
A literatura engajada
A transformação de escritores em influencers em busca de engajamento revela uma mudança neoliberalizante profunda na lógica de produção e circulação da literatura.
Foto: Prêmio Jabuti (Divulgação).
“Publicidade ou não, feira ou não, o livro é outra coisa. Nunca me farão acreditar que um livro é ruim porque seu autor aparece na televisão. Mas tampouco que ele é bom apenas por essa razão.”
(O filósofo mascarado, 1980)
Criado em 1958 pela Câmara Brasileira do Livro, o Jabuti é uma das mais tradicionais premiações do mercado editorial brasileiro. Ao longo de suas quase sete décadas de existência, tornou-se um importante reconhecimento para autores, editores e demais profissionais do livro, contemplando obras de diversos gêneros, como romance, conto, poesia e não-ficção. Por mais que por vezes se questione os critérios e a escolha do júri, o prêmio continua renomado, comentado e desejado por pessoas que trabalham com literatura em nosso país.
Recentemente, o Jabuti anunciou uma nova categoria. Intitulada Incentivo à leitura – Cultura digital, com ela promete-se premiar influenciadores e criadores de conteúdo que estimulam a leitura no YouTube, TikTok, Instagram e podcasts. A novidade, obviamente, causou controvérsia no meio e reacendeu a tensão recorrente entre a tradição e a inovação através do debate acerca das diferentes formas de mediação cultural. Parte das críticas aponta que a iniciativa dilui o foco tradicional do prêmio, historicamente dedicado à valorização de obras literárias e da cadeia do livro. Aponta, assim, para o risco de transformar uma premiação literária em um reconhecimento de performance digital e de métricas de engajamento, deslocando o centro da avaliação da qualidade textual para critérios de alcance e popularidade que, muitas vezes, pouco ou nada tem a ver com valores estéticos propriamente ditos.
Por outro lado, defensores da nova categoria argumentam que o cenário da leitura e da circulação de livros mudou drasticamente com a presença incontornável das redes sociais, e que, para além dos métodos tradicionais, influenciadores têm tido papel relevante na formação de novos leitores e na divulgação da literatura que se faz hoje no Brasil. Por este viés, a atualização permitiria o reconhecimento e a chancela de agentes culturais contemporâneos que aproximam o público dos livros e ampliam o debate literário em ambientes digitais e para fora dele.
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“A relação entre literatura e engajamento nas redes sociais tem transformado tanto a circulação quanto a própria produção literária contemporânea” – Danichi Hausen Mizoguchi
A quase onipresença das redes sociais obviamente transformou profundamente a forma como as pessoas constroem sua percepção de mundo – como se relacionam, comem, circulam pela cidade, se angustiam, desejam, vivem. As plataformas operam em fluxo contínuo, misturando entretenimento, opinião, publicidade e notícias em um mesmo espaço, o que tende a diluir fronteiras entre o público e o privado e confundir as diversas personas que todos somos. A presença constante cria uma lógica de atualização permanente, e a visibilidade e o engajamento se tornam formas praticamente incontornáveis de valorização social e pertença. Como Gilles Deleuze já havia intuído em um pequeno texto especulativo do começo da década de 1990, as redes não apenas refletem a realidade, mas participam ativamente de sua construção.
Assim, a relação entre literatura e engajamento nas redes sociais tem transformado tanto a circulação quanto a própria produção literária contemporânea. Plataformas digitais criaram espaços de visibilidade para escritores e leitores animados por formatos mais curtos, compartilháveis e frequentemente mediados por algoritmos. Comunidades digitais, resenhas em cem caracteres e poemas virais modificam o interesse por obras literárias e tensionam dialeticamente a relação entre profundidade crítica e consumo veloz. Muitos autores e editoras passaram a considerar as redes como parte central de suas estratégias de divulgação, transformando a literatura em um campo cada vez mais atravessado por dinâmicas de visibilidade digital: literatura e engajamento, enfim.
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A arte engajada sempre foi aquela que, para além da expressão de uma sensibilidade estética singular, assume determinado posicionamento formal diante das questões de seu tempo. Antes mesmo da nomeação terminológica e da formulação teórica, já existiam manifestações com caráter político e social. No século XIX, escritores ligados ao realismo, como Émile Zola, ou ao romantismo, como Vitor Hugo, por exemplo, utilizavam a literatura para denunciar desigualdades e expor as contradições da sociedade industrial de classes.
A noção ganhou força, porém, sobretudo no século XX, especialmente na cisão tripartite que, em meados da década de 1920, colocou em cena três sólidas posições macropolíticas em disputa pelo domínio global: a democracia liberal, o comunismo e o fascismo. Benito Mussolini teve no futurismo de Filippo Marinetti o desenho de uma política estética lateralizada e acoplada à direção política que dava à Itália. A Revolução Russa também foi acompanhada por uma efervescência artística peculiar. Movimentos de vanguarda, como, por exemplo, o Construtivismo e o Suprematismo, acreditaram que a arte deveria transformar a sociedade em direção ao comunismo: Vladimir Maiakovski, Kazimir Malevich e Sergei Eisenstein são exemplos de nomes cuja operação artística, ao menos em algum momento, se prestou a forjar uma nova arte para um novo povo.
