Entrevistas

Lucas Barros: “Quando veio o anúncio de que eu publicaria um livro, houve uma onda de hate no Twitter”

Em entrevista para O Odisseu, Lucas fala de alguns temas que aborda em seu livro, como bullying e gordofobia, discutindo como essas experiências afetam a realidade de homens gays e como ainda são pouco exploradas na literatura brasileira.

Fotos: Renato Parada (Divulgação).


Antes de criar conteúdo sobre livros na internet, a literatura já ocupava um lugar importante na vida de Lucas Barros que, desde criança, sempre se interessou por inventar histórias. Agora, com a publicação de Amanhã eu morri sozinho, seu romance de estreia lançado pela Intrínseca, ele nos apresenta Caetano, um garoto do interior de Pernambuco que está aprendendo a lidar com a descoberta da própria sexualidade e com diferentes formas de ausência.

Em entrevista para O Odisseu, Lucas fala de alguns temas que aborda em seu livro, como bullying e gordofobia, discutindo como essas experiências afetam a realidade de homens gays e como ainda são pouco exploradas na literatura brasileira. O autor e criador também relembra de quando falou sobre sua sexualidade diante do público que o acompanha nas redes sociais e como esse processo tornou seu trabalho mais autêntico.

Sendo um dos influenciadores com maior destaque no mercado editorial, Lucas compartilha ainda os desafios e a onda de críticas que enfrentou quando anunciou a publicação do romance, fala sobre o preconceito ainda existente em relação aos influenciadores que escrevem livros e contrapõe essa experiência ao acolhimento recebido pelos leitores e à repercussão positiva durante a Flip, onde viu seu livro esgotar.

O escritor pernambucano Lucas Barros (Renato Parada/ Divulgação)

“Eu evitava ter contato com narrativas LGBTQIA+”, diz Lucas Barros

Você já trabalhava com criação de conteúdo literário. Quando surgiu a ideia de escrever um livro?

A ideia desse livro surgiu há três anos. Mas a ideia de escrever um livro sempre existiu, desde quando eu era criança. Sempre gostei muito de escrever, e comecei a escrever antes de ter o hábito de ler, inclusive. Na minha casa não havia o costume da leitura e, por isso, não tínhamos livros. Só que sempre fui uma criança muito criativa e imaginativa, e adorava desenhar. Comecei a gostar de criar a partir dos desenhos e inventava histórias para os personagens que eu desenhava. 

À medida que fui crescendo, comecei a ter mais contato com a leitura. Foi lendo que percebi que gostava de escrever e de observar como os autores tinham diferentes formas de contar histórias.

Mas a escrita não foi algo que se tornou tão presente na minha vida. Muito por uma questão de tempo e disponibilidade. Ler, para mim, acabava sendo mais fácil, entre as brechas da rotina. A escrita precisa de mais entrega e parecia que nunca era o momento certo para me dedicar a uma narrativa.

Apesar disso, escrevi muito durante a pandemia. Foi na mesma época em que comecei a criar conteúdo. Eu escrevia somente para mim, sem mostrar para ninguém e sem o menor interesse de compartilhar. Foi o período em que tive tempo para escrever não só as demandas da faculdade. Estudei Comunicação e precisava escrever muitos textos jornalísticos e publicitários, coisas muito diferentes do que gosto de escrever hoje em dia.

Quando terminei a faculdade no início de 2025 e me vi livre, cheguei à conclusão de que não havia mais motivos para não escrever o que me interessava.

Na criação de conteúdo você já trabalhava com livros que abordam vivências LGBTQIA+?

Já. Eu me senti mais livre, mais corajoso, mais criativo e mais solto a partir do momento em que revelei minha sexualidade para o meu público. Eu sentia que antes fazia um conteúdo mais polido e menos eu, justamente porque tinha receio de que as pessoas descobrissem essa nuance da minha personalidade pelos meus conteúdos.

Eu evitava ter contato com narrativas LGBTQIA+ porque, na hora de fazer uma resenha ou uma indicação, esse seria um ponto que não poderia ser ignorado. Na minha cabeça, só de criar esse conteúdo eu automaticamente já me revelaria para as pessoas, e eu tinha muito medo de isso acontecer.

Mas, a partir do momento em que fiz as pazes com essa ideia, se tornou muito mais fácil criar um conteúdo que fosse mais a minha cara e me deixasse mais à vontade. A partir daí comecei a indicar mais livros que abordavam questões de sexualidade, e nem foi algo planejado. Foi porque consumi esses livros durante muito tempo em segredo. Então, quando fiquei à vontade para fazer isso, foi como se eu pudesse compartilhar tudo o que vinha consumindo. Percebo que, de um tempo para cá, são esses livros que mais tem me interessado.

Quando foi seu primeiro contato com narrativas LGBTQIA+?

