Esse César Aira que conhecemos hoje, publicado por grandes editoras internacionais, é um evento relativamente tardio em sua história. A experiência inicial de publicação de seus trabalhos é tão peculiar que foi parodiada em um livro intitulado Vita Nova, que escreveu em homenagem a seu primeiro editor.

A maneira como compreendemos a autoria literária tende a varrer para debaixo do tapete as relações entre os autores e quem os edita. Enfatizamos o exercício da criação de maneira ainda muito dependente de uma visão quase teísta da coisa: o autor concebe, se empenha, cria, e pronto.
Essa percepção apaga um processo complexo e multidimensional, com muitas etapas envolvidas. Uma pessoa que trabalha com edição é um profissional com qualidades muito particulares, e fundamentais para propiciar que um texto se torne o melhor que pode ser. É uma figura de barreira, que nos salva da autoindulgência confortável de quem se acha e se publica em hipertrofia de amor-próprio, crendo que apenas por ter emergido de sua pena algo já tem condições de vir a público. Algumas vezes sim, mas em muitas não – e na maioria dos casos a presença e mediação de um editor competente, operando entre quem escreve e quem lê o livro publicado, é de grande valor. Há, frequentemente, a intervenção opinativa de quem edita, assumindo o papel de primeiro e privilegiado leitor, com direito de diálogo e proposição de alterações no manuscrito apresentado. Além disso, os editores se identificam e dão mostra de sua sensibilidade pelo catálogo que suas casas editoriais constroem. A seleção de autores para configurar um projeto editorial é a assinatura de quem edita, e assim se constroem perfis recíprocos, nos quais as editoras ganham a cara dos autores que publicam ao passo que os autores se fazem autores “do tipo que” uma certa editora inclui em seu catálogo.
Há uma fortuna de casos que poderíamos explorar nesse sentido, e o caso de César Aira é bastante interessante para pensar a relação entre autores e editoras. O que se diz é que seus textos não são nunca corrigidos ou transformados: que ele corrige um livro com o subsequente, e que uma vez findo e datado um manuscrito é um passo em um processo, em um exercício de autoria no qual ideias de devir e deriva são centrais. Além disso, Aira sempre se mostrou atento para a preservação da diversidade em sua transação com as editoras. Entendendo a publicação como uma forma de intervenção, uma atitude parceira e fraterna às editoras alternativas, independentes, artesanais e nanicas nunca o abandonou.
Esse Aira que conhecemos hoje, publicado por grandes editoras internacionais, é um evento relativamente tardio em sua história. A experiência inicial de publicação de seus trabalhos é tão peculiar que foi parodiada em um livro intitulado Vita Nova, que escreveu em homenagem a seu primeiro editor. Horácio Achával publicava eventualmente títulos esparsos como parte de um selo editorial seu, “Achával solo”. Encantado pela prosa de Aira e julgando injusto que houvesse sido rechaçado por outras editoras, se comprometeu a publicar aquele romance estranho intitulado Moreira, o primeiro que Aira decidiu tirar das gavetas e passar adiante, buscando ativamente ser publicado. Tem início assim um périplo de anos, durante os quais o livro nunca sai e Aira continua inédito: escrito em 1974, o livro leva no colofão o ano de 1976, mas só vem a público em 1982. No romance Vita Nova, Aira leva a situação que viveu ao extremo, os anos se alargam e o livro nunca sai. Com isso, Aira nunca se torna autor. Claro: sem um primeiro livro, como chegar ao centésimo? Típico de Aira isso de escrever uma homenagem a seu primeiro editor sob a forma de uma vida alternativa na qual, graças a esse mesmo editor, ele nunca começa plenamente sua prolífica carreira de escritor.
‘Por anos Aira já existia como autor de fato, reconhecido por um círculo pequeno de outros autores, publicando aqui e ali. Mas seria preciso que passasse um tempo até que ele ganhasse uma fisionomia particular, associada a uma casa editorial específica.’ – Antonio Marcos Pereira
Essa peripécia diz de uma entrada um pouco desvairada de seu trabalho no universo da publicação. Por anos Aira já existia como autor de fato, reconhecido por um círculo pequeno de outros autores, publicando aqui e ali. Mas seria preciso que passasse um tempo até que ele ganhasse uma fisionomia particular, associada a uma casa editorial específica.
Isso ocorre a partir do momento em que começa a ser publicado pela Beatriz Viterbo Editora. Seus livros ganham uma cara própria, dimensões parecidas, em todas as capas um trabalho original do mesmo artista, o pintor Daniel Garcia, que sempre dialoga com as narrativas. Aos poucos os lançamentos vão se avolumando, e a identidade visual comum fazia com que fosse possível entrar numa livraria e reconhecer de imediato os Aira da Viterbo. Uma iniciativa que começa de maneira bastante punk, a editora surgiu em Rosário principalmente por força do vínculo entre duas amigas, Adriana Astutti e Sandra Contreras. Foram os muitos anos publicando pela Beatriz Viterbo que marcaram sua passagem para um outro momento de sua vida como Autor. É Contreras quem vai se tornar a autora da primeira tese de doutorado sobre Aira, um trabalho crítico formidável, ainda muito pujante, e que, junto com sua iniciativa de conferir um abrigo editorial sistemático a Aira, contribuiu para o desenvolvimento do autor influente, canonizado e nobelizável, que agora lemos. Aira correspondeu à altura (e à sua maneira), tornando as duas editoras personagens de seu romance absurdo e hilariante Os mistérios de Rosário.
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Aqui no Brasil, curiosamente, se cumpriu uma rota algo paralela. Seus primeiros livros são publicados por uma editora, depois aparece um título importante por uma outra, e uma terceira publica uma coletânea de ensaios dispersos que, durante muito tempo, sequer tinha equivalente na Argentina. Editoras grandes, de médio porte, minúsculas e artesanais publicaram Aira aqui. A seleção de títulos parece caprichosa, ao sabor das disposições de cada editor, e vão construindo uma fisionomia algo espectral de Aira, na medida em que tendências inteiras de sua produção são ignoradas ao longo dos anos. O signo da dispersão caracteriza esses lançamentos.
Esse estado de coisas foi alterado recentemente com o aporte da Editora Fósforo, que adquiriu direitos de uma quantidade considerável de títulos e se propôs a lançá-los como parte de uma alentada coleção Aira. São livrinhos com o mesmo formato e design, facilmente reconhecíveis, num projeto de publicação qualificado e criterioso. Os livros vêm acompanhados de posfácios, um gesto de suplementação dos textos originais que convida ao avanço da leitura pelo comentário crítico. Eu mesmo contribuí com um posfácio para um de meus livros favoritos do Aira, Parmênides, e encontro outros colegas e amigos interessados na produção de Aira envolvidos também com esse projeto editorial. Assim como ocorreu com a operação da Beatriz Viterbo Editora em outro lugar e momento, um trabalho dessa ordem altera o curso da leitura, modifica o autor diante dos nossos olhos. Aira já tinha uma obra, mas essa edição dá consistência à presença do autor no Brasil de maneira inédita.
Como leremos Aira aqui, depois dessa iniciativa de construir editorialmente sua apresentação como obra, saberemos depois. Em um trabalho tão marcado pela abundância e generosidade como o de Aira, parece muito adequado que sua publicação seja abordada a partir de princípios semelhantes.
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Antonio Marcos Pereira é professor de literatura no Instituto de Letras da UFBA e crítico literário.
