
‘Eu sofri muito escrevendo este livro’, conta Natércia Pontes sobre ‘Vida Doçura’, seu novo romance
Em entrevista à revista O Odisseu, Natércia Pontes conta sobre o seu processo de escrita de Vida Doçura, novo romance que sai pela Companhia das Letras.
Foto: Renato Parada (Reprodução).
Natércia Pontes é um nome consolidado para quem acompanha a ficção brasileira contemporânea. Nascida em Fortaleza e radicada em São Paulo, a autora de Copacabana dreams e Os tais caquinhos chega a Vida Doçura com uma voz muito nítida: uma prosa capaz de fazer conviver melancolia, estranheza e humor sem jamais perder a densidade. Segundo volume da chamada “Trilogia da desordem”, o romance reafirma essa potência num registro mais cortante.
Quando li Vida Doçura, eu ainda não sabia que, pouco tempo depois, receberia o convite para entrevistar Natércia. Foi uma leitura sem pauta prévia, sem a obrigação imediata de elaborar perguntas. Ainda assim, cheguei ao fim do livro tomado por elas. O livro me alcançou também por uma razão íntima: eu vinha de concluir um romance que, por outras vias, tocava questões próximas — o luto, a instabilidade da memória, a dificuldade de dar forma ao que fere. Encontrar essas questões transfiguradas pela escrita de Natércia tornou a leitura especialmente perturbadora.
Em Vida Doçura, acompanhamos Jocasta, uma escritora isolada, às voltas com o trauma da morte precoce da mãe, com o bloqueio criativo e com a obsessão pela vida aparentemente perfeita de uma influenciadora. Mas o romance excede em muito esse enredo: o que interessa aqui é a maneira como Natércia transforma dor, lembrança, maternidade, redes sociais e imaginação em matéria literária inquieta, de grande precisão emocional. Foi desse impacto de leitura que nasceu a entrevista a seguir.

‘Escrevo para brincar de viver’, conta Natércia Pontes que acaba de lançar ‘Vida Doçura’
Maurício: Apesar de o luto ser o centro emocional de Vida Doçura, o romance se move o tempo todo entre a melancolia e o humor. Como você encontrou esse tom sem aliviar a dor nem empurrá-la para o excesso?
Natércia: Não sei como. Não faço cálculo, acho que minha escrita é muito intuitiva e tem essas duas marcas: a melancolia e o humor.
Maurício: Ao longo de Vida Doçura, o suicídio aparece em registros muito distintos, às vezes de forma bastante discreta, inclusive em alusões literárias como o trecho de Cesare Pavese perto do final. Essa construção em camadas, que aprofunda a leitura sem exigir o reconhecimento de todas as referências, foi uma escolha deliberada desde o início ou surgiu no próprio curso da escrita?
Natércia: Minha escrita sempre foi coalhada de referências, faço isso muito sem ter consciência do que faço. Considero meu trabalho praticamente uma colagem de referências, sons e imagens.
Maurício: Há, no romance, algo muito forte na relação entre memória e imaginação. Por que essa zona em que a lembrança já não é estável lhe interessa tanto, literariamente?
Natércia: Eu me interesso muito em caminhar nesse espaço fronteiriço entre ficção e “realidade”. Todo escritor faz isso. É aí onde está o encanto. O meu jeito de fazê-lo talvez seja mais explícito.
Maurício: Você já chamou o livro de “pseudo-autoficção”. Em que a ficção lhe permitiu ir mais longe do que um relato mais diretamente autobiográfico permitiria?
Natércia: Em tudo que eu puder imaginar ou ressignificar o que vivi. Por isso escrevo, para brincar de viver. Observo minha filha Madalena de oito anos fabulando sozinha e penso: “Eu faço a mesma coisa escrevendo”.
Maurício: Vida Doçura encena um fascínio perturbador pela vida alheia exposta em tela. Por que lhe interessava explorar essa fricção entre solidão, voyeurismo, internet e desejo de pertencimento?
Natércia: Acho que esse é um tema tão contemporâneo, a era das redes sociais e os efeitos nefastos delas, que me surgiu a ideia de explorar essa fricção porque também estou mergulhada no mesmo caldo envenenado.
“Eu atravessei um deserto que relutei atravessar por 36 anos”
Maurício: Há no romance uma atenção muito aguda ao doméstico, ao cotidiano aparentemente banal. Em que medida esse espaço da rotina e dos pequenos gestos revela mais do que os grandes acontecimentos?
Natércia: Eu acho que em certa medida esses pequenos gestos são mesmo os grandes acontecimentos da nossa vida comezinha. Porque na verdade são. E são gestos muito preciosos. Acho que Vida Doçura grita isso em cada página.