O que chegou primeiro para mim foi a ficção estrangeira e livros que eu pegava emprestados com algumas amigas. Por isso acho que demorou tanto para que eu tivesse mais contato com outros tipos de literatura.

Eu conhecia mais livros comerciais. Percy Jackson, John Green… No John Green, eu sentia algo que o diferenciava de outros autores. Talvez por seus personagens serem adolescentes mais transgressores, como em Quem é você, Alasca?. Tinha algo ali que me remetia a questões sobre sexualidade, parecia que havia uma fagulha a mais do que eu estava acostumado a encontrar nos outros livros. 

Logo depois veio Will & Will. Era uma coisa assustadora para mim. Meus pais sabiam que eu gostava muito de ler John Green nessa época, mas Will & Will eu li em segredo. Fiquei morrendo de medo de ser pego com esse livro. Era uma sensação muito estranha. Eu sentia como se o livro fosse proibido, por mais que não tivesse nada demais.

Como foi relacionar bullying, gordofobia e sexualidade na construção de Amanhã eu morri sozinho

Acho que esses assuntos são pouco abordados na literatura brasileira, ainda mais quando a história apresenta personagens da comunidade LGBTQIA+. Homens gays, principalmente, supervalorizam a estética do corpo. A gente torna o corpo algo muito importante e central para que as relações se concretizem.

Existe certo receio de abordar alguns assuntos. Por exemplo, homens com transtornos alimentares sentem vergonha de tocar nesse tema porque associamos isso a algo feminino. É algo que sempre me incomodou e me interesso em entender isso. 

Eu percebo que a comunidade LGBTQIA+ trata o corpo como o principal objeto de desejo. Acredito que isso também aconteça com pessoas cis e heterossexuais, mas falo da nossa comunidade porque é o lugar onde estou inserido.

Fui um menino que sofreu gordofobia na adolescência. Não é algo com que lido mais no meu dia a dia, mas, como isso já fez parte da minha vida, é impossível deixar de observar que o corpo é o principal motivo de pulsão das relações.

Também observo que é um assunto sobre o qual as pessoas se incomodam de falar. Como se, ao chegar nesse tema, elas se vissem obrigadas a assumir alguns preconceitos.

Amanhã eu morri sozinho se passa no interior de Pernambuco. Qual é a importância de Pernambuco para a sua escrita?

Eu acredito que o território influencia muito a escrita de um autor. O lugar onde crescemos é o que molda a gente enquanto indivíduo, e aquilo que temos de particular é um fator importante na formação de um escritor.

Garanhuns é a cidade onde nasci e passei boa parte da minha vida, uma fase que foi muito decisiva na minha formação como pessoa. É uma cidade para onde eu acabo sempre voltando. Não em sentido literal, mas de referência. É como se Garanhuns fosse o marco zero da minha vida. É impossível conhecer qualquer outro lugar sem compará-lo a Garanhuns, o primeiro lugar que habitei.

Até hoje, morando em Recife, penso nas diferenças entre aqui e Garanhuns. Garanhuns sempre vai ser um lugar de base. Mesmo estando distante, é um lugar que permanece muito presente.

“Meu livro foi criticado antes mesmo de ser lançado”, diz Lucas Barros

Como foi participar de diversas mesas na Flip e receber a notícia de que seu livro havia esgotado?

Foi uma sensação muito estranha, apesar de eu ter ficado muito feliz. Confesso que não estava esperando.

Eu estava com uma certa insegurança. Via a Flip como um espaço intelectualmente superior, que talvez não recebesse bem o meu livro por eu ser jovem, estreante na literatura e criador de conteúdo literário. A gente sabe que muita gente no mercado editorial ainda tem preconceito com esse trabalho e nem chega a vê-lo como de fato um trabalho. 

Imaginava que o público da Flip se interessasse mais por escritores que performam uma intelectualidade mais estereotipada e, quando descobri que havia uma procura pelo meu livro, que fez com que ele esgotasse muito rápido, foi um alívio.

Ter trocas com autores que também estão estreando me gerou bastante conforto. Conversei muito com a Dora Freind, de As vacas não me olham mais na cara (Nós), e com a Gabriela Zambiazi, de Durou um momento, não teve fim (Todavia). Foi muito legal conversar com elas, ver que elas são jovens sem receio de serem jovens e perceber que na Flip também há pessoas com uma comunicação parecida com a minha, e entender que lá não é um lugar para uma intelectualidade opressora.

As mesas de que participei também me fizeram muito feliz e me ajudaram a entender que eu estava incluído naquele espaço. Na Casa Queer, com o Marco Medeiros, Fred Itioka e Lucas Veiga, a conversa tomou um rumo que tocou em assuntos que me deixaram muito satisfeito por perceber que meu livro está inserido em debates importantes. E também na Casa PublishNews, com você e a Monica Ramalho, com a casa bem cheia.

