Perdas e conflitos, talvez vivenciados pelo próprio autor, perpassam a trama de Uma visão pálida das colinas: o passado militar e patriótico do Japão versus o surgimento da democracia trazida de fora e à força pelos Estados Unidos, a velha tradição rígida e machista versus os costumes mais liberais do novo mundo.

Uma visão pálida das colinas é o romance de estreia de Kazuo Ishiguro, escritor nipo-britânico vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2017. Escrito em 1982, o livro está sendo publicado agora em 2025 no Brasil pela Companhia das Letras, com a ótima tradução de Jorio Dauster – tradutor, entre outros autores, de Virginia Woolf, Philip Roth, Nabokov e Salinger.
Ishiguro já é conhecido do público brasileiro por outros romances, como Os vestígios do dia, Não me abandone jamais, Klara e o sol e O gigante enterrado, alguns deles inclusive transformados em filmes. Nascido em 1954 em Nagasaki, Japão, mudou-se para a Inglaterra com cinco anos, quando seu pai começou a trabalhar como pesquisador em um instituto de oceanografia. A princípio, essa mudança seria temporária, mas a família se instalou permanentemente numa cidade ao sudoeste de Londres.
Conhecendo este fato importante da vida de Ishiguro – alguém que deixa o país de origem, migrando do Oriente para o Ocidente –, é possível entender melhor a trama de Uma visão pálida das colinas. Ambientado em uma cidade do interior da Inglaterra, a história tem duas linhas de tempo: o presente, na Inglaterra dos anos 80, e o passado, no Japão pós-guerra dos anos 50.
Etsuko, a personagem principal, vive no presente o luto pela filha mais velha, Keiko, na Inglaterra, e a visita da filha mais nova, Niki, a faz lembrar de seu passado, no Japão, mais especificamente em Nagasaki, época em que o país e sua cidade natal se recuperavam da experiência terrível da bomba atômica, tendo que lidar ainda com a ocupação do território pelas tropas estadunidenses e a adoção de novos costumes.
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A visita da filha, então, é o ponto de partida para a trama principal: a lembrança que Etsuko tem de uma amizade improvável, quando estava grávida da primeira filha, com uma mulher de costumes estranhos, Sachiko, e sua filha pequena, Mariko, uma menina um tanto selvagem.
O livro traz diálogos misteriosos, sutis, afiados, irônicos e levemente divertidos, muitas vezes manifestando opiniões nem sempre bem-vindas em tom de brincadeira, mas a trama é densa, tensa e intensa – a sensação é de que a qualquer momento algo de muito grave vai acontecer (embora o pior já tenha acontecido), deixando o leitor com o coração na mão.
É interessante observar que o autor compartilha com as personagens Etsuko e Keiko (e por que não dizer também com Sachiko e Mariko) essa cisão: nascer no Japão e depois migrar para um país ocidental, ou seja, deixar algo de sua identidade para trás. Perdas e conflitos, talvez vivenciados pelo próprio autor, perpassam a trama: o passado militar e patriótico do Japão versus o surgimento da democracia trazida de fora e à força pelos Estados Unidos, a velha tradição rígida e machista versus os costumes mais liberais do novo mundo, surgindo um vislumbre de crítica à maternidade compulsória e ao papel submisso e secundário da mulher na família e na sociedade, papel este cuja realização só se dava com o casamento e a maternidade. E me parece instigante que isso tenha sido notado por um escritor homem no início da década de 80.
“Veja o que acontece. Marido e mulher votando em partidos diferentes. É uma tristeza quando não se pode mais confiar na mulher nessas questões. […] Atualmente, uma mulher não tem a menor lealdade para com a família. Faz o que quer, vota num partido diferente se lhe dá na telha. Isso é típico da maneira que as coisas passaram a ser no Japão. Em nome da democracia, as pessoas abandonam suas obrigações.” (p. 68)
“Depois que a criança chegar”, ela disse, “você vai se sentir ótima, creia em mim. E vai ser uma mãe admirável, Etsuko.” (p. 82)
“Afinal, Etsuko, o que eu tenho a perder? Não há nada para mim na casa do meu tio. Só uns quartos vazios, é tudo. Posso ficar sentada num daqueles quartos até envelhecer. Não há mais nada além disso. Só quartos vazios, nada mais. Você mesma sabe disso, Etsuko.” (p. 182)
Em meio a muita sutileza, pois também tem peso o mistério do que não é dito, Etsuko parece uma espectadora da própria história ao focar na amiga que escolhe ir embora do Japão com a filha e um marido estrangeiro. Ao relembrar essa amizade, Etsuko (antes Ogata), que também foi embora do Japão com a filha e um marido estrangeiro (agora Sheringham), acaba se enxergando naquela mulher estranha cujo comportamento muitas vezes julgou. Será que a amiga estava levando em conta o melhor para sua filha ao fazer tal escolha? Ou seria ela própria essa mulher?
A memória, eu sei, pode ser pouco confiável; muitas vezes ela é bastante influenciada pelas circunstâncias em que nos lembramos das coisas, e sem dúvida isso se aplica a certas recordações que reuni aqui. (p. 166)
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Em um embate interno entre o velho e o novo, entre o passado e o presente, entre trauma coletivo e tragédia individual, entre a mulher que foi e a mulher que é, entre as raízes japonesas e outra cultura, entre mortos e vivos, nesse choque de diferentes sociedades e identidades, vislumbra-se um futuro no limbo – resta um ser desalinhado e deslocado frente à necessidade de seguir em constante reconstrução da vida – com esperança, mas também com uma dose de autoengano.
No final das contas, este breve e envolvente romance de estreia de Ishiguro aborda temas que – retrospectivamente – percebemos como recorrentes em seus outros livros, como o papel que nossas escolhas têm não somente sobre nosso próprio destino, mas sobre o das outras pessoas à nossa volta, para o bem ou para o mal. Ao trazer à tona segredos e lembranças das profundezas do passado, outra constante do escritor, há uma oportunidade para elaborar sentimentos e lançar uma nova luz, ainda que pálida, sobre acontecimentos difíceis e traumáticos.
“Na verdade, também me dei conta de outra coisa, hoje de manhã”, eu disse. “Outra coisa sobre o sonho.” […] “Veja só”, eu disse, “a menina não está num balanço. Achei que fosse isso, no começo. Mas ela não está num balanço.” (p. 102)
As crianças se transformam em adultos, mas não mudam muito. (p. 139)
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Uma Visão Pálida das Colinas, de Kazuo Ishiguro.
Companhia das Letras, 2025.
Romance, 200pp.
R$ 74,92.

