Entrevistas

Cecília Rogers: “Escrever também é reconstruir sobre os rastros, cicatrizar feridas”

Em entrevista à revista O Odisseu, Cecília Rogers conta como foi costurar elementos da realidade para construir a ficção Rastro de vento, lembrança de areia.

Foto: Divulgação.


Há muitos elementos comuns entre a trajetória da escritora Cecília Rogers e o que lemos em seu novo romance Rastro de vento, lembrança de areia (Patuá, 2026). A migração de uma família inglesa para o Brasil, a formação da leitura a partir de diferentes matrizes de pensamento e a reconstrução de um passado por meio de vestígios nos dão a entender que estamos lendo algo que diz respeito à própria vida da autora. Mas, como nos conta Rogers na entrevista que você lê agora, não é bem assim. “Não é uma autoficção”, ela me diz. Mas também me conta que muito do que escreveu vem de um resgate da própria história da sua família. 

O que lemos no romance é justamente essa busca pela história escondida de uma família marcada pela imigração — da Europa para a América do Sul — e que foi soterrada pelas intempéries do tempo. O livro funciona, portanto, nesta metáfora da arqueologia. Através de provas mínimas — cartas e fotografias — a voz narrativa vai formando um panorama de uma trajetória que poderia desaparecer em consequência do desinteresse. Para a O Odisseu, Cecília conta que a própria experiência enquanto uma pessoa que vem de uma família de migrantes importa, mas ela não abre mão do exercício da ficção. Confira como ficou a conversa!

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“As cartas e fotografias são vestígios da minha história real que acionaram um caminho para a construção do romance”, diz Cecília Rogers

Cecília, teu novo romance convoca memórias pessoais e reconstrói também a história de uma família que, ao que nos parece, é a sua. Trata-se de uma escrita de si, então. Poderíamos classificar como uma autoficção?

Não, não se trata de autoficção. Na verdade, eu parto de um fato real, que foi o nascimento de meu pai em Fortaleza, Ceará, quando meu avô, que era inglês, lá se encontrava à trabalho. A partir daí, eu ficcionalizo a história de uma família e a busca de um jovem pela memória do avô e sua própria identidade. O que é ser estrangeiro num lugar? Fiquei imaginando como meu pai se sentia. Além disso, eu me aproprio de rastros, como a casa de pedras, que na verdade era um bangalô onde meu tio morou na Cotswolds, de fotografias antigas que mostram meu pai já adulto numa casa no Ceará, que não sei bem a quem pertencia. As minhas referências são todas muito vagas porque pouco se preservou dessa memória familiar. Então, como meu pai era um leitor voraz, eu quis homenagear não apenas esse amor pela palavra, mas também estabelecer um caminho de afeto, como o único idioma possível para esse encontro com a memória, pelo registro da palavra, ainda que já não fosse a mesma.

O diálogo com o seu neto parece ser o fio condutor e também o motor que inicia a narrativa. Foi também a presença e a curiosidade dele que te motivou a escrever este livro?


Bem, meu neto tem sete anos e é bem curioso sim, mas o que  ele faz é despertar minha sensibilidade. Eu quis me desafiar no sentido de trazer um narrador masculino sensível e que o caminho dele fosse movido pelo amor e pela palavra.

Trazer ao primeiro plano estas memórias pode ser uma experiência no mínimo emocionante. Quais foram os sentimentos que vieram à tona enquanto você escrevia o livro?

Como te disse, já que não se trata aqui de autoficção, foi bem mais tranquilo de construir. Quando estive no Ceará, ao sabor do vento e das incertezas das dunas, pensei que tudo pode ser agora e depois não mais, e depois ser de novo, se é que me entende. Foi emocionante sim, remexer os vestígios e pensar do tanto que não foi dito nem registrado da minha história familiar. Sentimentos de vastidão e vazio.

Encontrei em seu romance também algumas pontes interessantes com a sua poesia que conheci no livro “A mulher anda sobre as águas”. Como se dá o diálogo entre o fazer poético e a escrita em prosa na sua obra?

Na verdade estão sempre interligadas. Escrevo em prosa poética, quando escrevo prosa. Muitas vezes o tema de uma história surge a partir de um exercício poético e que depois pode se transformar em romance.

Eu comecei a escrever Rastro de vento, lembrança de areia antes de Uma mulher anda sobre as águas, claro, mas a força dessa mulher poética se impôs e eu deixei o romance descansar. Depois que retomei, ele veio com força maior, essa força misteriosa da palavra.

Um dos tópicos que o teu romance aborda é a migração, algo que também marca a história da sua família. No romance, você traz elementos da cultura européia e brasileira. Falando especificamente de você e da sua construção como escritora, você pensa que esse entrecruzar de referências marca a sua escrita?

Com certeza marcou. Meu pai me introduziu aos livros pela literatura estrangeira, porque pouco conhecia da brasileira e seu idioma de leitura era o inglês, apesar de ser tradutor e estar no Brasil há alguns anos. Assim comecei a ler os clássicos Charles Dickens, Victor Hugo, Mark Twain, Robert Louis Stevenson e até Shakespeare através das edições de ouro que ele comprava para me presentear. Somente na escola tive contato com a literatura brasileira. A literatura clássica é impregnada pelo sentimento e dores universais do humano e isso certamente marcou a minha literatura.

Alguns elementos estéticos muito interessantes aparecem na obra e marcam o tom memorialístico: a presença das fotografias e das cartas. Por que esses elementos? O que eles buscam oferecer para a sua narrativa?

As cartas e fotografias são vestígios da minha história real que acionaram um caminho para a construção do romance. Tanto as fotografias como as cartas dão veracidade à dubiedade da memória.

Mas não seria mais possível escrever aquela história, que já perdera tanto dos seus rastros. 

Assim como em outras obras suas, a questão da mulher também aparece em “Rastro de Vento, lembrança de areia”, porém aqui de maneira menos afirmativa e mais sutil, especialmente pelo sentimento das personagens mulheres da sua obra. Fale um pouco para nós como você buscou trazer a questão do feminino para a obra e em que se diferencia de outras obras suas. 

Meu desejo aqui foi trazer as questões do feminino através do olhar masculino. Mas um masculino sensível, que pudesse fazer refletir também sobre sua relação com o feminino. Um olhar possível e desejante, mesmo que o foco fosse a relação entre avô e neto, memória e linguagem. Um desafio como escritora.

Escrever sobre algo tão próximo da sua realidade familiar pode exigir um tanto de vulnerabilidade. Como lidar com estar vulnerável?

No meu primeiro romance, Agualuz, também foi assim. Vestígios incertos, outra história, um drama psicológico. Ali eu comecei a aprender a lidar com isso. Aqui, nesse romance, eu vou tecendo o que é e o que não é. Esse jogo de enganos é uma característica do barroco, que permeou minha dissertação do mestrado e que percebo que permanece. Mas, para além disso, digo que escrever também é reconstruir sobre os rastros, cicatrizar feridas.

Rastro de vento, lembrança de areia, de Cecília Rogers/ Editora Patuá, 2026/