Foi minha terceira vez na Flip e a primeira vez participando como autor. Antes, eu me sentia um pouco pequeno. Eu me deixava oprimir. Achava que eu era pequeno demais para estar entre pessoas que considerava tão grandiosas.

Você enfrentou algum preconceito do mercado literário por ser criador de conteúdo quando anunciou que publicaria um livro?

Quando a Intrínseca anunciou que eu publicaria um livro com eles, houve uma onda de hate no Twitter. Foram vários comentários, muita gente descendo o pau mesmo, comentários bem agressivos.

O principal motivo da revolta era o fato de eu ser criador de conteúdo. Foi aí que o meu medo tomou forma. Não era um medo irracional, vinha da revolta das pessoas e delas acharem que qualquer coisa lançada por um criador de conteúdo era inerentemente ruim.

Eu não queria deixar que aquilo entrasse na minha mente como se fosse uma verdade, mas durante uma semana fiquei com a cabeça muito pesada. Foi muita gente duvidando do meu potencial e dizendo que eu só tinha conseguido a publicação por ser criador de conteúdo. Duvidando da qualidade de um livro que ainda nem existia, e isso foi o que mais me pegou. Era o livro sendo criticado antes mesmo de ser lançado. Isso me gerou um medo porque já existia uma expectativa negativa em torno dele. Essas pessoas queriam que fosse um livro ruim e já estavam com a intenção de não gostar.

Foi aí que percebi que ainda existe essa resistência em encarar a criação de conteúdo como um trabalho sério e em reconhecer que criadores de conteúdo também movimentam o mercado editorial e podem escrever bons livros.

Qualquer profissional de qualquer outra área pode lançar um livro sem que a qualidade da obra seja colocada em questão. Mas, quando é um criador de conteúdo, esse questionamento existe antes mesmo de o livro ser publicado.

E como foi a recepção do público que te acompanha?

É nisso que eu estou tentando focar. Tem muita gente com expectativa negativa, mas tem muito mais gente do meu lado. Foi muito bonito ver as pessoas comemorando comigo. São pessoas que fazem parte de uma comunidade que criei desde quando comecei a falar de literatura na internet, em 2020, e que agora estão comigo no lançamento do meu primeiro livro.

O meu público já espera gostar do meu livro e é muito bonito ver que tem gente que confia no que tenho a dizer. No meu entendimento, fica mais fácil de gostarem da leitura porque já sentem um carinho por mim.

Falei com um amigo que estou ansioso para receber o primeiro feedback de alguém que não me conhece, de alguém que entrou numa livraria, comprou Amanhã eu morri sozinho porque gostou do título, da capa ou da sinopse, e leu. Talvez esse feedback nem chegue até a mim, mas fico muito curioso para saber o que achou um leitor que não sabe quem eu sou.

Com a publicação de Amanhã eu morri sozinho, você pretende abandonar a criação de conteúdo?

É a primeira vez que me fazem essa pergunta, achei até que ela teria surgido antes. 

É um dilema com que tenho lidado no meu dia a dia. Eu percebo que me encontrei na escrita, e não só no ato de escrever, que é a melhor parte. Também tenho gostado de falar sobre o livro, de participar de eventos e trabalhar na divulgação.

Mas eu também sei que preciso de uma fonte de renda. A criação de conteúdo é o que me sustenta. Já trabalhei com outras coisas, mas hoje é isso o que me ocupa e me sustenta.

Às vezes, eu caio nessa armadilha alimentada por comentários preconceituosos e me pego pensando que, para ser levado mais a sério, preciso deixar de criar conteúdo. Tenho trabalhado isso em mim e já convivo bem com a ideia de fazer os dois.

Mas a vida tem me pedido outra disponibilidade, e a criação de conteúdo me exige muito. Talvez eu esteja em um momento em que queira ficar mais recluso. Mas não pretendo deixar de criar conteúdo. Além de ser minha fonte de renda, outro motivo é que eu gosto muito das trocas que tenho através do meu trabalho.

Por que é importante que seu livro chegue aos leitores?

A importância é que, por mais que estejamos vivendo um momento em que muitos livros sobre sexualidade estão sendo publicados, e ainda bem que isso está acontecendo, sempre existe a chance de que seja o primeiro livro com essa temática que alguém tenha acesso.

Eu sei que isso vai acontecer porque muitas pessoas da minha família e muitos amigos meus vão ler esse livro justamente porque fui eu quem escreveu, mesmo que nunca tenham lido livros com personagens gays. Por mais que isso seja uma pena, fico feliz que Amanhã eu morri sozinho possa cumprir esse papel.

Espero que o meu livro faça algumas pessoas pensarem de forma diferente e acenda alguma faísca que ainda não existia nelas.

Amanhã eu morri sozinho, de Lucas Barros/ Intrínseca, 2026/ 256 pp.