Maurício: Fiquei muito tocado pela escolha do nome do gato de Jocasta: Argos Panoptes, figura associada a uma vigília incessante, a um olhar que nunca dorme. Essa referência foi pensada desde o início como uma chave simbólica do romance ou encontrou seu lugar mais intuitivamente no curso da escrita?
Natércia: O gato ia chamar Érico (uma semelhança a Édipo) e o Argos Panoptes era o narrador do romance. Minha editora maravilhosa felizmente me convenceu a botar o nome no gato e matar esse narrador exótico até demais, beirando ao ridículo. Rs.
Maurício: Numa cena muito forte da primeira seção do romance, Jocasta, depois de ouvir um trecho do Nirvana, faz em voz alta duas perguntas em sequência: “Como você conseguiu? Como eu consegui?”. Nesse jogo de espelhos, sobreviver e sucumbir parecem se tocar por um instante. Como essa tensão se construiu para você?
Natércia: De forma extremamente dolorosa e angustiante. Eu atravessei um deserto que relutei atravessar por 36 anos. O luto da minha mãe suicida. Não pude ir ao seu enterro. Agora, depois de escrito, depois de enterrar minha mãe, me sinto um pouco mais leve e organizada.
Maurício: A maternidade atravessa o livro de maneira complexa, sem idealização. Como você trabalhou literariamente esse tema para fugir tanto do sentimentalismo quanto do cinismo?
Natércia: Eu não escrevo “tentando fugir” de nada. Escrevo por motivações estéticas e pelo meu entendimento de mundo. Em específico, neste livro, a minha experiência em ser filha e agora a de ser mãe.
Maurício: A protagonista é também uma escritora em confronto com a própria escrita. Por que lhe interessa a figura de alguém que escreve e, ao mesmo tempo, emperra diante daquilo que precisa escrever?
Natércia: Porque fiz um espelhamento de traços da Jocasta com alguns de meus traços íntimos. Principalmente como escritora, o jeito como ela pensa e estrutura a arquitetura do texto é bem parecido com o meu.
Maurício: Em alguns momentos, o romance flerta com o suspense. Como foi incorporar essa tensão sem abandonar a densidade psicológica e a singularidade da sua prosa?
Natércia: Eu trabalhei há dois anos como roteirista para uma série que não foi ao ar. Foi maravilhoso. É um jeito totalmente diferente de construir uma história. Aprendi muitas técnicas, como ganchos e “easter eggs”. Acho que essa nova ferramenta se incorporou ao meu texto para que eu pudesse escrever um thriller. Não houve atritos, fluiu.
Maurício: Você escreveu que Vida Doçura não oferece respostas, mas enigmas. De que literatura você desconfia quando ela oferece solução demais?
Natércia: Não gosto de literatura pedagógica, moralista, professoral, panfletária (no pior sentido da palavra). Acho que nem é literatura. É outra coisa. Para mim a literatura é um lugar sombrio e ao mesmo tempo colorido, sem lei.
Maurício: A expressão “trilogia da desordem” sugere menos um projeto estável do que uma espécie de insistência em certos impasses. Que impasse Vida Doçura retoma de Os tais caquinhos? E que impasse novo o terceiro volume, A bastarda magrinha, vem abrir?
Natércia: O impasse de se assimilar determinados rituais diários para se constituir a rotina, portanto a ordem. E essa ordem a que me refiro não se define somente na palavra “rotina”, mas uma ordem geral das coisas que regem o mundo. Constituições familiares, sexuais, políticas, emocionais. Gosto de tentar questionar o jeito de viver e de ser no mundo.
Maurício: Há algo no romance que parece interrogar a promessa contemporânea de felicidade, desempenho e vida organizada. Vida Doçura também é, para você, um livro sobre a violência dessas imagens de normalidade?
Natércia: Sim! Só percebi isso com esta pergunta. A rotina excessivamente organizada e limpa da Jovana é tão angustiante quanto o desleixo da vida da Jocasta. Quis criar esses dois polos de contraste para escarafunchar um enigma do que é saber conduzir sua individualidade, sua trajetória de vida. A condição humana, mesmo.
Maurício: Em textos seus, a experiência da filha e a experiência da mãe parecem se embaralhar de maneira profunda. Escrever Vida Doçura deslocou a forma como você pensa a mãe que teve, a mãe que é, ou as duas coisas ao mesmo tempo?
Natércia: Sim. Eu sofri muito escrevendo este livro. Mexeu em cantos profundos meus e basilares também. Esse embaralhamento me embaralha todos os dias e graças a psicanálise que faço há 24 anos e à literatura, eu consigo sobreviver a ele.
Maurício: Muitos acham — e eu me incluo entre eles — que a literatura não existe para resolver nada, mas para aprofundar. Depois de escrever esse romance, qual foi a pergunta mais incômoda que permaneceu em você?
Natércia: “Como nós conseguimos, mãe?”