Antonio Gramsci criou o conceito de intelectual orgânico para descrever aqueles que produzem ideias a partir da inserção concreta em uma classe ou grupo social, contribuindo para organizar, dar consciência e fortalecer seus interesses. Para ele, toda classe social que busca se afirmar historicamente precisa formar seus próprios intelectuais orgânicos, capazes de disputar hegemonia no campo das ideias e influenciar a sociedade de maneira mais ampla. Engajamento, portanto.
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“Muitos autores acabam dividindo sua força e seu tempo de trabalho entre produzir literatura e produzir conteúdo para se manter relevantes” – Danichi Hausen Mizoguchi
Em A Nova Razão do Mundo, Pierre Dardot e Christian Laval propõem uma interpretação do neoliberalismo que ultrapassa a ideia de um conjunto de políticas econômicas baseadas na desregulação e na redução do Estado. Para eles, o neoliberalismo deve ser compreendido como uma racionalidade que, no limite, organiza as formas de vida em torno da concorrência e do desempenho transformados em princípios universais de conduta: uma espécie de norma geral na qual indivíduos e instituições passam a se orientar pela lógica da eficiência, da produtividade e da competição permanentes disseminadas através de práticas cotidianas que incentivam cada pessoa a se comportar como uma empresa de si mesma. Em suma, sob o neoliberalismo a subjetividade é reconfigurada para se adequar a critérios de desempenho constante.
Nessa chave de leitura, a transformação de escritores em influencers em busca de engajamento revela uma mudança neoliberalizante profunda na lógica de produção e circulação da literatura. É certo que essa transformação evidencia uma democratização do acesso ao público, ainda que ambígua. Escritores que antes dependeriam exclusivamente de editoras ou críticos agora conseguem construir audiências próprias. No entanto, essa autonomia vem acompanhada de novas dependências especialmente neoliberal – ou, mais precisamente, do capitalismo algorítmico guiado por tendências e expectativas de mercado. Em vez de a obra ocupar o centro, muitas vezes é a persona do autor que se torna o principal produto. Isso desloca o valor da escrita para outras métricas – curtidas, seguidores, compartilhamentos –, criando uma espécie de microcosmos em que a visibilidade e o consumo, por si só, podem pesar mais do que qualidade literária ou exigências estéticas.
Muitos autores acabam dividindo sua força e seu tempo de trabalho entre produzir literatura e produzir conteúdo para se manter relevantes. Nesse jogo de extração simbólica da mais-valia, a construção de uma marca pessoal passa a competir com a construção de uma obra literária consistente. Em suma, no neoliberalismo, o escritor e seu avatar não escapam de serem funcionários não remunerados – ou, na melhor das hipóteses, mal remunerados – de um Mark Zuckerberg qualquer. Talvez, mais do que questionar a nova categoria do Jabuti, seja preciso estranhar a necessidade de aqueles que escrevem se tornarem eles mesmos influenciadores, dando, finalmente, um novo sentido, contemporâneo e neoliberal, à arte engajada. Tostines, afinal, vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?
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Em janeiro de 1980, Christian Delacampagne pediu a um intelectual renomado uma entrevista para o caderno dominical do jornal Le Monde. Esse intelectual aceitou prontamente, mas exigiu uma condição prévia: a entrevista deveria permanecer anônima. Ele justificou sua posição em função do cenário intelectual estar sob o domínio da mídia, as estrelas prevalecendo sobre as ideias e o pensamento não sendo mais reconhecido como tal: o que se dizia, afinal, contava menos do que a personalidade daquele que falava. A entrevista foi publicada sob o título de O filósofo mascarado.
Já na primeira pergunta, conduzida em torno do motivo pelo qual escolheu manter sua identidade em sigilo, ele diz que é pela nostalgia do tempo em que, sendo um desconhecido, o que dizia tinha chances de ser ouvido, a superfície de contato com o leitor eventual era sem arestas e os efeitos do livro surgiam em lugares inesperados e delineavam formas além daquelas que ele havia pensado. O nome, afinal, é uma facilidade. Por fim, ele propõe uma brincadeira: o ano sem nome – um ano inteiro em que os livros seriam publicados sem o nome do autor. Se duplicássemos a brincadeira na direção de algo que esse intelectual não viveu, poderíamos sugerir um ano literário sem algoritmos. Neste estranho futuro do pretérito, diante de escritores sem engajamento, talvez nenhum prêmio ousasse lançar seu edital – porque talvez nenhum livro mais existisse.


