e reconhecida por ele. Anos depois da morte do escritor baiano, a ialorixá tomou posse como imortal na Academia de Letras da Bahia, casa que também imortalizou Amado. 

Já Raul Seixas, mencionou o autor de “Dona Flor e seus dois maridos” como uma inspiração e até revelou que o seu desejo original não era ser cantor e compositor, mas sim escritor e “escritor como Jorge Amado”. 

Neste ano, não será diferente. O autor homenageado é Dias Gomes, romancista e dramaturgo baiano e imortal da Academia Brasileira de Letras. Assim como os autores anteriormente homenageados, Dias Gomes também tinha uma relação de admiração mútua com o patrono da Flipelô. 

‘Dias Gomes nos deixou um rico legado e nosso papel com a Flipelô é chamar a atenção para isso’, diz Angela Fraga, diretora-executiva da Fundação Casa de Jorge Amado

Angela Fraga, diretora-executiva da Fundação Casa de Jorge Amado. Foto: Divulgação

A obra de Dias Gomes é extensa e faz parte do patrimônio cultural brasileiro. Seja no teatro, romances ou na adaptação de seus textos para a televisão, suas histórias hoje já fazem parte da memória coletiva dos brasileiros ou, como disse Angela Fraga, diretora-executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, “fazem parte do imaginário popular brasileiro”. Em depoimento para a revista O Odisseu, Angela disse:

Primeiro, gostaria de pontuar que estamos felizes com a escolha do Dias Gomes para receber esta homenagem na 9ª edição da Flipelô. É uma homenagem justa e merecida por toda à contribuição que ele deu à literatura, ao teatro e à televisão.

Dias Gomes nos deixou um rico legado, nosso papel com a Flipelô é chamar a atenção para isso. É um grande romancista, dramaturgo e autor de telenovelas. Assim como Jorge Amado, conquistou o Brasil com personagens que estão presentes até hoje no imaginário popular.

Angela Fraga, diretora-executiva da Fundação Casa de Jorge Amado em depoimento para a O Odisseu.

De fato, personagens como Roque Santeiro, imortalizado na atuação de José Wilker, e Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo) em “O bem-Amado”, continuam na memória do povo, mesmo décadas após a exibição dessas telenovelas. Entretanto, poucos autores de telenovelas puderam gozar de uma popularidade tão grande a ponto de serem reconhecidos pela população, como é o caso de Glória Perez. 

Neste caso, faz muito sentido homenagear alguém cuja obra segue a reverberar na cultura brasileira, muito embora seu nome não circule tão fortemente entre o povo. Trazer à tona esse artista tão completo e tão importante para nós é o desafio que a curadoria da Flipelô assumiu neste ano. Para Angela Fraga, o debate em torno da obra de Dias Gomes será ampliado a partir da sua relação com o próprio Jorge Amado:

Pretendemos ampliar o debate em torno do seu legado, fazendo a conexão entre ele e Jorge Amado, que além de amigos, tinham uma sintonia quanto aos temas abordados em suas obras, como a intolerância religiosa, a exploração política e comercial da fé popular, o coronelismo político e o progresso descontrolado, assim como no uso do estilo literário realismo mágico. Esse é o fio condutor da programação que estamos elaborando.

Angela Fraga, diretora-executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, em depoimento para a O Odisseu.

‘Dias Gomes já seria o mais importante dramaturgo brasileiro somente por ter escrito O pagador de promessas’, diz Gil Vicente Tavares sobre o homenageado da Flipelô 2025

Qualquer um que se interessar em conhecer a obra de Dias Gomes a partir do estímulo criado pela Flipelô, vai se deparar com uma obra extensa, mas também multiforme. Escrevendo para a TV ou para o teatro, Gomes conseguiu manter o nível de qualidade em seu trabalho por décadas, sendo sempre capaz de oferecer algo novo. 

Esse foi um dos aspectos destacados pelo também dramaturgo baiano Gil Vicente Tavares, que também é professor da Escola de Teatro da UFBA. Para Gil Vicente, o trabalho de Gomes consegue ser o mais complexamente político e o melhor tradutor das mazelas brasileiras. Para a revista O Odisseu, disse:

Dias Gomes já seria o mais importante dramaturgo brasileiro somente por ter escrito ‘O pagador de promessas’. Esta é uma peça que consegue amalgamar os diversos brasis numa dramaturgia muito bem urdida e temas dos mais distintos, paradoxais e ao mesmo tempo complementares. Mas ele é também o autor de ‘O santo inquérito’, clássico incontornável. Dois personagens incríveis, além de tudo: Zé do Burro e Branca Dias.

Gil Vicente Tavares, dramaturgo. Em depoimento para a O Odisseu.

Outro ponto destacado por Gil Vicente Tavares é a coragem de Dias Gomes durante a época da ditadura militar. Em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, o escritor chegou a mencionar como foi perseguido durante os anos de chumbo e como foi preciso coragem para seguir em frente. 

Vale mencionar também, que um de seus principais sucessos na televisão, o folhetim Roque Santeiro foi censurado pelo DOI-CODE em 1975 e só foi estrear em 1985, após o fim do período de ditadura. Para Gil Vicente, essas são provas da coragem do autor homenageado pela FLIPELÔ:

Mas Dias é também o crítico arguto dos anos de chumbo em ‘Campeões do mundo’, da linguagem carnavalesca escrachando o país em ‘Doutor Getúlio’, dos falsos mitos e falhos cidadãos nas bem-humoradas ‘O bem amado’ e ‘O berço do herói’. Consegue ser o mais complexamente político e o melhor tradutor das mazelas brasileiras que vão da antevisão sobre as milícias em ‘A invasão’ até as novelas que trouxeram, aos lares burgueses, a ferida aberta do Brasil em seu ridículo político e suas injustiças sociais. Num país sem memória, que ele tão bem criticou, qualquer homenagem será sempre uma maneira de trazer ao centro da discussão a grandeza de nosso mais significativo autor teatral.

Gil Vicente Tavares, dramaturgo. Em depoimento para a O Odisseu.

‘Gomes denuncia em suas peças e novelas diversas situações de opressão’, diz Aleilton Fonseca, escritor e presidente da Academia de Letras da Bahia

O escritor Aleilton Fonseca. Foto: Nara Gentil/ Correio.

A recepção quanto à escolha de Dias Gomes para a homenagem desta que é uma das maiores festas literárias do Brasil, não poderia ter sido melhor. Especialmente num país em que existe tão pouco de cuidado com a memória de grandes mestres da literatura. 

Pelo o que se pôde ler até aqui, o trânsito entre as linguagens artísticas e a criticidade social são alguns aspectos da obra de Gomes. No entanto, o escritor Aleilton Fonseca, recém empossado presidente da Academia de Letras da Bahia, menciona ainda mais. Para ele, a obra de Gomes também tem como marca presente o humor na hora de fazer as críticas:

A obra de Dias Gomes trata de temas sociais, políticos e culturais com humor e dramaticidade, com uma linguagem vazada em ironia, crítica e denúncia, atingindo assim diferentes públicos com a mesma eficácia. 

Gomes denuncia em suas peças e novelas diversas situações de opressão, pobreza,  e  injustiça impostas sobretudo aos grupos sociais mais vulneráveis, como os pobres, os negros e as mulheres. Em sua obra,  ele valoriza o imaginário,  a linguagem e os valores da cultura popular,  através de personagens muito bem construídas,  com   densidade e carisma, como Zé do Burro, Odorico Paraguaçu, viúva Porcina, Roque Santeiro e Zeca Diabo, entre outros.

Aleilton Fonseca, escritor. Em depoimento a O Odisseu.

Como em outras festas que trabalham a partir de um autor homenageado, sempre há um “circuito do autor”, uma série de mesas que pensam e debatem a obra de quem recebe a homenagem. Até agosto, temos que aguentar a ansiedade, bem como esperar pacientemente para conhecer os autores convidados deste ano. 

Por enquanto, ainda não há programação definida, mas devemos nos lembrar que a Flipelô já trouxe para o Pelourinho grandes nomes da cena nacional, como Eliana Alves Cruz e Luciany Aparecida e outros nomes internacionais, como Mia Couto e Igiaba Scego. A festa tem programação inteiramente gratuita e ocupa grande parte do Centro Histórico de Salvador, com atrações para crianças e adultos, além de shows e exposições.

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